MOF: mais que graffiti na favela

Maior evento voluntário de graffiti do mundo, o “Meeting Of Favela” chega a 10ª edição com diversas atividades e mais de mil artistas na Vila Operária. MOF#10!  
keep it real Bobi Mof
O artista Carlos Bobi, um dos organizadores do Meeting Of Favela (Imagem: Keep It Real)

Com cerca de 10 mil moradores e todas as adversidades de uma grande favela – “aglomerados subnormais”, segundo a atual denominação usada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) -, a Vila Operária é a comunidade mais populosa de Duque de Caxias, um dos municípios mais carentes da Baixada Fluminense, no Rio de Janeiro distante dos postais, e também palco do “maior evento voluntário de graffiti do mundo”: o Meeting Of Favela (MOF), que, em sua décima edição, a ser realizada no já sagrado “último domingo de novembro” (29/11), volta a transformar a “V.O” num verdadeiro centro cultural com diversas atividades e mais de mil artistas do Brasil e “de fora” espalhados morro acima. Trata-se de algo único e difícil de descrever, mas que dá brilho nos olhos, tanto que o que era para ser apenas um mutirão de graffiti acabou por abrir a comunidade e legitimar um verdadeiro movimento de resistência e amor à arte, principalmente a de fazer o bem. A fim de exaltar esta trajetória e de adiantar as novidades desta próxima edição, como o “MOF Experience”, o retorno ao colégio onde tudo começou, a ação com o 021 Crew e a inevitável presença policial, o Ctrl+Alt+RUA acionou o artista e agitador cultural Carlos Bobi, um dos idealizadores do evento ao lado de André Kajaman, Marcio Bunnys e Wesley Combone, nomes que integram a Posse 471 e que representam toda evolução do graffiti no Rio de Janeiro, numa saudosa conversa via Skype. Fala tu, Bobi!

“O evento surgiu em 2006. Nesta época, os multirões de graffiti estavam na moda no Rio e ocorriam em diversas comunidades. Como tínhamos a Posse 471, decidimos organizar o nosso na Vila Operária, mas ainda não tinha o nome de MOF e nem nada. Era para ser um multirão que não deixasse ninguém de fora, como ocorreu no ‘Meeting Of Styles’, que foi realizado na Cruzada (São Sebastião, no Jardim de Alah) um pouco antes e contou apenas com convidados. Na ocasião, vimos uma matéria a respeito, e o (André) Kajaman começou a brincar que o nosso evento, por ser aberto para quem quisesse pintar, seria o ‘Meeting Of Favela’. Aí o nome pegou”, revelou Bobi, ao exaltar que a primeira edição, realizada ainda na parte baixa da comunidade, reuniu 50 artistas, muitos deles de fora do Rio. A partir daí, da relação de troca entre moradores e artistas e da necessidade de suprir a carência de atividades culturais no local, o MOF subiu o morro e não parou mais de crescer, tanto em números como em expressividade. No segundo ano, em 2007, quando começou a ser realizado na quadra da associação e a acomodar os visitantes na escola ao lado, foram 150 artistas e, em 2008, quando os artistas internacionais começaram, foram quase 300. Atualmente, nas vésperas do décimo encontro, todos querem participar e fica difícil até para achar espaço, mas, segundo Bobi, vontade e muro não faltam.

“Tem gente que reclama que não há mais muros, mas é preciso explorar melhor a comunidade e, por isso, vamos mais adentro nesta edição – o Pré-MOF, que ocorre no sábado, será realizado dentro da comunidade. A ideia é justamente fazer com que os artistas interajam mais com os moradores e mantenham cada vez mais esse laço familiar que caracteriza o evento”, declarou o artista, ao ressaltar que o MOF se diferencia dos demais festivais justamente por não dar tratamento privilegiado para ninguém: “Todos grafiteiros são tratados da mesma maneira, do novo ao velho. Não tem essa de fulano ficar em hotel, ter material separado ou espaço reservado. Queremos justamente o oposto, que o artista vá até o morador pedir o muro e que, a partir disso, crie uma relação mais próxima. E é assim, os caras vão chegando devagar e, de repente, já possuem vínculos e novas amizades. Tem artista que já dorme na casa do pessoal da comunidade, vai a aniversário e tudo mais. Também tem morador que chega e fala que o artista já ligou para confirmar presença, que virá para renovar seu muro e que fará um almoço para recebe-lo. Isso é muito gratificante, o retorno por parte dos moradores. Se ouvimos isso é sinal que o evento está dando certo. Aliás, queremos cada vez mais estimular e ampliar essa relação de amizade, algo que já vem da essência do evento. Isso é bem maneiro”, apontou.

Com tudo preparado para a décima edição e sem esconder seu entusiamo, Bobi também destacou algumas novidades deste ano, caso do ‘MOF Experience’, nome dado às experiências que serão realizadas em paralelo ao evento principal, firmado no entorno da Praça Paulo Biar. Segundo o artista, como o MOF não conta com patrocínios, esse modelo permite a realização de ações com possíveis parceiros e também contribui para engrandecer o evento como um todo. Neste ano, por exemplo, as tais experiências do MOF incluem uma exposição coletiva no Sesc Duque de Caxias e a revitalização do CIEP Brizolão 228 Darcy Vargas, em Saracuruna, onde Bobi e Marcio Bunys começaram a dar aulas de graffiti ainda em 2001. Este festival no “colégio onde tudo começou”, realizado em parceria com o grêmio estudantil e com patrocínio da empresa Braskem, ocorre na sexta-feira (27/11) e também inclui diversas atividades culturais. Outra experiência de destaque, a ser realizada em parceria com a 021 Crew, ocorre numa área mais adentro da comunidade, na chamada Rua do Buraco. “Todo ano ocorre tudo lá em cima, e as pessoas ficam concentradas somente lá, perto do som, e não exploram a comunidade. Essa ação vem para espalhar mais o evento pela comunidade”, contou Bobi. De acordo com o artista, essa realização dará vida ao palco número dois do MOF (Underground) e contará com diversos DJ´s e atrações musicais, além da galera do break e de uma famosa “Sopa de Letras” – uma parede ao lado do som que será preenchida à paulistana apenas com “bombings” dos artistas presentes (os quais devem se cadastrar para terem acesso aos kits distribuídos https://www.sympla.com.br/meeting-of-favela-10__46525).

 

Pintou polícia

Outra novidade do evento, esta nem tanto empolgante, será a inevitável presença policial, já que, em meados de abril, a Vila Operária recebeu uma companhia destacada da Polícia Militar, uma espécie de etapa prévia a UPP, mantida mesmo junto ao local do evento. A ação policial removeu as barricadas do tráfico, liberou ruas e até agradou alguns moradores, mas, assim como nas demais favelas do Rio, não se mostrou unanime e também não veio acompanhada de outros serviços sociais. Ou seja, limitou-se a ser uma ocupação policial, embora não haja relatos de confrontos desde então. “Esse ano será nosso primeiro ano com a polícia lá e ainda não sabemos como vai ser. Ficamos apreensivos porque muitos policiais entendem a arte e aceitam, mas alguns tem a cabeça fechada. Mas, as festas também não serão realizadas na praça principal, onde estão as cabines em que os caras dormem, e sim no outro lado da comunidade, na Quadra da Torre. Acredito que, por isso, não vamos ter nenhum tipo de problema. Os documentos estão em mãos, temos autorização para os três dias de evento e vamos entregar o ofício nesta semana”, assegurou o artista. Como foi dito ao Bobi ao fim de nossa conversa, esperamos que tal presença não venha para inibir o sorriso das crianças, e que o evento possa manter firme esta sua nobre missão: colorir as paredes e a vida na V.O. Vivam o MOF!

Vídeo “O Artista Tá Nas Ruas”, do Cinemonstro. MEETING OF FAVELA 8
Projeto contemplado pelo Simdec 2013 – Fundação Cultural de Joinville (SC)
facebook.com/oartistatanasruas

Mais informações dobre o MOF: www.meetingoffavela.com.br

//www.facebook.com/meetingoffavela/?pnref=lhc

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s