vídeo Lata 65: amor de LX até SP

Ao tirar os idosos do sofá com aulas de arte urbana, o projeto virou referência e, agora, corre o mundo. Mas, e em Lisboa? Com a palavra, Lara Seixo Rodrigues.  
lx janeiro 2015
Lata 65 no LX Factory

A fim de romper a lógica de que lugar de idoso é no sofá diante da televisão, o projeto Lata 65 tomou forma para colorir e transformar a vida dos jovens da terceira idade através de verdadeiras oficinas de arte urbana – proposta que, a princípio, mostra-se audaciosa até para os mais radicais dos velhinhos. No entanto, a partir da primeira experiência realizada em 2012, fruto de um convite do amigo Fernando Mendes (da Cowork), a agitadora cultural Lara Seixo Rodrigues, que havia criado o festival de arte urbana Wool com o irmão (Pedro Seixo Rodrigues) e a cunhada (Elisabet Carceller) no ano anterior em Covilhã, sua terra natal, comoveu-se com o poder transformador do projeto e decidiu abraçar a causa. O fato é que o que era para ser uma ação isolada acabou por virar um projeto de resistência diante de um “assustador” quadro social, no qual a carência de uma simples atenção, quanto mais a de atividades voltadas ao chamado envelhecimento ativo, faz de um simples gesto algo admiravelmente notável. E foi o que ocorreu com o Lata 65, que, mesmo com poucas edições no currículo, já havia ganhado destaque na imprensa internacional e assumido a condição de modelo a ser seguido, com direito a uma recente experiência na capital paulista. Em entrevista ao Ctrl+Alt+RUA, realizada em seu escritório no LX Factory, Lara fala sobre a passagem do Lata 65 por São Paulo, o trabalho realizado ao longo desses anos e, de quebra, ainda explica porque não tivemos mais edições do projeto em Lisboa. “Não é só meter uma lata na mão”, defendeu.

WOOL - Samina (creditos - Pedro Seixo Rodrigues
Obra de Samina na última edição do Wool em Covilhã (Imagem: Pedro Seixo Rodrigues)

“O projeto aconteceu basicamente por causa do próprio Wool. Começamos o projeto em Covilhã e reparamos que os idosos sempre tinham um grande interesse, geralmente eram os que mais participavam e os que mais faziam perguntas. E quando comecei a trabalhar em outras cidades de Portugal, reparei que essa situação era igual. E uma vez, em conversa com um amigo meu daqui de LX, o Fernando, ele disse: e se fizéssemos um workshop? E se, em vez de ser só perguntas, eles pudessem trabalhar. E eu disse logo que sim, que poderíamos experimentar”, declarou Lara, que, na ocasião, não tinha conhecimento de nenhum projeto semelhante – sabia apenas do trabalho de uma assistente social que era artista e que, de vez em quando, levava alguns idosos para pintar na rua. Mas, segundo a idealizadora do projeto, a ideia era criar algo um “cadinho” mais exigente; não apenas uma atividade recreativa, mas uma atividade que fizesse com que eles aprendessem tudo o que há por trás do ato de pegar numa lata. “Assim, para essa primeira ação de 2012, eu montei o projeto todo em cinco dias, no qual os artistas foram convidados de acordo com a técnica que eu queria ensinar naquele dia”, apontou a produtora, ao ressaltar que, neste formato, o Lata 65 surgia como uma espécie de formação em arte urbana para idosos, a contar com a parte teórica, o desenvolvimento dos tags, a elaboração do stencil e, é claro, a pintura: “É um projeto de inclusão também por isso. Eles passam na rua e não percebem nada do que é graffiti, rabisco ou pintura, mas, através deste contato, ficam a perceber. Sempre tive um bom feedback em relação a isso”, completou.

WOOL - Pantónio / Crédito: Pantónio
Obra de Pantónio na última edição do Wool em Covilhã (Imagem: Pantónio)

Se no início havia certas dúvidas em relação à aceitação dos idosos – “será que vão conseguir cortar com o x-ato (estilete)? Será que vão saber desenhar? Será que vão se interessar ou será uma viagem nossa?”, como descreveu a produtora -, a realização desta primeira edição conseguiu dar respostas a todas estas questões e superou todas as expectativas, ou seja, provou que deveria continuar. A partir daí, deste retorno demasiado, a luta de Lara começou a ser outra: o financiamento, na qual o buraco é mais em baixo. “A primeira forma que encontrei foi através do Orçamento Participativo de Lisboa. E, em 2013, candidatei o projeto e ganhei por votação da comunidade, mas sua concretização e gestão interna junto à câmara passou a ser responsabilidade da GAU (Galeria de Arte Urbana). Eu havia sugerido um orçamento para fazer um workshop em cada junta de freguesia, mas, após as remodelações feitas à proposta, tivemos nossa verba reduzida pela metade e assim foi a votação. Quando ganhou, eu insisti e fui correr atrás porque, apesar de serem dez os vencedores, nem todos costumam ser realizados, e eu queria muito dar sequência ao projeto. Chateei imenso, marquei reunião e, no primeiro encontro, deixei claro que o Lata 65 era todos na salinha a trabalhar e, depois, a pintar na rua”, revelou Lara, ao adiantar que, por conta deste impasse burocrático, o projeto chegou a ficar praticamente parado em Lisboa e só foi retomado neste ano. “Ninguém entendeu porque o projeto não teve essa sequência. E hoje há pessoas interessadas, mas as marcações ficam a cargo das juntas e não são abertas. Só me avisavam quando e onde o projeto será realizado”, emendou.

Palestra no SESC / Crédito: Andreza_Marchiori
Lara em palestra no SESC SP (Imagem: Andreza_Marchiori)

Apesar dos impasses, que acabaram por impedir uma maior regularidade na capital, mas não abalaram as causas defendidas, o Lata 65 manteve-se em alta “fora do orçamento”, com participações no Wool on Tour, como chamam as edições do festival da família Seixo Rodrigues fora de Covilhã, no Walk and Talk (em 2014), festival anual realizado nos Açores, e em outros eventos, enquanto Lara marcou presença em inúmeras faculdades e congressos da área para relatar suas experiências com este projeto inovador no tratamento dos idosos, principalmente na questão do envelhecimento ativo. Neste ano, por exemplo, ela passou pela Openwalls Conference, conferência de arte urbana realizada em Barcelona, e também foi convidada pelo Sesc Santana para realizar um workshop em São Paulo, dentro das celebrações do Dia Internacional do Idoso. “Eu ia cheia de medo para lá. Imagine uma portuguesa a falar de pichação na capital da arte urbana no Brasil. Tinha algum receio sobre a participação, mas foi impressionante. Essa parte teórica sobre a diferença entre graffiti e arte urbana, que costuma levar uma hora, lá durou três horas e meia. Eles tinham várias perguntas”, declarou a mentora, ao ressaltar que todo o grupo do Sesc se impressionou com o poder de transformação do projeto: “Diziam que era incrível uma mudança tão significativa em apenas cinco dias. Como viam uma pessoa entrar e outra completamente diferente a sair, mais animadas e dispostas. Era uma turma mais jovem, com uma média de 70/72 anos. Mas, como já fiz edições com grupos com pessoas que não sabiam ler e nem escrever ou não mexiam o braço, consigo me adaptar a cada grupo”, completou Lara, que também mostrou-se impressionada com as estruturas do local. “Cheguei aqui a dizer que todos deveriam pesquisar o Sesc. Não há nada aqui parecido com aquilo”.

Aldeias artisticas com apoio de Adres
O artista Adres em aldeias artisticas

Ao longo destes anos à frente do Lata 65, uma luta que depende basicamente de sua vontade pessoal, Lara diz ter sentido na pele uma triste realidade em Portugal, na qual, segundo ela, ainda impera a cultura de que “gastar dinheiro com idosos é desnecessário”. Embora tenha um custo médio de 15 euros por pessoa – com todo material necessário, dois monitores e dez horas de aulas -, quase nada em comparação com os resultados obtidos ou com os custos de uma atividade de menor carga horária dedicada às crianças, o projeto ainda é visto como caro e, por mais que tenha uma grande exposição na imprensa internacional, segue com dificuldade de encontrar possíveis parceiros – fato que, para Lara, deveria ser caso de estudo. “Mesmo quando vou às instituições e asilos, o tratamento é todos sentados, vendo televisão ou não, e assim passam os dias. Não fazem nada de produtivo e não recebem estímulos nenhum. Isso para mim é assustador. Há pessoas que não se mexem, que possuem dificuldade até em segurar no lápis, em andar e etc”, revelou Lara, ao ressaltar que este cenário adverso é o que motiva a continuidade do projeto: “Ao vermos essas pessoas chegarem assim no primeiro dia e, no final, esquecerem-se das bengalas, das limitações e saírem cheias de confiança é fundamental. Realmente, nota-se a diferença e estamos a falar de apenas 10 horas. No final do dia, eu e o Adrião (o artista Adres, que auxilia Lara nas aulas) estamos que não conseguimos nos mexer, mas é essa satisfação de atender os idosos que nos dá força para continuar. Porque não é fácil. Até os lares, que deveriam ser os primeiros a querer nossa presença, sentem-se incomodados”, finalizou Lara.

Senhorita MistakerMaker

AgitaAgueda 2015 / Crédito: Bordalo II
Obra de Bordalo-II no AgitaAgueda 2015 (Imagem: Bordalo II)

Além da luta pelo Lata 65 e das atividades realizadas com o Wool, festival que transformou-se numa verdadeira plataforma nacional de arte urbana – com 150 ações realizadas em mais de oito cidades diferentes e a envolver mais de 50 artistas nacionais e internacionais -, Lara ainda encontra tempo para se dedicar a outros trabalhos e, para isso, criou a MistakerMaker, associação que legitima juridicamente os seus outros dois filhos e que responde a pedidos de projetos mais pessoais ou comerciais. “O festival foi criado em Covilhã por mim, pelo meu irmão e pela minha cunhada, mas todo o resto sou eu a solo e, num dado momento, senti necessidade de separar isso. Então, o que era meu trabalho pessoal passou a ser MistakerMaker”, declarou Lara, que, através desta plataforma, realiza o festival anual Muraliza Cascais, fruto de um desafio proposto pelo amigo e artista Mário Belém, e diversas outras ações a envolver arte urbana, principalmente em festivais de música. “A lógica de trabalho é bem semelhante, mas o Mistaker tem um espectro mais alargado. E é uma coisa que tem haver comigo, que também aprendi muito pelo erro. Essa é a lógica de qualquer artista, de errar e refazer, de fazer de novo e de estar sempre a fazer. De certa forma, estou sempre a fazer”, encerrou a produtora cultural, um dos nomes que, sem sombra de dúvida, mais movimenta a arte urbana em Lisboa.

Confira o link com todas as ações do festival Wool:  https://www.google.com/maps/d/u/0/viewer?msa=0&mid=zrkLuAOozRZ8.kd6zMU7P3Isc

Mais sobre o Lata 65:  https://www.facebook.com/Lata65/?fref=ts

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