GodMess: a nova cara do Porto

Apontado como um dos principais nomes da nova geração portuense, o artista e designer gráfico fala sobre seu projeto e o novo trato dado à arte urbana na cidade.
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Tiago Gomes a.k.a GodMess

Há oito anos, sob a influência dos amigos “Kyot” e “Bent”, o jovem Tiago Gomes começava a explorar a linguagem do graffiti na cidade do Porto, onde a prática era combatida com pulso firme pelas autoridades até bem pouco atrás. Apesar de não haver muitas pretensões e do anunciado risco envolvido, esse período de tinta solta nas ruas foi fundamental para o então “Go Mes” amadurecer seu trabalho e, inclusive, buscar um caminho mais profissional, com uma graduação em Belas Artes e um curso de Design Gráfico na escola Soares dos Reis. Desta forma, por se preocupar em elevar o nível do trabalho já realizado e apresentar um projeto com complemento gráfico, o artista lançou-se numa nova identidade, que, mesmo em questão de assinatura, mostrava-se como uma espécie de continuidade da história iniciada lá trás no graffiti – o Go Mes virou GodMess, e tal mudança, ocorrida há três anos, não se resumiu apenas ao acréscimo de duas letras. O fato é que, ao lado de “Hazul Luzah”, GodMess aparece hoje como um dos principais talentos da nova geração portuense e, de certa forma, simboliza toda a mudança de mentalidade em relação à arte urbana vista na cidade. “As coisas já começaram a mudar”, garantiu o artista em entrevista ao Ctrl+Alt+RUA, na qual fala sobre a aceitação do graffiti na cidade, da famosa rivalidade entre Lisboa vs. Porto e de suas novas propostas, como uma recente instalação em que deu vida aos seus personagens durante a feira UP Street Porto.

“Meu projeto se caracteriza mais pelo nível estético e gráfico do que por ‘um’ conceito propriamente dito, embora não seja uma coisa meramente ilustrativa e também tenha espaço para abordar diferentes temáticas – do inocente ao explícito. É uma espécie de identidade que me possibilita fazer várias coisas e executar diversos tipos de trabalho, em ilustração, no design gráfico ou com arte urbana”, declarou GodMess, ao ressaltar que seus personagens – simbolizados num boneco vermelho – não possuem a preocupação de definir os elementos das histórias que costuma contar. “Eles não costumam se mostrar como mulheres ou homens e, por isso, tendem a confundir a compreensão da história. Não quero torna-las tão óbvias e claras, mas, ao mesmo tempo, tento manter algo em comum. Gosto que as pessoas identifiquem e reconheçam meus trabalhos, independente da história que esteja a trabalhar”, acrescentou o artista, que, num recente episódio, tirou os personagens da parede. Na ocasião, na última edição da UP Street Porto, GodMess pendurou cinco bonecos na fachada do edifício da feira e espalhou mais 15 atores caracterizados pela Av. dos Aliados. “Já vinha a trabalhar nesta questão do personagem em ‘3D’, mas nunca havia tido um grupo com atores e performers. Como tive um apoio da câmara e estava tudo ‘ouro sobre azul’, conseguimos realizar. Recebi alguns convites após essa ação e, dentro deste segmento, tenho possibilidade de explorar e conhecer coisas novas. É um ‘working in progress’”, emendou.

 

Em paralelo ao amadurecimento de seu projeto e de sua obra no geral, GodMess também acabou por vivenciar uma nova realidade artística na cidade, tendo em vista que atual câmara local passou a lidar com “o problema” da arte urbana de uma outra forma. De acordo com o artista, ao contrário da até então política de perseguição, nas quais todas as obras eram pintadas de amarelo no dia seguinte a sua realização, um episódio em específico fez com que autoridades passassem a ter mais respeito com a arte de rua: o artista Hazul, onipresente nas ruas do Porto, teve uma de suas obras apagadas e a própria população manifestou seu descontentamento com o sucedido, o que abriu espaço a um primeiro diálogo e o início de uma nova relação entre artistas e autoridades. “Hoje existe uma relação diferente. A câmara apoia e até desenvolve algumas ações, e esta participação acaba por refletir numa maior valorização, inclusive por parte das pessoas. A efervescência artística sempre houve, mas atualmente há um respeito maior em relação aos trabalhos dos artistas, até mesmo os ilegais. É possível fazer arte urbana hoje no Porto”, adiantou o artista, que, seja em parcerias com GAU e em convites esporádicos, também tem realizado alguns trabalhos em Lisboa – como uma pintura no elevador da Glória e parte da identidade visual da última edição do Festival NOS ALIVE, por exemplo.

Questionado sobre esta questão em específico, das infinitas comparações entre Porto e Lisboa, o artista, como quem não bota na lenha fogueira, preferiu exaltar seu próprio caso como um exemplo de mudança neste quadro de suposta rivalidade: “Não sei te dizer bem o porquê, mas parecia haver uma espécie de barreira invisível mesmo. Não havia muita troca ou intercâmbio de artistas, embora os artistas daqui sempre fossem para Lisboa. Acho que é natural que artistas do Porto vão até Lisboa e vice-versa. Mas, esse clima de bairrismo tem mudado. O Hazul, por exemplo, esteve em Lisboa recentemente dentro do projeto ‘O Bairro e o Mundo’. Eu também estive por aqui dias desses e fui muito bem tratado”, relatou GodMess, que, no início deste mês, passou quatro dias na Mouraria por conta da pintura no Centro de Inovação (CIM). “Foi muito porreiro poder ter conhecido aquele pedaço. Parece que há muitos países diferentes a conviverem no mesmo espaço. É uma grande mistura de pessoas. Também achei curiosa a questão das pinturas em carrinhas e encontrei várias pela cidade”, declarou o artista portuense, ao adiantar que, após um segundo semestre de muita correria e trabalho – felizmente -, aproveitará a pausa do fim de ano para equilibrar suas atividades, ou seja, trabalhar mais em outras coisas.

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Mural realizado no Centro de Inovação da Mouraria. Dez (2015)

“Eu vivo disso então tento ser o máximo profissional possível naquilo que faço, seja em relação à cumprir prazos ou até mesmo em meu ateliê (aberto há um ano). Trabalho todos os dias, mas, como sou meu patrão, costumo buscar um equilíbrio entre minhas atividades. Agora, até o fim do ano, por exemplo, terei mais tempo para pintar nas ruas”, apontou o artista sem esconder o entusiasmo com o retorno alcançado – cada vez há mais trabalhos – e com o fato de poder trabalhar com suas principais referências, como o pessoal do Colectivo Rua, que conta com nomes como “Third”, “Oker”, “Fedor”, “Alma” e “Draw” – a Champions League do graffiti, como ele mesmo disse. “Sabes quando você sempre admirou uma pessoa e, de repente, ela está a trabalhar ao seu lado. Chega a brotar uma lagrima no canto do olho. Isso é muito gratificante”, relatou GodMess, ao exaltar que o próprio Hazul também é uma de suas referências, tanto em técnica como em conceito: “Ele tem um lado carismático que é bem curioso”. Apesar não costumar a traçar planos a longo prazo e de não ter nenhum projeto previsto para o início do próximo ano, ao menos até o final desta entrevista, GodMess, no auge de seus 26 anos, diz querer chegar à uma galeria e também levar mais seu trabalho para fora país. “Até hoje fui apenas à Estônia, em 2014, e à Grécia, em 2010, quando ainda não tinha o projeto. Talvez seja esse meu próximo objetivo. Mas, como já disse anteriormente, as coisas ocorrem em seu tempo”, apontou o artista, que, mesmo diante desta nova realidade a seu favor e motivado com o andamento de seu projeto, mantém os pés no chão: “Há muito trabalho e realizações pela frente”, finalizou.

Página do artista no Facebook: https://www.facebook.com/godmessbook/

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