Violant: estilo de vida muralista

Em entrevista ao Ctrl+Alt+RUA, o jovem artista da vila de Riacho conta como se tornou um dos principais nomes do muralismo em Portugal. Só na grande escala!!! 
Violant na Graça em Lisboa / Crédito : Marina Aguiar
“BrainStorm”, em Lisboa. Jun2014 (Crédito: Marina Aguiar)

Se houvesse uma premiação destinada a destacar os melhores do ano no campo da arte urbana em Portugal, algo que não encontra-se muito distante de virar realidade, o nome de João Maurício (A.K.A Violant) certamente apareceria entre os indicados na categoria muralismo, seja como revelação, artista do ano ou melhor obra elaborada – o difícil seria passar indiferente por um de seus trabalhos ou não reconhecer o seu talento neste segmento. De qualquer forma, com 16 murais de peso produzidos somente entre 2014 e 2015 – o último deles, em Castelo Branco, encontra-se em fase de finalização -, o jovem de 27 anos já figura entre os principais nomes da “grande escala” no país, “uma área complicada, desgastante e que não é para qualquer um, mas que acabou por virar um verdadeiro estilo de vida”, como explicou em entrevista ao Ctrl+Alt+RUA, na qual falou sobre sua caminhada, com direito a história da assinatura extraída de uma ficha obituária e do repúdio ao mestrado em Caldas da Rainha, e sua vontade de rodar o globo, de conhecer novos lugares e, é claro, de realizar mais pinturas. É de Riacho, a vila com pouco mais de 5 mil habitantes que incluiu no mapa da ‘street art’ nacional, para o mundo… Vai na força, Violant!

Violant - Butterfly Effect (Rui Serrano)
“Butterfly Effect”, em Barreiro. Set2015. (Crédito: Rui Serrano)

Quem vê o nível dos murais assinados por Violant dificilmente diz que o artista começou a se interessar pelo desenho somente “mais tarde”, aos 17 e 18 anos, e que o simples uso do “extensor” (vara usada para ampliar o cabo do pincel) representaria uma grande evolução em seu trabalho. Mas, de acordo com o artista, que começou por brincadeira no stencil, foi assim que ocorreu: “Eu sempre pensei na pintura com uma questão pessoal, em ter gosto naquilo que estava a fazer. Mas, não pensava numa carreira e em nada disso. Hoje, eu penso, mas nem sequer penso de um modo profissional. Acho que não é bem uma profissão, mas um estilo de vida. Uma coisa que passei a fazer e a me interessar cada vez mais”, declarou o artista, ao ressaltar ter descoberto o graffiti entre 2010 e 2011, em paralelo ao final de sua licenciatura em artes plásticas e multimédia em Santarém. No entanto, o artista deixa claro que o que faz hoje não tem nenhuma relação com a escola: “Não era grande coisa o que fazia na época, mas já sentia que tinha muito o que explorar e, como não queria enfrentar a pressão do mercado de trabalho, fui fazer um mestrado em Caldas da Rainha, que, em nível académico, foi muito ingrato comigo. Essa experiência só me puxou para trás em relação ao meu trabalho na rua, mas, por outro lado, ‘pude comprar tempo’ para poder explorar mais o graffiti”.

Violant III - Visceral (Paulo ROcha) Quinta do Mocho
“Visceral”, na Quinta do Mocho. Out2015 (Crédito: Paulo Rocha)

Apesar de ter acompanhado o curso e apresentado todos os trabalhos exigidos, Violant acabou por defender sua tese – item necessário para concluir o mestrado – nas fábricas abandonadas e na companhia dos tais extensores, que começou a usar no verão de 2012, quando ainda estava no primeiro ano de Caldas, e que acabou por lhe apresentar sua nova “paixão”: a grande escala, na qual em pouco tempo já era mestre. “Esse período de fábricas abandonadas foi muito importante. Por serem locais mais reservados, acabou por facilitar essa iniciação, já que não havia inibição ou qualquer falta de confiança por ter que enfrentar o público. Ainda mais para um gajo introvertido. Nem toda gente é extrovertida e gosta de aparecer ou de mostrar o que está a fazer, entende?”, questionou o artista, que, mesmo atualmente, com excelentes obras no currículo, prefere evitar qualquer tipo de conversa no momento do trabalho. “Costumo a colocar os ‘phones’ no ouvido e entrar no meu mundo. Não gosto de ser interrompido com elogios e nem com criticas, até para não embaralhar o andamento da pintura. Os comentários, quase sempre genuínos e espontâneos, ficam para depois, mas sempre faço questão de ouvir e considerar esse retorno”, completou.

Violant VI The fall of Adam (Ana-lógica) Fernao Ferro
“The Fall of Adam”, em Fernão Ferro (Seixal). Jan2015 (Crédito: Ana-Lógica)

Por mais que tenha adotado o muralismo como estilo de vida, um processo que ocorreu de forma natural, Violant consegue reconhecer a importância do graffiti em sua trajetória e diz que tal influência – como o vídeo do Banksy, “Exit Through The Gift Shop” – foi fundamental tanto para ele chegar até o desenho como para poder amadurecer seu conceito nesta cena. “Como não tinha nenhum artista na família e nenhuma referência direta, esse primeiro contato foi essencial. Mas, apesar de gostar de pintar algumas coisas, eu tento não me apegar a nada. Como me preocupo em não virar vítima do meu próprio estilo, evito repetir coisas e tento sempre me desafiar a cada novo trabalho”, detalhou Violant, que, ao contrário da maioria dos artistas de arte urbana da atualidade, não pensa em chegar a uma renomada galeria para uma exposição individual – ao menos, não agora. “Muita gente me pede trabalhos menores para comprar ou expor e eu não tenho material para isso. Acho que ainda não consegui alcançar o mesmo resultado. Mas, isso é uma questão que ainda terei tempo para amadurecer. É que, neste momento, minha cena é mesmo os murais, que acabam por ser mais fortes, mais impactantes no meio social e mais propício com a mensagem quero passar” – segundo ele, o mural a ser finalizado fala sobre aquecimento global e mudança climática.

Muralista andante

Violant - Lodz (polonia)
Lódz, Polonia. Mai2013.

Para quem encontrou a assinatura artística durante um estágio na junta de freguesia de Riachos, no qual organizava as fichas de um cemitério e tinha contato com os nomes de muitas pessoas sepultadas no local – o Violant, por exemplo, pertencia a uma senhora de 63 anos -, tornar-se um reconhecido muralista, além de uma considerável mudança de vida, também representa uma grande vitória pessoal, ainda mais para quem começou a pintar sem qualquer pretensão e, mesmo com uma considerável bagagem acadêmica, amadureceu um estilo na rua. No entanto, ciente da juventude a seu favor, Violant parace não se contentar com os oito murais anuais e diz querer mais: “Reconheço o que tenho feito e o retorno que tenho obtido, mas acho que conseguiria produzir mais. Tenho muita coisa (em relação à ideia) para falar. Também tem uma coisa que ainda não estou a fazer como eu imaginava quando decidi abraçar essa história: desbravar o mundo. Quero viajar, foda-se”, exclamou o artista, que, embora tenha residência em Riachos, mora onde está a pintar e, por isso, reconhece as dificuldades ligadas ao oficio – ainda mais para quem não abre mão de sua liberdade criativa diante de uma proposta comercial. O único mural internacional, realizado na Polonia, foi pago do próprio bolso e, neste caso, não deve ter sido o único. Mas, no que depender do seu empenho, ele não pára mais em casa. Guardem esse nome: Violant.

Abaixo, confira uma galeria de imagens com alguns dos principais trabalhos do artista.

Página do artista no Facebook: https://www.facebook.com/j.m.violant/?fref=ts

 

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