No imaginário de Maria

Em entrevista ao Ctrl+Alt+RUA, a artista fala sobre os tempos de graffiti, o coração (de merda) e a onírica individual na Underdogs, aberta até 13/02. Ainda dá tempo.
maria imaginario
A artista Maria Imaginário (Crédito: Divulgação)

Balões fazem do chão um imenso colorido, pinturas delicadas se engrandecem em pormenores e personagens saltam das telas numa fantasiosa realidade. O que poderia estar relacionado a um estado alterado de consciência esboça, na verdade, uma breve descrição do onírico e paralelo universo apresentado por Maria Imaginário em “A Mind of its Own”, sua comentada e surpreendente individual na galeria Underdogs, a qual encontra-se aberta ao público até a próxima semana (dia 13/02). Neste caso, a surpresa mencionada não se refere somente a notável ausência do “coraçãozinho de merda” – personagem central que simboliza mais as lamechas e os sarcasmos do que as bodas propriamente ditas -, mas também à presença de novos personagens, de esculturas, de instalação e, principalmente, de uma artista de mente acelerada que não se contenta com peluches na zona de conforto. “Todos os personagens vêm da minha cabeça e não propriamente aparecem como uma evolução do coração. O coração é só mais um deles. Mas optei propositadamente por não trabalhá-lo (nesta exposição) para evoluir e não me fixar somente nele. Isso representa um grande desafio, mas também é importante para eu crescer e poder dar continuidade ao meu trabalho”, afirmou Edna, mais conhecida como Maria Imaginário – nome que surgiu a partir de uma piada entre amigos de colégio e que, por sinal, adapta-se muito bem a sua linguagem, algo entre o lúdico, o cândido e o inconfundível. Em entrevista ao Ctrl+Alt+RUA, a artista plástica fala sobre sua trajetória artística, do passado no graffiti à mostra atual, e adianta parte de seus planos futuros, como um novo projeto para junho e uma nova exposição individual em museu.

Para quem circula pela exposição no armazém da Underdogs, espécie de materialização do imaginário de Maria, dificilmente relaciona as obras encontradas com os bombings de outrora que davam cor ao cinzento dos muros. O tempo era outro e as propostas também eram distintas, mas a pessoa era a mesma, ainda que no ímpeto dos vinte e poucos anos. Antes de amadurecer seu trabalho e de se dedicar às telas, a ilustradora aventurava-se nas ruas com sua clássica série de gelados, pasteis, doces e outras guloseimas mais, invadindo o imaginário da cidade. Na ocasião, há cerca de dez anos e quando os trabalhos realizados no papel eram bem próximos aos realizados nas paredes, Maria usava o “vandal” para exaltar a questão do abandono e o grafitti para tocar as pessoas, que, segundo ela, não costumavam se sensibilizar muito com as tradicionais letras e tags. Sob a influência dos amigos “writers” e com poucos recursos – pagando o custo das tintas -, ela mostrava-se disposta a fazer “algo para fora e mais comunicativo”, enquanto as alegres pinturas de quatro cores e cinco minutos surgiram como algo ideal neste contexto. “Sempre foram queridos. Teve pessoa que trouxe banquinho para eu pintar, pessoa que oferecia lanche, pessoa que ficava a espreitar para me avisar da chegada da polícia e até os policiais que faziam vista grossa. Eles percebiam que não era bem um vandalismo. Eram desenhos coloridos feitos em edifícios centrais abandonados e as pessoas conseguiam diferenciar. Também evitava fazer em pedras ou em mármores pela difícil reparação e, no geral, o retorno era positivo. Depois, como haviam muitos por Lisboa, as pessoas já passaram a reconhecer”, recordou a artista, ao exaltar que não tinha receio da repressão porque não fazia em comboios e algo do género, mas, como estava sempre no limite, evitava ser pega para não perder o material de trabalho e o dinheiro investido. “Isso era mesmo triste”, completou.

No entanto, com o passar do tempo, o avanço da idade, o acumulo de responsabilidades, a evolução do trabalho, o exercício continuo e o distanciamento das linguagens – as telas estavam detalhadas demais para serem reproduzidas nos muros -, a artista deixou de atuar nas ruas, embora ainda tenha feitos alguns projetos com o coraçãozinho posteriormente. “Mas, isso já é diferente. Trata-se de uma outra abordagem. Continuo aberta para intervenções em espaços públicos, mas não da forma que fazia antigamente”, apontou a artista, ao ressaltar que, assim como o próprio amadurecimento de seu conceito, essa transição não veio do dia para noite, mas em consequência de muito trabalho. Em relação à sua linguagem, facilmente associada à estética infantil, Maria mostrou-se mais enfática: “Não sei explicar o porquê, mas isso já faz parte do meu conceito. Os meus trabalhos, como o próprio coraçãozinho de merda, não são voltados às crianças, até porque elas não conseguiriam compreender ao todo. Mas, não me incomodo com tal retorno, ao contrário, achei piada ao ver elas (as crianças) correndo entre os balões no dia da abertura e ao saber que elas ficavam loucas no espaço. Aliás, essa era uma das propostas da exposição; que as pessoas, além de observar os quadros, também conseguissem participar e interagir de alguma forma. Isso foi muito importante”, relatou. Neste caso, ao levar em conta as esculturas dos personagens retratados em tela – todos ao máximo do cuidado – e a imensa instalação da casa sentada com balões a sair de sua cabeça, não foram apenas os miúdos que enlouqueceram. Era, de fato, um espaço encantado(r).

Mesmo faltando uma semana para o encerramento da individual na Underdogs e da surpresa com o positivo retorno obtido até o momento – “não esperava atingir um número tão elevado de visitantes, ter tantas fotos compartilhadas e esse interesse todo por parte da imprensa” -, Maria Imaginário não hesita em responder ao ser questionada sobre seus próximos trabalhos. Ou seja, têm mais coisas vindo por ai e, o melhor, não tardarão a serem apresentadas: “Parei para dar descansar um pouco, mas já estou a produzir novamente no mesmo ritmo. Apesar de ainda não poder falar muito, terei outro evento já em junho e também uma outra individual prevista para ocorrer num museu ainda neste ano”, adiantou a inquieta artista que, neste aspecto, não fica apenas no imaginário. Maria também é correria, produção e, talvez por isso, já carrega uma considerável bagagem no auge de seus 30 aninhos. Formada em ilustração e banda desenhada na Ar.Co, a artista, que “trabalhou para pagar a escola, deu aulas de desenho e fez muitas ilustrações para agências de publicidade”, traz em seu currículo inúmeras exposições coletivas internacionais, seja em Milão, Roma, Londres, Paris ou em cidades norte-americanas como San Diego, Atlanta e Miami, e outras individuais não menos importantes em Lisboa. Sendo assim, a exposição “A Mind of its Own”, a primeira na galeria de Alexandre Farto (a.k.a Vhils) e Pauline Foessel, veio para justificar uma longa trajetória de trabalho e, principalmente, evidenciar o novo que desponta no imaginário de Maria. Corram que ainda dá tempo!

Vídeo lançado na página da UnderDogs:

“A Mind of its Own” – Maria Imaginário
UnderDogs: Rua Fernando Palha, 56. Xabregas, Lisboa.
Entrada: Livre. Até 13/02. De ter. a sáb., das 14h às 20h.

Mais informações sobre Maria Imaginário

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