IBISCO: do teatro à transformação

Dos murais do festival ‘O Bairro i o Mundo’ às engajadas peças da companhia, o projeto que transformou a realidade das Quintas da Fonte e do Mocho, em Loures.

De um lado, os Montecchios da Quinta da Fonte e, de outro, os Capuletos da Quinta do Mocho. Numa espécie de tragédia shakespeariana da vida real, na qual uma suposta história de amor acabou por agravar o cenário de violência e dividir dois sensíveis bairros sociais nos quintos do concelho de Loures, na região metropolitana de Lisboa, uma companhia teatral assumiu o protagonismo da trama a fim de encenar um final diferente junto aos moradores de ambas as comunidades – palco de pobreza, conflitos étnicos e criminalidade. Ao menos, esta era a ideia do Alto Comissariado para as Migrações (ACM) e do Programa Escolhas, rapidamente apadrinhada pela Câmara Municipal de Loures, e também a principal missão do Teatro IBISCO (Teatro Inter Bairros para a Inclusão Social e Cultura do Optimismo), associação criada justamente para intervir nestas áreas de exclusão ainda em 2009, quando diversos episódios de violência evidenciavam a complexa situação de rivalidade entre as duas localidades. No entanto, o que era para ser “apenas” um workshop de teatro para minimizar os conflitos entre os bairros multiculturais, de população composta predominantemente por pessoas vindas dos PALOP (Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa), comunidades ciganas e famílias do leste da Europa, mostrou-se como um pioneiro processo de inclusão e uma poderosa arma no combate ao preconceito, principalmente por capacitar, emancipar e elevar a autoestima dos jovens criados dentro de um ciclo de repressão. Atualmente, com diversas montagens no currículo, atores em telenovelas e quase uma centena de prédios pintados dentro do “O Bairro i o Mundo”, projeto produzido em parceria com a Câmara de Loures, o IBISCO vai além das peças, vai de encontro a novos desafios para seguir sua proposta e ampliar sua atuação, como afirmou Catarina Aidos, atriz e uma das integrantes da equipa IBISCO,  em entrevista ao Ctrl+Alt+RUA. Numa visita ao local, tanto rápida pela quantidade e riqueza das histórias encontradas, Catarina nos apresentou a famigerada Quinta do Mocho, falou sobre a proposta da companhia e, de quebra, mostrou alguns dos famosos murais vistos no local – um verdadeiro espetáculo à parte e, o melhor, com entrada livre.

Entrada da Quinta do Mocho a partir da Casa da Cultura de Sacavém (Crédito: Ctrl+Alt+RUA)
Entrada da Quinta do Mocho a partir da Casa da Cultura de Sacavém (Crédito: Ctrl+Alt+RUA)

Após entrar em contato com o projeto O Bairro i o Mundo, acabamos por descobrir o admirável trabalho do Teatro IBISCO e, como haveria de ser, partimos em direção à Quinta do Mocho, que, por sinal, já havia sido rebatizada em gestões anteriores como “Urbanização Terraços da Ponte” numa tentativa de solucionar o problema do péssimo estigma ligado ao local, cujo somente o nome já assustava.
– “Boa tarde! Sabem onde fica o centro cultural? Parece que há uma aula de Capoeira por lá”, completamos a pergunta direcionada a dois jovens moradores na entrada de um dos 91 prédios do conjunto habitacional, ambos negros e com pesadas sacolas de compras de mercado nas mãos.
– “Olha, para chegar na casa da cultura você tem que descer até o final da rua e virar à esquerda. Logo verá. Mas, para ser sincero, eu não sei o que se passa por lá”, respondeu um deles após repousar a sacola no chão e deixar claro que não costumava frequentar as atividades culturais promovidas no espaço.
No entanto, ao chegar na Casa de Cultura de Sacavém, situada junto a um posto de saúde na entrada da Quinta do Mocho (como os moradores preferem chamar), o barulho do berimbau já indicava que a tal aula de capoeira ocorrera mesmo ali. Mas não era bem uma aula e sim o primeiro ensaio aberto de uma nova montagem da companhia, a qual aborda a história da capoeira no contexto da abolição da escravatura e deve estrear em breve no local. Enfileirados lado a lado, como numa habitual batida policial, os jovens atores apresentaram-se timidamente e, na sequência, após uma rápida contextualização do diretor – “é para ser ruim mesmo”, dizia – veio a versão improvisada, ainda muito crua e repleta de falhas, mas emocionante o suficiente para mostrar na prática a admirável proposta do projeto. Na ocasião, funcionários de um banco que financia a companhia através de um programa de empregabilidade (ABOTA) também marcavam presença na encenação em pleno horário de trabalho. Descalços e de berimbau na mão, eles estavam ali como voluntariados, para ensinar “a dança” aos atores, compartilhar experiências e tornar essa proposta ainda mais especial. Daquelas coisas que é preciso ver para acreditar.

“O Teatro Inter Bairros para a Inclusão Social e Cultura do Optimismo foi criado justamente para intervir na Quinta da Fonte e na Quinta do Mocho, através de um convite feito ao diretor artístico Miguel Barros. Esses bairros de realojamento, criados na altura da Expo98, mantinham uma história de rivalidade terrível, que envolveram famílias que perderam seus filhos e outras tragédias. Uma rivalidade armada que hoje em dia é uma espécie de guerra fria, ou seja, os jovens evitam frequentar o espaço um do outro”, relatou Catarina, ao exaltar que tal disputa teria começado pelo “parvo motivo de uma disputa de namorada” e que a primeira peça encenada pela companhia foi justamente uma adaptação de Romeu e Julieta com atores dos dois bairros sociais. “Como também houve um grande tiroteio na época e estava tudo em tumulto, o Miguel percebeu rapidamente que não resolveria nada sem os colocarem para trabalharem juntos. E o teatro permite isso, a quebra desta espécie de barreira existente”, completou. Apesar de a sede do IBISCO estar na Quinta da Fonte, no Centro Comunitário da Apelação (Travessa Henrique Barbosa, S/N), e das maiorias das atividades se concentrarem por lá, a companhia atua nas duas comunidades (sempre focada na interação) e desenvolve suas atividades de acordo com as necessidades encontradas. As peças da companhia, por exemplo, não seguem guiões (roteiros) e são elaboradas a partir do retorno do público presente nos ensaios. Outra coisa: sempre abordam temas políticos, que confrontam a realidade dos moradores, e são feitas em português e em crioulo, já que grande parte dos atores são de origem africana. De acordo com Catarina, que chegou ao IBISCO ainda em 2013 para desenvolver atividades teatrais voltadas aos miúdos, a companhia não tinha como deixar de atuar em outras esferas e de buscar respostas para problemas que mostravam-se evidentes. Tratava-se de uma evolução natural do projeto.

“Apesar de estarmos focados nesta mensagem de otimismo, nossa atuação não poderia se limitar a transformação de 30 jovens, que, por sinal, já não eram mais só das Quintas da Fonte e do Mocho, mas de todos os outros bairros sensíveis do concelho de Loures. Assim, tendo em conta as outras carências observadas, surge o IBISCO-DE (voltado aos miúdos), o recém-lançado IBISCO-TA (voltado aos idosos), o programa de empregabilidade ABOTA e o Bairro i o Mundo, festival desenvolvido justamente para abrir o bairro ao mundo e trazer o mundo ao mundo. Por isso ‘O Bairro i o Mundo’, pela ligação ao crioulo e por fazer uma brincadeira com ‘Bairro Imundo’, que é aquilo que as pessoas pensavam sobre esse território”, ressaltou Catarina ao caminhar pelas ruas da comunidade – uma galeria de arte pública com cerca de 50 murais de grande porte. O festival, que mistura musica, dança, teatro e arte urbana, teve sua primeira edição realizada na Quinta da Fonte em 2013 e, no ano seguinte, foi repetido com o mesmo sucesso na Quinta do Mocho, embora a pintura dos murais, dentro de um concorrido programa de residência artística – “há uma longa lista de espera” -, vá além dos três dias de atividades, assim como o próprio evento no geral. “O festival não são os três dias de festas e não são as pinturas nas paredes. Tem isso, mas também existe todo um processo até chegar a sua realização, com as assembleias comunitárias, os debates e as ações de limpeza, e os frutos que surgem como consequência”, ressaltou Catarina, ao exaltar que a presença de “pessoas de fora” tornou-se algo comum no bairro: “As visitas guiadas organizadas pela Câmara de Loures trazem centenas de visitantes ao bairro, as quais conferem os murais, o trabalho da companhia e, por fim, saem como uma nova impressão do bairro. Até mesmo uma antiga linha de autocarro (o 300) voltou a circular no bairro (somente nos horários de picos) após a realização do festival”. Fica o convite e, principalmente, o exemplo. Que tal transformação também possa servir de exemplo e florescer em outros bairros de Loures, de Lisboa, de Portugal e do mundo. Aos amigos do Mocho, até breve.

O Bairro i o Mundo

A reconhecida galeria de arte pública da Quinta do Mocho, além de ter aberto o bairro social ao mundo (e vice-versa) e de ter transformado a vida de cerca de 3 mil moradores (ainda que não da forma esperada), destaca-se tanto pelo alto nível de seus murais – 50 prédios entre artistas nacionais e internacionais – como por suas histórias. Só estando no local para entender.
– “Esse aí está uma porcaria. Gostei de todos os outros, mas esse não ficou bem feito não. A chuva está a tirar tudo o papel e terão que chamar alguém para fazer outro aqui”, reclamou um morador com receio de perder a intervenção feita em frente a sua janela.
A obra em questão, que conta com recortes de imagens dos próprios moradores e forma um grande olho no centro “da tela”, é de autoria de Alexandre Farto (a.k.a Vhils), a segunda do badalado artista português no local. A primeiro foi uma pintura (não há como perfurar a fina parede dos edifícios) de um retrato do DJ Nervoso. A pintura do Mocho que deu início à galeria, o mural do artista Adres inspirado no desenho de um aluno da escola local que retratou sua comunidade com uma girafa desenhada no prédio, assim como na obra do artista Ivo Santos (a.k.a Smile), e o favoritismo pelo mural do Nomen que traz uma jovem negra a tirar a mascara antes de entrar em casa são apenas mais alguns dos causos colecionados. Mas tem mais, muito mais. Entre os principais nomes da cena nacional e convidados de peso, tem os recentes trabalhos da mexicana Eva Brancamontes e dos brasileiros “L7m” e Tarsila Schubert, além da “Worker Ghetto Box” do francês “MTO”, da garça de sucata do português “Bordalo II”, da menina girafa de Ivo “Smile” Santos, do doobberman do “Projecto Matilha”, do colorido portal de “RAM”, da bela adormecida de “OzeArv”, do inconfundível cardume de Pantônio e do mocho de Catarina “Glam” Monteiro, entre outros. Nomen, Gonçalo MAR, Violant, Utopia 63, Vespa, Cena7, Tamara Alves, Hazul Luzah também estão por lá. Todos esses e os demais poderão ser conferidos de perto em recorrentes visitas guiadas que ocorrem por lá. * (bairromundo@gmail.com)

Mais informações sobre o IBISCO: http://ibisco.org/teatro-ibisco/

Aos artistas interessados em participar do projeto O Bairro i o Mundo, o contato pode ser feito através da página do Facebook 

Casa da Cultura de Sacavém – Tel: 211 151 463
Quinta do Mocho (Urbanização Terraços da Ponte), Parcela P

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