GAU: uma galeria a céu aberto

A trajetória da Galeria de Arte Urbana que, a partir do problema do vandalismo no Bairro Alto, traçou uma nova relação entre graffiti e espaço público em Lisboa.

Silvia Câmara no Colóquio Internacional Entre Margens (Crédito: José Vicente)Dentro do amplo projeto de revitalização realizado há oito anos no Bairro Alto, famoso reduto boémio e coração da noite lisboeta, um dos principais desafios encontrados relacionava-se à limpeza e manutenção das fechadas dos edifícios, quase todos tomados por diversas camadas de graffiti – era o principal ponto de intervenção na capital, tendo em vista que o Inês Machado em visita guiada com técnicos da GEBALIS (Crédito: João Paulo Marques)clássico “muro das Amoreiras” voltava-se mais aos grandes painéis coletivos (“wall of fame”). Por conta desta característica do local, um reforço na segurança e uma nova pintura não seriam o bastante para contornar o recorrente problema do vandalismo. Era preciso fazer mais; como buscar contato, iniciar diálogo e reconhecer a arte de rua, ou seja, desenvolver uma nova relação entre artistas e autoridades. Desta forma, a fim de dar vida a esta verdadeira experiência, surge a Galeria de Arte Urbana (GAU), que, a partir de uma exposição em quatro painéis de contraplacado instalados na Calçada da Glória, conseguiu chegar a um abrangente modelo de atuação e mostrou-se fundamental para legitimar as intervenções artísticas na cidade. “O projeto arrancou sem uma estratégia definida para aqueles painéis e para pensar na arte urbana como um todo. Quando a GAU passou para nossa gestão (do Departamento de Patrimônio Cultural), acreditávamos que não deveríamos só circunscrever a ter alí aquele conjunto de painéis e que deveríamos pensar numa coisa mais vasta, que olhasse para toda cidade e pensasse onde e em que zonas intervir. Também não nos interessava somente realizar intervenções artísticas, já que a divulgação e a sensibilização em relação à arte urbana mostravam-se tão importante quanto”, apontou a coordenadora Silvia Câmara (foto1), que, ao lado de Inês Machado (foto 2), acompanha o desenvolvimento “da criança desde bebê”. Em entrevista ao Ctrl+Alt+RUA, uma longa e amistosa conversa no Palácio do Machadinho, “as mães” da GAU falam sobre o trabalho realizado ao longo destes anos e esmiúçam o modelo de galeria que virou referência na nem sempre harmoniosa relação entre arte urbana e espaço público.

Apesar de ter iniciado suas atividades sem uma estratégia de atuação definida – a partir de uma parceria entre a presidência da Câmara, um grupo empresarial e Pedro Soares Neves (a.k.a Uber), um dos mentores do projeto inicial -, esta inédita abertura dada ao graffiti mostrou-se fundamental para o desenvolvimento da mesma, assim como seu posterior vínculo ao Departamento de Patrimônio Cultural, que, por sinal, já sentia a necessidade de trabalhar com a arte de rua. “Não dava mais para tapar o Sol com a peneira e continuar a fingir que não enxergava as artes que estavam sendo feitas na rua”, ressaltou Silvia. “Houve todo um gesto e uma abertura política para reconhecer o graffiti publicamente. E, logo a seguir, a presidência (da Câmara) percebeu que departamento faria mais sentido tomar conta deste tipo de expressão artística e desses registros que começavam a fazer parte da cidade. E foi muito importante esta valência ter sido atribuída ao nosso departamento porque nós já tratávamos das outras manifestações artísticas no espaço público, como azulejaria, estatuaria e etc.”, declarou Inês Machado. Diante desta nova tarefa e sem muito tempo para pensar, mas com muito trabalho pela frente, a referência encontrada para o desenho da GAU veio de um modelo de galeria pública desenvolvido na cidade de Filadélfia, nos Estados Unidos, onde a arte de rua era usada como uma ferramenta de inclusão social. “Havia todo um componente social e de inserção que nos interessava muito. Não queríamos fazer apenas intervenções artísticas. Achávamos que, até por estarmos ligados à Câmara, não deveriamos trabalhar a arte exclusivamente pela arte, mas sim em nome de uma série de melhorias para a cidade”, apontou Silvia. Inês, por outro lado, preferiu exaltar o pioneirismo do projeto, a experiência da colega de trabalho, a amplitude das metas traçadas e, inclusive, as condições favoráveis encontradas no momento, como a política de tolerância zero vista em Barcelona e o aparecimento de peças de alto nível na cidade. A partir daí, mais que desenvolver e querer criar projetos próprios, a ideia era abrir as portas (e as mentes), apoiar eventos ligados à arte urbana e fortalecer a cena que começava a chamar atenção. O primeiro contato, muito através do intermedio de Pedro, foi lançado aos artistas, e as parcerias começavam a surgir. A confiança veio com o tempo.

Com um “esqueleto” de atuação definido em cinco partes – “apoiar a produção de peças; fazer campanhas de sensibilização, seja através das redes sociais, da revista ou de ações específicas; trabalhar a reflexão, com debates, seminários, aulas e investigação; o conceito de arte em comunidades, com um papel mais inclusivo e social, e a inventariação, com um registro ligado ao património cultural, além da posterior parte internacional, com convites para conferências, colóquios e etc -, a GAU começou a andar e, a partir da exposição nos painéis, abriu caminhada com apoio as duas últimas edições (em Lisboa) da bravíssima Visual Street Performance (VSP), que já tinha uma história relevante no panorama artístico nacional e contava com diversos nomes de peso da cena, como Vhils, RAM, MAR e Hium, entre outros. “Não queríamos moldá-los e também não teve uma visão oportunista para o lado político negativo da coisa. Ao contrário, queríamos investir numa comunidade que ainda não era apreciada pela população e que, muitas vezes, ainda era olhada de forma negativa. Nós queríamos dignificá-los, incentivar os projetos que os artistas já estavam a desenvolver, dizer que eles tinham direito de estar na cidade, de produzir vosso trabalho e de se relacionar com outras expressões que já haviam na cidade”, relatou Silvia, ao acrescentar que, logo na sequência, já vieram a “Lisbon Safari”, uma residência artística num edifício ocupado por RAM e Dirty Cop, e as edições do “Crono”, festival que mudou a história do graffiti em Portugal ao apresentar artistas como Os Gemeos, Blu, Sam3, Erica Il Cane e Lucy McLauchlan em três imensos prédios da Av. Fontes Pereira de Melo. Na ocasião, os brasileiros Gustavo e Otavio Pandolfo, que vinham de uma passagem pela Tate Modern, também apresentaram uma grande exposição no Museu Coleção Berardo (CCB) – a primeira e única de um artista de arte urbana por lá. Neste momento, o graffiti deixava de ser visto de forma depreciativa e marginalizada. Era o início do “boom” da chamada arte urbana no país, principalmente em Lisboa, e da consolidação desta pioneira proposta de trabalho.

Mesmo distante das ambições do mercado privado da arte, sem visar lucros e sem a necessidade de manter um espaço físico, já que o foco era mesmo regular e explorar os espaços públicos – dos vidrões aos caminhões de coleta de lixo -, a proposta de galeria urbana realizada em Lisboa mostrou-se notável (saiu até no “The New York Times”) e, a medida em que novos projetos eram realizados, mais propostas chegavam, mais artistas se interessavam, mais pessoas queriam conhecer e mais marcas apareciam para vincular sua imagem. “Após iniciar um bom diálogo com os artistas, o desafio foi receber uma série de pessoas que orbitam em volta do ‘trending’, do urbanita e do citadino. Esses valores todos são apelativos. Instituições culturais querendo usar a arte urbana para atenuar as diferenças entre as faixas etárias, instituições sociais e diversas marcas também passaram a nos procurar”, assegurou Inês. “Houve e ainda há muitas marcas a procura de trabalho publicitário, tipo um Vhils a fazer um logotipo”, ironizou Silvia, ao completar: “Essa é uma importante fonte de renda da Câmara, as empresas pagam para ter publicidade em espaço público e não pagam pouco, mas esse não é nosso departamento, não é nossa área de intervenção e sempre mantemos o princípio da liberdade criativa. Não queremos um ‘briefing’ fechado. No máximo e aquilo que tem acontecido é aceitarmos um logo de forma discreta. Mas, as marcas já começaram a perceber isso. O projeto nos pilares da Ponte 25 de Abril, por exemplo, foi realizado em parceria com uma grande empresa e não houve qualquer citação”. De acordo com Inês, por mais que seja fácil ceder a tentação da verba vinda da publicidade, o diretor da GAU (Jorge Ramos de Carvalho) sempre manteve os pés firmes em relação a isso, enquanto as ofertas que aparecem costumam ser usadas da melhor maneira possível e sem comprometer a linha de atuação da galeria.“A editora Zest, por exemplo, bancou duas edições da revista em troca das fotos que foram usadas em nosso livro e que também fizeram parte de seus dois lançamentos”, completou Inês.

A fim de promover o reconhecimento da arte urbana e dos artistas, assim como divulgar os projetos e as novas peças realizadas na cidade, a GAU nunca se resumiu às autorizações dos espaços a serem pintados. Sempre houve muito esforço para manterem plataformas e materiais de apoio, seja através dos postais que traziam as obras dos painéis da Calçada da Glória, do site que não existe mais (mas voltará), da página no Facebook que demorou a ser autorizada, de um livro-registro e de suas revistas, que começaram a ser distribuídas em 2013 e, atualmente, encontra-se em sua sétima edição. Ou seja, por mais que não tenha sido um fator exclusivo, a atuação da GAU mostrou-se determinante para mudar o panorama da arte urbana no país e situar Lisboa entre as principais capitais europeias neste atrativo segmento. Embora dependa mais de uma conjuntura política favorável do que de chuva e sol, a semente foi plantada, a árvore criou raízes e os frutos continuarão a colorir a vida das pessoas. Neste caso, segundo as entrevistadas – mais cientes do potencial do projeto, com uma equipa mais robusta e como verdadeiras especialistas no assunto -, 2016 será um ano de farta colheita. O contínuo apoio às ações da UnderDogs, os workshops do projeto Lata 65, as ações em conjunto com as associações, as novas edições da revista e o retorno do site são apenas algumas das atividades previstas, mas ainda terá mais – com direito a uma grande surpresa ainda no primeiro semestre. No que depender das solicitações, que incluem artistas querendo pintar, convites para conferências, pedidos de visitas guiadas e solicitações de entrevistas de todos os tipos de pesquisadores, o movimento seguirá intenso. “Todos as semanas chegam alguma…  algumas propostas interessantes de trabalho. Então tentamos analisar e distribuir da melhor forma possível. Apesar do grande volume de pedidos, seguimos empenhadas em dar continuidade a nossa missão e em abrir espaço para todos os artistas”, finalizou Inês. Que assim seja… Vida longa, GAU!

Página da GAU no Facebook: https://www.facebook.com/galeriadearteurbana/

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