Primeira Arte: das ruas à galeria

Sob os cuidados do artista e agitador “Smile”, o espaço pioneiro virou resistência ao abrigar artistas do graffiti e da streetart. Vale a visita até Odivelas!
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Imagem da exposição “Untitled”

Numa rua discreta, junto a um beco sem saída e bem distante dos centros turísticos da capital, uma galeria de arte mostra-se capaz de justificar cada curva percorrida até chegar ao seu encontro, tanto para os artistas que costumam expor no local como aos interessados em manter contato com uma arte de rua mais bruta. Trata-se da Primeira Arte, uma das primeiras galerias do país voltada ao graffiti e que, em cinco anos de história, tornou-se resistência como um verdadeiro reduto da velha guarda – “os primeiros grafiteiros de Portugal já passaram por aqui”, apontou Ivo Santos, mais conhecido como “Smile”, artista que começou com as “letras” ainda em 1999 e que, atualmente, virou referência dentro do “realismo”. Em entrevista ao Ctrl+Alt+RUA, realizada no dia da segunda inauguração da exposição “Untitled”, assinada pelo artista “Ayer Oner”, “Smile” falou um pouco mais sobre a trajetória do espaço, da resistência cultural realizada em Odivelas, e de sua trajetória dentro do graffiti, enquanto Ayer aproveitou a ocasião para detalhar sua segunda individual na casa, a qual segue aberta ao público até o final do ano. Com ajuda do GPS ou não; é só chegar!!!

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Obra de Smile em Juncal do Campo (2015)

“Quando tive a ideia desse espaço foi assim. Aqui, em Portugal, você tem artistas muito bons, mas que, por vezes, não têm oportunidade de expor. Os que têm oportunidade já estão no mercado há muito tempo ou conhecem alguém – digamos que é por ‘cunha’. E muitas vezes artistas que têm boa qualidade ficam de fora, e a criação deste espaço foi bem para isso. Foi para acomodar essas pessoas”, relatou “Smile” numa das duas cadeiras azuis que compõe o ambiente da sala – “uma antiga arrecadação que não se passava nada”, como descreveu. O artista, que já colaborava com a junta (prefeitura) desde 2004, época em que venceu o famoso concurso de graffiti de Oeiras, morava perto do local e também já o namorava há muito tempo, mas somente em 2010 mobilizou-se para ocupar o espaço. “Lancei a proposta e fiz um projeto, eles gostaram da ideia e me cederam a licença do espaço. Na verdade foi mais para dinamizar isso, que estava muito morto, e também para ter uma oportunidade de trabalhar com cultura em Odivelas, onde não havia nada do género”, apontou “Smile, ao ressaltar que, na ocasião, a Montana ainda estava a chegar a Lisboa e não havia nenhum espaço dedicado ao graffiti. “Tu querias expor em algum lugar e não te deixavam ou, então, não te deixavam pintar as paredes. E aqui eu queria fazer diferente. Eu dizia: esse é o teu espaço, entra e faz o que quiseres”, completou.

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Smile na Quinta do Mocho (2014)

Desta forma, por mais que houvesse um ou outro quadro torto, a galeria mostra-se no sentido certo. É daqueles pequenos espaços que se agigantam, fazem muito apenas por existirem e ainda querem mais, seja como galeria voltada ao graffiti ou verdadeira plataforma artística. “Tive artistas que expuseram na Montana e que já expuseram aqui, tive artistas que poderiam estar numa Underdogs e também fiz as primeiras individuais de uns quatro ou cinco artistas que estão expondo até fora do país, mas que começaram aqui”, afirmou o “galerista”, que já realizou mais de 20 exposições no local e mais de 25 pinturas no “Wall of Fame”, o muro que fica no final da rua e que serve como complemento das exposições realizadas na Primeira Arte. Entre as exposições realizadas, incluem os artistas pioneiros do graffiti em Portugal, caso de “Wize”, “Mosaik”, “Youth”, “Obey” (não o americano) e “Exas”, artistas que serviram de referência para o próprio “Smile” e que, como ele mesmo descreveu, “apareceram para jantar” em sua casa: “Sabes quando tu idolatras uma pessoa, gosta mesmo de um artista, e ele vem jantar na tua casa? É mesmo uma satisfação muito grande. Alguns já não pintam tanto, têm filhos e a vida tomou outro rumo. Mas, só por terem aceitado e terem vindo aqui, já valeu o meu trabalho”, apontou o artista, que também destacou a presença de “Third”, artista do Porto com 20 anos de graffiti e que, até então, nunca havia realizado uma exposição.

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O artista Smile junto a sua obra

Para quem começou a pintar numa época em que ainda não havia o termo “arte urbana” – “Ayer”, por exemplo, começou a pintar em 1994 e, somente um ano depois, descobriu o que era graffiti -, a atual realidade chega a beirar a ficção, mas, mesmo com tamanha aceitação, ainda são poucos aqueles que conseguem viver de graffiti. “Houve muita valorização. Hoje há muitas prefeituras querendo pinturas em escolas ou revitalizar paredes de espaços públicos. Mas, é difícil. Hoje, em Portugal, entre artistas da escola do graffiti, devem ter uns 10 ou 12 a viverem da arte”, declarou “Smile”, que usava a máquina fotográfica de rolo e umas fotocópias de revista, conquistadas com muito esforço, para aprimorar seus trabalhos na rua. Atualmente, à frente da ACUParte, associação cultural que criou há um ano para responder juridicamente as atividades da galeria, o agitador cultural também encontra tempo para promover outras atividades, como workshops para crianças, murais participativos e o festival de graffiti de Odivelas, realizado no último mês e que contou com uma premiação em dinheiro, embolsado pelo vencedor “Styler”. Questionado sobre os trabalhos ilegais, “Smile” foi preciso: “Não costumo fazer mais, mas fazia como “Smile” ou com o nome da minha crew (1ART). O último ‘bombing’ foi pá há um ano. Hoje, como pai de família, a caminhada é outra. Se vou fazer uma pintura hoje e corre algo errado, segunda teria de ir ao Tribunal e não poderia terminar o trabalho que tenho para fazer. E esse é o meu trabalho”, finalizou.

Nas carrancas da multiculturalidade

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Ayer Oner na Primeira Arte

Em sua segunda individual na Primeira Arte, o artista “Ayer Oner” – o “Sayer” que tirou o S por ser muito cumprido e que adicionou o “Oner” para entrar nas redes sociais, as quais ainda não sabe se usa – apresenta uma série de carrancas originais, elaboradas apenas com sua inseparável caneta preta. A exposição, feita através de um convite de “Smile”, com quem anda a criar o coletivo “82 85”, não apresenta o trabalho que ele habitualmente desenvolve nas ruas e também não justifica o rótulo de “gajos dos bonecos”, mas revela parte deste inquieto e talentoso artista, que, por sinal, até livro infantil já desenvolveu. Segundo “Ayer”, as carrancas presentes na mostra simbolizam uma cada vez mais maior fusão de culturas, nas quais ficam difícil de compreender as etnias dos traços, seja africano, asteca, oriental e etc – o que justifica o “Untitled” do título. Além dos quadros encaretados, Ayer também elaborou a pintura interna de uma carranca maior, excepcionalmente feita com spray e posca, e assinou o Wall of Fame como manda o figurino, com letras old scholl  e um personagem ao centro. Este sim representa o trabalho pelo qual o artista de Oeiras tornou-se reconhecido nas ruas da cidade… a lenda “Ayer Oner” segue ativa.

Mais informações:
ACUParte – Facebook
Primeira Arte – Facebook 

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