Chei Krew: no circo das ruas

Às vésperas da abertura de “Circo Chei”, a nova exposição na galeria Circus, a dupla de jovens artistas fala sobre a “krew” e as pinturas nas ruas do Porto. Chei manim!
Chei Krew
Os artistas da Chei Krew (Crédito: Divulgação)

Eles começaram a pintar juntos sem qualquer pretensão em meio à escola secundária e, atualmente, menos de cinco anos depois – beirando os 20 e longe de concluir a graduação em design gráfico -, os trabalhos da chamada Chei Krew espalham-se pelas nas ruas do Porto e ocupam as paredes de uma conhecida galeria de arte urbana da cidade, a Circus Network, onde no próximo dia 20 de fevereiro inauguram uma nova exposição, a “Circo Chei”. No entanto, antes de subir as lonas, a dupla portuense adiantou parte do espetáculo previsto numa divertida entrevista ao Ctrl+Alt+RUA, na qual, com direito a nariz de palhaço, os jovens artistas falaram sobre as propostas da krew e a evolução natural deste trabalho em conjunto. Ou seja, antes de detalhar as acrobacias preparadas para esta segunda individual – a primeira foi a “Salada de Frutas”, realizada em 2014 na casa Plano B (em paralelo ao festival Push) -, os miúdos contam esta história desde o início: “Estudávamos juntos e estávamos sempre a pintar, eu (a.k.a “Louro”, na ocasião) ficava mais nos cadernos e stickers, mas o “Bac” já pintava na rua. Mas ambos tínham essa paixão pela cultura do graffiti. E começamos assim, sem qualquer pretensão, mas a fim de desenvolver nossa própria estética, de atuar na rua, de manter contato com as pessoas e de levar mais cores à cidade. Pensávamos eventualmente em trabalhar em ambientes fechados, mas não era um objetivo”, declarou um deles – “tanto faz” -, ao exaltar que, apesar dos projetos que surgem e das demais ações ligadas à galeria, a maioria dos trabalhos duo é feito nas ruas e, inclusive, de maneira ilegal. Respeitável público, o circo está armado… chei!

Com uma estética firmada entre o lúdico, o divertido e o infantil, algo mais próximo das linhas do design gráfico do que do graffiti propriamente dito, e personagens tão simples como carismáticos, caso da girafa e do pássaro, entre outras carinhas sorridentes, a Chei Krew pegou e – com sorte, como ressaltaram – passou a ganhar tanto o reconhecimento das pessoas como o respeito dos demais artistas da cena, embora a malta do vandal não simpatize muito com tal proposta “vendida e comercial”. “Nós buscamos beber dos dois lados e achamos que ambas as coisas funcionam muito bem. Podemos fazer tanto um bombing como uma tela mais elaborada sob a mesma identidade. É claro que já tivemos peças ‘crossadas’ e esse preconceito existe, mas estamos mais preocupados com o nosso próprio trabalho e em evoluir, seja na temática, no suporte ou em novas propostas. Nos preocupamos em estar felizes e em passar essa felicidade para nosso trabalho, em deixar nossa arte fluir sem tentar se fechar a um ou a outro conceito”, declararam os jovens artistas portuenses que, de certa forma, poderiam simbolizar toda a efervescência cultural vista atualmente na cidade, assim como a própria abertura da galeria Circus Network, que tem movimentado e muito a cena local. “O Porto está na moda e não só em relação à arte urbana. Há muitas coisas a acontecer na cidade, desde músicos, DJs e bandas. Agora, todo final de semana tem festas, novas exposições e outros eventos. E é claro que isso também tem ajudado a nós e aos outros artistas”, completaram os miúdos que, mesmo conscientes desta nova realidade, preferem manter suas identidades sob sigilo e evitam a mostrar a cara.

A partir de um nome tirado de uma expressão angolana – “chei manim”, segundo eles algo como “isso é mesmo fogo” -, a dupla abriu caminho e fez das ruas uma verdadeira plataforma, ideal tanto para amadurecer o conceito explorado como para chamar desencadear novos trabalhos. Isso sem falar no contato direto com outros artistas que já lá estavam e que, neste caso, foram fundamentais para a evolução e a motivação dos meninos, como a velha guarda do Colectivo Rua e o jovem GodMess (Tiago Gomes), que, por sinal, foi quem os convidou para a primeira exposição coletiva. “Víamos eles a trabalharem nas ruas desde pequeno e crescemos vendo isso. Eram caras cheios de atitude e que, com certeza, serviram de referência e inspiração para buscarmos nosso espaço. Sem dúvida que nos motivaram de inúmeras formas. Quando pintávamos com o GodMess, por exemplo, ele nunca falava que estava bom e que era aquilo. Ao contrário, sempre falou que tínhamos que trabalhar mais, se dedicar mais e fazer melhor. A participação na exposição também. Foi uma tela pequena, mas que significou muito”, ressaltaram os artistas sem esconderem o entusiasmo em poderem trabalhar juntos daqueles que sempre admiraram. “A palavra que descreve isso é sorte. Mas, além do nosso trabalho, isso também vem deles, que são boas pessoas, e do apoio que temos recebido por parte da galeria”, completam. No entanto, no que depender da ambição dos meninos, que “pintariam até em Marte”, ainda não há nenhuma missão cumprida… a caminhada está só começando.

Chei Crew - no Axa
Intervenção tridimensional “Sala de Estar”. Todos ao Axa, no Porto. (Crédito: Divulgação)

Alô criançada, o circo chegou!

Em continuidade ao apresentado na primeira exposição, focada basicamente em pinturas, a segunda individual da krew mostra-se mais completa e inclui outras peripécias, como esculturas, fotografias, instalações e performances. Entre cores, texturas e diferentes emoções – algo além do papel -, trata-se de um verdeiro circo, o Circo Chei, utópico e, ao mesmo tempo, inserido no cotidiano. “Nós não costumamos limitar nosso trabalho e também nos fascinamos por muitas coisas. Tentamos sempre criar coisas novas, surpreender a nós mesmos e transformar tentativas em novas linhas de trabalho. Nunca deixamos de arriscar, de experimentar e de ver o que ocorre, e aqui mostramos o que estamos a trabalhar e o que pensamos em produzir para o ano”, relataram os artistas, ao exaltarem que, neste caso, a ideia era mesmo brincar com público: “O circo veio por conta de uma brincadeira com o nome do espaço, mas também pode ter uma perspetiva inserida no dia-a-dia, como um conjunto de emoções que ocorrem num curto espaço de tempo, da gargalhada espontânea à situação de equilíbrio que lhe faz perder o ar. Embora isso não chegue a estar visível na exposição, abordamos um olhar de como o cotidiano também pode ser um circo dentro de uma nova realidade, de uma nova experiência. Quando vamos a uma exposição, gostamos de nos sentir transportados a um novo espaço, de ver algo que te transmite diferentes sensações e não apenas quadros na parede. E agora, do outro lado, tentamos reproduzir isso, mexer com as pessoas e buscar uma interação”, finalizaram a dupla, ao convocarem o público para este novo espetáculo.

Mais informações sobre a exposição “Circo Chei

 

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