Pavilhão 31: arte no Júlio de Matos

Sandro Resende, coordenador artístico do hospital, fala mais sobre este reconhecido projeto e a exposição com artistas cariocas – “Deslocado”, até 15/12
SANDRO RESENDE -CIAC
Sandro Resende, coordenador artístico do projeto Pavilhão 31

Após passar pelo curso de pintura da Escola Superior de Belas-Artes de Lisboa (ESBAL) e especializar-se no Instituto de Artes e Ofícios da Fundação Ricardo Espírito Santo Silva (IAO/FRESS), o então finalista Sandro Resende não poderia imaginar que um simples anúncio de jornal poderia alterar radicalmente sua trajetória artística. Na ocasião, a chamada para uma vaga de monitor de artes plásticas no Hospital Júlio de Matos, o atual Centro Hospitalar Psiquiátrico de Lisboa (CHPL), foi recebida como uma boa oportunidade para aprofundar seu tema de pesquisa – o “reconhecimento do eu perante o outro”, o qual segue vigente até os dias de hoje, assim como o ofício no CHPL, onde continua a dar aulas e também coordena as atividades do reconhecido Pavilhão 31. O espaço, inaugurado em março de 2012 e que legitima todo o trabalho realizado ao longo de uma década, tornou-se referência por integrar os artistas do hospital psiquiátrico com convidados vindos de fora, entre renomados, emergentes e internacionais. No próximo dia 29 de outubro, por exemplo, o Pavilhão 31 inaugura a exposição “Deslocado”, uma coletiva com diversos artistas do Rio de Janeiro. Vale a visita!

José Pedro, um dos artistas da Deslocado
José Pedro, um dos artistas da Deslocado

“A realidade foi que, ao longo do tempo em que trabalhava com os artistas do Júlio de Matos, mais queria uma evolução em conjunto e pessoal de todos. Por isso, eu fui ficando, abdicando um pouco do meu trabalho pessoal”, revelou Sandro, ao lembrar que o projeto ganhou força com as próprias adversidades encontradas. No início, com a evolução da parceria com os utentes e com a qualidade artística alcançada, o professor sentiu a necessidade de apresentar esses artistas e seus respetivos trabalhos, mas, segundo ele, as portas das galerias e dos espaços procurados estavam fechadas. “Nessa altura, comecei a usar pavilhões devolutos do CHPL, onde convidava artistas dito normais para trabalhar com artistas ditos não normais. Assim, em 2002, realizamos a primeira grande exposição colectiva, com mais de 40 artistas, no pavilhão 21c. O resultado foi bom, a nível de aprendizagem (para mim era importante que os artistas do Júlio de Matos tivessem contacto com outros artistas, curadores e galeristas), e o próprio hospital também gostou, ao investir na cultura. Isso foi importante, foi um investimento de liberdade artística”, completou.

p31 2De acordo com Sandro Resende, ao longo destes 13 anos de trabalho, mais de 50 exposições já foram realizadas nas dependências do CHPL, seja no pavilhão 24, no 27, no 28 (este o mais conhecido) ou, finalmente, no espaço permanente Pavilhão 31. Independente do local, muitos artistas relevantes já passaram por lá e, o principal, muitos utentes também formaram-se artistas, com trabalhos em galerias e, inclusive, a viverem da própria arte. O fato é que, a partir do trabalho realizado no cotidiano, o projecto cresceu, tornou-se reconhecido internacionalmente – em 2011, representou Portugal na Bienal de Arte Bruta em Muster (Alemanha) – e, agora, segue sua missão de agenda cheia. “Não houve qualquer modelo a ser seguido, apenas bom senso, liberdade e uma verdadeira procura da qualidade artística. Nunca houve um olhar para um doente como doente, mas sim como de uma pessoa para outra pessoa”, explicou o professor e artista, ao completar: “não praticamos arte terapia, mas sim arte”.

Deslocado à carioca 

Rafael Uzai , artista carioca
Rafael Uzai , artista carioca

Sob a curadoria de Marcelo Duarte, da galeria Graphos SA – sediada em Copacabana, no Rio de Janeiro -, a exposição “Deslocado” integra o trabalho brutal de cinco artistas da Cidade Maravilhosa, Alexandre Baltazar, Marcelo Macedo, Olav Lorentzen, Peu Mello e Rafael Uzai, com dois residentes do P31, Anabela Soares e João Pedro. Apesar de manterem estilos próprios e distintos, os artistas convidados possuem muitos pontos em comum: além de amigos e parceiros de trabalho, compartilhavam o mesmo ateliê, interesses profissionais e um estilo de vida voltado para uma refinada simplicidade. Por conta desta aproximação natural e, inclusive, como origem deste projeto, esses artistas – de um grupo de 15 nomes emergentes – foram desafiados a criar obras e conceitos para um espaço comercial e sem vida, completamente inserido no mercado da arte contemporânea e, por consequência, fora de suas zonas de conforto (a praia). No entanto, em terras portuguesas e com esse curioso intercâmbio previsto, o desafio agora será maior: “explorar profundamente o conceito de ‘deslocado’, suscetível a interpretações individuais que vão além das questões físicas e culturais inerentes”, como indica o texto de divulgação.

De acordo com Rafael Uzai, um dos artistas presentes na mostra inicial (“Matilha”), realizada no ano passado, e também um dos convocados para esta nova exposição no P31, essa experiência tem se mostrado como uma oportunidade imensa de refletir sobre a vida. “O hospital é um lugar que tem uma energia especial. O Sandro e o Luiz (Lemos), que são responsáveis pela coordenação da parte artística da instituição, nos receberam muitíssimo bem e estão nos dando toda a atenção e suporte que precisamos. Isso está sendo muito importante para os artistas durante o processo de criação”, declarou Rafael, ao adiantar que, até para justificar o título da exposição, os artistas convidados priorizaram a criação no ateliê do hospital psiquiátrico: “todos nós estamos produzindo obras aqui. Eu trouxe poucas peças e minha intenção era buscar inspiração nos residentes do hospital para criar”. Neste caso, depois de tudo pronto, o curioso é olhar as obras em geral e não conseguir distinguir os trabalhos criados entre os residentes e os convidados. É tudo arte, maluco!

Deslocado – Pavilhão 31 (Hospital Julio de Matos)
Avenida do Brasil, 53. Lisboa.
De 29/10 até 15/12
Entrada: Livre
Mais informações: http://www.chpl.pt/artigos/arte-cultura/p31_pt_66

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