vídeo Carla Pinheiro: da cianotipia ao LILA

Em sua primeira individual, na Fábrica Braço de Prata, a artista apresenta o estilo encontrado a partir deste antigo processo de impressão fotográfica. No LILA!
Inconsciência 23X32cm - Cianotipia, Aquarela e Caneta
“Inconsciência” 23X32cm – Cianotipia, Aquarela e Caneta

A partir de experimentos com um antigo processo de impressão fotográfica em tons azuis – a cianotipia, também conhecida como “blueprint” -, a artista Carla Pinheiro, mesmo sem tal pretensão, acabou por encontrar uma maneira de se ausentar do processo mental, de transformar ‘o que é’ em ‘o que será’, e libertou por completo sua criação, como se estivesse numa brincadeira de criança, na qual mostra-se concentrada e comprometida, mas de forma descontraída e despreocupada. Neste exercício, que segundo a artista baseia-se na “brincadeira da criação” – no chamado “LILA”, em sânscrito -, não há linhas retas ou rumos previsíveis e cada elemento inserido contribui para a criação de algo novo. O resultado, que acabou por dar forma a um estilo único e surpreendente, pode ser conferido de perto no centro cultural Fábrica Braço de Prata, onde ela apresenta até o dia 02 de dezembro a sua primeira individual, intitulada “LILA” e que reúne todas as 15 obras disponíveis desta série. Em entrevista ao Ctrl+Alt+RUA, realizada nas agradáveis mesas externas do espaço, na presença de sua mãe e em meio a um impasse com sua sala de exposição, ocupada ironicamente por uma festa de crianças, Carla Pinheiro detalhou seu processo de criação (o que não está exposto nas telas) e falou mais sobre sua trajetória no “apaixonante” mundo das artes.

"Amor Incondicional" 32x52cm- Cianotopia-watercolor-and-pen
“Amor Incondicional” 32x52cm- Cianotipia, Aquarela e caneta

“Quando estou a fazer um trabalho, eu não tenho um ‘pré-conceito’ definido ou algum significado por de trás daquilo. Não, eu não trabalho ‘A’ para transmitir uma mensagem a ‘B’. Para mim não existe isso. Eu pego a folha, aplico a cianotipia e, a partir daí, deixo a obra falar por si só. Vamos supor: eu faço um círculo sem saber porque fiz, mas, a partir do momento em que está ali, ele já começa a fazer parte de um todo e as coisas vão tomando forma, embora nunca saiba o que vou obter no final”, explicou Carla, ao ressaltar que, dentro deste peculiar processo de criação, costuma fazer tudo ao contrário: “Após a cianotipia, antes mesmo de começar a desenhar, eu já assino logo a obra. Assim já obtenho uma posição em que ela será formada e posso dar assas a minha imaginação, mesmo livre de querer transmitir alguma coisa ou pensar se é bonito ou não. Mas, o título, por exemplo, só me vem no final, quando olho para o todo e vejo o que ele me transmite. Se não transmite algo específico, deixo sem título e isso é natural. É difícil você definir as pessoas em uma palavra ou em uma frase”, completou a artista que, ao buscar fazer o simples sem se preocupar em definir conceitos, acabou por legitimar um estilo extremamente seu (único) e, de quebra, conseguiu reconhecer o “ser” no seu verdadeiro sentido.

"Para lá de Marte" - 32 x 23 cm Cianotopia, Aquarela e caneta
“Para lá de Marte” – 32 x 23 cm Cianotipia, Aquarela e caneta

Para quem fez um curso de Operadora de Câmara e Repórter sem ter a pretensão de ser documentarista, que fez três anos de pintura na Sociedade Nacional de Belas Artes sem querer ser pintora e que dedicou-se ao teatro – em específico a área de Palhaço – sem o objetivo de se tornar atriz, a antiga técnica de revelação fotográfica acabou por fazer seu trabalho fluir. Pelo menos, ao contrário de suas experiências com as crianças no “clown” e de seus anteriores trabalhos de pintura, a artista não perdia mais o interesse com o passar do tempo e conseguia finalizar suas obras antes de chegar a exaustão. “Na tela, com tinta óleo, chegava um momento em que tornava-se cansativo. O resultado final era trabalhoso e acabava por me desagradar antes da conclusão. Chega um momento em que não adianta adicionar mais tinta e você começa uma nova tela com entusiasmo, mas, depois, tudo volta a se repetir. Tenho um monte de telas por terminar. Daria para fazer uma exposição de telas inacabadas”, ironizou a artista. No entanto, mesmo com a forte identidade encontrada através da cianotipia, consequência do próprio processo libertário em comum, do modo em que as obras são produzidas, é natural que novos experimentos possam surgir, já que, segundo ela, “toda brincadeira também perde a piada”.

BALI
“Animais” – Cianotipia, Aquarela e caneta

“Posso ter sempre a base da cianotipia, mas já estou a pensar em fazer neste processo com novos pigmentos, ou seja, em testar novas experiências antes mesmo do desenho. Porque eu estou a fazer isso e resulta, mas vou fazer sempre assim? Não. Gosto de sentir-me desafiada e evoluir também é algo natural. Fiz um trabalho para uma galeria de Londres (Debut Contemporany) em que já tive um tema do património mundial e, por isso, explorei a guitarra em especifico. De certa forma, por não trabalhar temáticas, isso já representou um desafio e outros deverão aparecer”, disse a artista, ao detalhar que o trabalho citado integra o projeto “Portugal Now Call for Portuguese Artists”, uma espécie de competição que selecionava 20 nomes de diferentes áreas e que acabou por incluir a pintura de Carla Pinheiro. O resultado final desta ação será a realização de uma exposição coletiva na própria Debut Contemporany, prevista para o próximo mês de março e que também deverá passar por outros países, como Japão e Brasil. Além deste merecido destaque internacional, Carla já participou de algumas ações da ShairArt em Braga e, inclusive, fez parte da nossa Art (Af)Fair, feira de arte realizada na galeria GivLOWE e na qual vendeu quatro originais. A partir desta ocasião, em que apresentava suas obras pela primeira vez em Lisboa, tornamos fãs de seu trabalho e passamos a fazer questão de acompanhar de perto as brincadeiras desta diferenciada artista. Vão a “LILA” e na paz!

Centro Cultural Fábrica Braço de Prata – Até 02/12
Rua da Fábrica de Material de Guerra, nº1
Qua. e Qui., das 18h às 02h.
Sex., das 18h às 04h.
Sáb., das 14h às 04h.

Mais informações: http://bracodeprata.com/exposicoes/35-lila

https://www.facebook.com/Carla-Pinheiro-Artwork-1582904945285538/?fref=ts

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