Oze Arv: um partidário da ‘streetart’

Com anos de tinta nas costas e diversos projetos na rua, o artista José Carvalho fala sobre a ação para o Bloco e dos futuros planos, como a ‘StreetArtTour’. Voa, Zé!
jose carvalho
O artista José Carvalho (Oze Arv)

Na reta final das campanhas das últimas Legislativas em Portugal, eleições marcadas pela grande vitória das abstenções – com 43,07% do eleitorado, a taxa mais alta de sempre -, um fato nos chamou atenção em especial: a publicidade de um partido político assinada por um artista de arte urbana. Ao pé da estação do Cais do Sodré e a destacar uma chamativa hashtag (“#welcomerefugees”), como parte de uma ação partidária dedicada à questão dos refugiados, era impossível não reparar neste diferenciado ‘outdoor’ do Bloco de Esquerda, que, em vez de trazer o rosto da líder Catarina Martins, uma das figuras por trás da retomada do partido (que obteve o melhor resultado de sua história), apresentava um trabalho artístico assinado por “Oze Arv”, um dos pseudónimos usados por José Carvalho. Em entrevista ao Ctrl+Alt+RUA, o artista passou a limpo esta história, falou de seus trabalhos atuais e, de quebra, ainda nos adiantou alguns de seus planos futuros, como a StreetArtTour, uma espécie de digressão de arte urbana pelas Américas. Voa, Zé, voa!

BE OZEARV
‘Outdoor’ de Oze Arv para o Bloco

“Na verdade, eu já trabalho com o Bloco há dois anos com oficinas de stencil e workshops. Também já havia feito um mural semelhante para eles em outra ocasião na Graça. Apesar de não ser filiado, compartilho algumas ideias com o partido, principalmente no que diz respeito à cultura. É claro que, se fosse de outra legenda, eu talvez não fosse fazer, mas, neste caso, não tinha porque não aceitar o ‘desafio’”, declarou José entre um cigarro e outro numa das esplanadas do Martim Moniz. Segundo o artista, tudo começou com uma série de imagens publicada no twitter com a ‘hashtag’ “votebloco”, na qual a própria Catarina Martins lhe enviou uma mensagem a sugerir uma ação. Aliás, até no andaime ela subiu para pintar junto com ele e, o melhor, não fez feio com a lata na mão. “Eles me procuraram e me passaram essa temática dos refugiados (no auge da crise nos jornais), mas não me pediram para pintar nada específico. Tive liberdade total para criar. Eu usei os pombos da paz com alvos porque já era um trabalho meu e porque achei que funcionaria bué da bem. Mas, até o ‘vote bloco’ foi uma iniciativa minha”, ironizou o artista que começou no graffiti ainda em 1996 como “1MA63” (lido como IMAGE).

Mural na Quinta do Mocho (Projeto Bairro Mundo)
Mural na Quinta do Mocho

Desta forma, mesmo que inusitado, o “outdoor político” de Oze Arv (que até o momento desta matéria seguia exposto no local) não mostrou-se antiético para o artista e nem para o Bloco, que, por sinal, parece se diferenciar dos demais nesta questão – “Não faz campanha, mas acompanha”, como lembrou José Carvalho em referência às antigas ações culturais do partido no Porto. “O retorno foi positivo, todos elogiaram e vieram agradecer. Tive oportunidade de mostrar meu conceito e também teve uma boa repercussão. Depois, chegaram a me convidar para fazer uma homenagem ao Luaty (Beirão), mas, como já tinha uns outros trabalhos, não teria tempo para fazer”, apontou José Carvalho, que, independente da formação de um governo de esquerda ou não, segue sua caminhada de artista independente, seja como Oze Arv, marca criada há dois anos voltada aos festivais internacionais; ColorBlind, coletivo em parceria com a artista Tamara Alvez, ou Kif11, a crew que divide com o amigo “Creyz”, um dos pioneiros do graffiti em Portugal.

ColorBlind no Walk&Talk Açores
ColorBlind no Walk&Talk (2012)

Dito grafiteiro demais para o pessoal da arte urbana e ‘fineart’ demais para a malta do graffiti, José Carvalho começou com o vandal na rua e aprimorou-se na Escola Superior de Artes e Design de Caldas da Rainha, onde formou-se ainda em 2004. “Tenho o ‘background’ do graffiti, mas foi uma de adaptar meu trabalho de rua com o acadêmico e, partir disso, encontrar algo. Ao me formar, também percebi que o mercado da arte andava meio canibal, produções voltadas para os próprios produtores e, no geral, tudo meio restrito. E, de certa forma, minha cena sempre foi a rua”, revelou José Carvalho, que passou a dedicar-se à arte urbana em 2000 e, atualmente, divide seu tempo entre trabalhos comerciais, murais de grande escala e a montagem de seu ateliê, além dos futuros projetos. Segundo o artista, que diz já ter alguns contatos firmados, sua ideia é realizar uma grande digressão artística pelas Américas, com participações em festivais do norte ao sul do continente. Embora ainda não tenha uma data específica, José Carvalho diz-se preparado, e o sonho desta chamada StreetArtTour não tardará a virar realidade. Navegar é preciso!

kif11
Muro pintado ainda este ano pela crew Kif11, formada por Oze Arv e o amigo “Creyz”.

Saiba mais sobre o artista em:
https://www.facebook.com/OzeArv/?fref=ts
https://www.facebook.com/colorblindcollective/?fref=ts

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