Revolue: uma exposição no japonês

Em entrevista ao Ctrl+Alt+RUA, o artista paulistano fala sobre a atual fase de sua carreira e o projeto que transformou o restaurante Dô – o Notoxic Experience!
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Revolue em pintura feita no interior do espaço / Divulgação

O peixe em mutação começou a sair do papel para se adaptar às ruas ainda em 2008, mas o chamado projeto Notoxic, espécie de personagem criado para retratar a questão “da poluição não só ambiental”, nunca havia ido além dos muros da cidade ou das paredes dos escritórios de arquitetura. Mas, com mais dez anos de tinta nas costas e após um desbravador mergulho no tanque dos tubarões – no circuito de arte contemporânea de Miami (Art Basel e Wynwood) -, o artista paulistano Marcus Vinícius Coelho (a.k.a Revolue) percebeu que tal conceito também poderia ser explorado em novos formatos, como uma ousada “experiência” em um restaurante de comida japonesa – algo que, a levar em conta o nível alcançado, tanto abre espaço para eventos similares, ao reforçar esse cada vez mais viável encontro de arte e gastronomia, como também não passa despercebido. Em entrevista ao Ctrl+Alt+RUA, na qual também falou sobre sua nova linha para a Luis Maluf Art Gallery, Revolue detalha a parceria com o restaurante Dô e a exposição que deixou todos de boca aberta (quando não cheia de salmão selvagem do Alasca). Notoxic Experience!

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Revolue em pintura do Notoxic

“Apesar de não ser filho de japonês e de não ter descendência japonesa, sempre admirei a cultura oriental de um modo geral, mas principalmente arte, tatuagem e gastronomia. A meu ver, esses chefs são como pintores e, por isso, fiz questão de realizar algo mais amplo, como uma ‘colab’ entre artistas de diferentes áreas. Apesar do curto tempo de produção – um mês no total -, consegui aprofundar uma pesquisa de técnicas de pinturas, como o ‘Sumi-ê’, e fizemos tudo com muito cuidado”, apontou Revolue, ao exaltar as qualidades do espaço escolhido para tal desafio: “Conhecia os sócios do local (Marcel Sasaki e Kazuo) e sabia que o restaurante tinha um conceito bacana: não tem dessas de cream chease ou maionese, não servem porcaria e possuem um peixe realmente diferenciado. Trabalham com um quase 100% natural, um salmão selvagem do Alasca. Por essa questão, do ‘peixe notoxic’, eles gostaram da ideia e iniciamos o casamento”. Desta forma, como uma experiência em conjunto e entre amigos, a exposição do tradicional japonês tomou forma e o restaurante para uma espécie de semana de arte, que, por sinal, ocorria em paralelo à famosa semana de Miami. “Não foi apenas uma exposição, mas toda uma experiência mesmo”, relatou o artista.

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Na abertura do Notoxic Experience

Mesmo tendo o peixe notoxic como elemento em comum – um selvagem do Alasca e um mutante da arte de rua, ambos contra a maré -, a intervenção proposta por Revolue não deixava de ser desafiadora, a considerar o funcionamento do restaurante, as pinturas nos pratos a serem servidos e a tatuagem, item que o artista fez questão de incluir nesta verdadeira ode ao tradicional japonês. “Quando você fala em cultura oriental, principalmente para quem não é japonês, o que vem em mente é a gastronomia e a tatuagem. O Guega (Basile Tatto) é um amigo e tem um trabalho super conceitual, que também carrega essa referência da cultura oriental. Além de ter tatuado o sushiman e um peixe notoxic ‘freehand’ que desenhei direto na pele, ele também pintou 15 dos 80 pratos expostos como se fossem tatuagens e bem no estilo dele”, apontou Revolue ainda empolgado com tal realização. Segundo ele, no dia da abertura, um sábado “punk” que foi das 10 da manhã até meia-noite, teve as pinturas feitas no espaço durante a “pré-abertura”, sessão de tatuagem, pratos expostos nas paredes e, inclusive, pratos customizados servidos numa entrada de Ceviche e Salmão. Ao longo da semana, os dez primeiros clientes (sem saber) ainda tinham direito a uma peça de presente, enquanto as demais encontravam-se à venda. “Era muita informação mesmo. Mas, o legal foi que as pessoas entenderam a proposta e, de modo geral, aprovaram a experiência, assim como o pessoal do restaurante”, declarou.

“Quando você vai a um bom restaurante, você não leva um prato congelado para casa. O que fica são apenas as boas memórias. E eu pensei mesmo nisso, em pintar um prato como um acompanhamento da arte do chef. A ideia dos pratos, que eram feitos em cerâmica e de maneira artesanal – como tudo na cultura oriental -, surgiu como uma forma de simbolizar toda essa experiência”, apontou Revolue, que, ao ser questionado, também exaltou o bom retorno obtido por parte do público: “Nós tivemos todo um cuidado, desde a elaboração dos convites – pintados a mão – até à explicação aos clientes. Como o restaurante também costuma receber pessoas mais exigentes e viajadas, muitos entenderam na hora a proposta e fizeram questão de levar um prato. Outros já haviam passado por experiências semelhantes, inclusive em Miami, e gostaram muito de participar de eventos do mesmo nível na capital paulista”. De acordo com o artista, o projeto se mostrou completo e, por mais que uma semana e meia tenha sido pouco, serviu para firmar tal conceito e abrir novas portas. “Tive a sorte de trabalhar com amigos, pessoas em que acredito e que acreditam no meu trabalho. Formamos uma família mesmo e novas edições devem ser realizadas. Mas, agora, com mais tempo de preparo”, brincou o artista. Aos interessados, ainda há pratos disponíveis no site do evento:www.notoxic.com.br

Mais Contemporâneo

Com uma base firmada na arte de rua, do graffiti à pichação, entre stickers e tags, o artista paulistano diz hoje seguir uma linha mais contextualizada na arte contemporânea, com um processo mais técnico e detalhado, embora continue a soltar seus riscos e peixes por aí. Após ter encerrado sem ressentimentos seu trabalho com a Galeria Verve e de ter recolhido os demais trabalhos que haviam espalhados, Revolue mostra-se contente com a evolução de seu trabalho e com a nova parceria firmada com a Luis Maluf Art Gallery, que, por sinal, deu o que falar no último ano com inúmeras exposições de alto nível, como a do artista “Crânio”. “Na verdade, tinha muita tela minha e um pouquinho em cada lugar, mas não sentia receber a atenção que deveria ter pelo meu trabalho. Quando saí da Verve, eu passei no Luis Maluf só para bater um papo, para falar que havia tirado minhas telas de todos os lugares de São Paulo e que estava disposto a correr sozinho. Como já havíamos feitos alguns trabalhos anteriores e tínhamos certa relação, ele acabou por me convidar, e eu falei que só trabalharia com ele”, declarou o artista, ao falar da de sua relação com a nova galeria.

“Você começa a trabalhar lá e percebe a diferença, primeiro porque o Luis Maluf, a quem considero como um irmão, faz um trabalho legal, tem bons contatos, segue sua visão e possui formação em arte. O gerente da galeria, Francisco Rosa, que é o cara que tá lá, também é bacharel em arte. Querendo ou não, os artistas da galeria recebem uma consultoria por parte deles. E essa consultoria não é explicar como que é pinta. É olhar para o seu trabalho e perguntar: em que período da arte você está? Se você está nesse período, esquece isso que está fazendo. Essa sua linha é boa, mas eu quero isso. Então, de certa forma, ele acabar por dar uma direcionada no trabalho”, explicou Revolue, ao acrescentar que suas obras mais conceituais baseiam-se em retratos e expressões corporais repletas de texturas. “Essas pinturas parecem sair da tela, como uma coisa meio desconstruída que o tempo passou e tirou alguns pedaços. Mas, não é. Eu uso massa, espero secar, raspo e tento reproduzir esse efeito. Isso tem agradado e também tenho gostado muito de fazer”, completou o artista, que, neste ano, já começa dentro de uma coletiva de peso na galeria: “Entre Nós”, que destaca a diversidade de estilos e conta com obras de Alexandre Orion, André Brunharo, Cranio, Edu Cardoso, Flávio Rossi, Francisco Rosa, Jú Violeta, Lucas Iatauro, Natalie Gazediel, Pedro Pezte, Sipros, Vermelho Steam e Vinicius Parisi. Que venham as telas em grande escala!!!

“Entre Nós” – Luis Maluf Art Gallery
Rua Peixoto Gomide, 1887. Jardins – São Paulo, SP.
De 14 de janeiro a 14 de fevereiro
Horário: Terça a Sábado, das 11hs às 20hs.
www.luismaluf.com

Mais informações sobre o artista:
https://www.facebook.com/revoluepage/?fref=ts
www.revolue.com

 

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