SKRAN: dose dupla em Almada

Com duas mostras distintas em cartaz em sua cidade – “Muralma16” e “Fractal” -, o artista fala sobre o início no stêncil, as novas propostas e a cena atual. Tá em casa!
Skran + Phnsk
Arte do artista SKRAN na Fractal (crédito: divulgação)

Se o bom filho a casa torna, neste caso, o papel de anfitrião caberia ao artista Ricardo Delaunay, mais conhecido como SKRAN, enquanto a morada seria a Oficina da Cultura de Almada, cidade situada na margem sul de Lisboa, onde o grafiteiro cresceu, seguiu carreira no stêncil e tornou-se referência tanto nas ruas como na escola da vida. Depois de seis anos da organização da famosa “Wallmada”, uma das mostras mais expressivas da galeria administrada pela câmara local, o ex-bancário volta a ocupar o espaço para apresentar uma espécie de panorama atualizado da arte urbana de Almada, desta vez mais focado na diversidade e em novas propostas do que na apresentação do conceito de ‘streetart’ em si. A contar com novos trabalhos de quatros nomes da velha guarda – SKRAN, Gonçalo Delaunay (a.k.a MinimalAnimal, irmão de SKRAN), Ketam e Klit -, a exposição “Muralma16” encontra-se aberta ao público até o próximo dia 23/03. Em entrevista ao Ctrl+Alt+RUA, SKRAN detalha a nova exposição em sua área, fala sobre o início no stêncil e, de quebra, adianta algumas de suas propostas mais atuais, como um curioso projeto criado a partir da mistura entre graffiti e videomapping, que, através da iniciativa Fractal, articulada ao lado de “PHNSK”, pode ser visto de perto até o dia 4 de abril no Ponto de Encontro de Cacilhas, também em Almada. Dá ponte pra lá, só chegar!

skran muro azul 2
Trabalho realizado por SKRAN dentro do projeto Muro Azul (GAU)

“Desde a realização da Wallmada, a câmara (de Almada) já considerava uma nova mostra de streetart no local. A exposição foi um grande êxito e, até hoje, aparece como uma das mais vistas por lá. Sempre tive uma boa relação com eles e, como havia sugerido este projeto com o mapping, eles me cobraram esta nova mostra, que, na verdade, aparece como uma continuação da realizada em 2010, mas com outros artistas – mais focada nas novas propostas e nem tanto em levar a arte de rua para galeria, como foi da primeira vez. É a mesma pessoa, mas com um outro olhar”, apontou SKRAN, ao reconhecer que os tempos são outros, ao menos, bem diferente de quando começou a explorar o stêncil ainda em 2003. Na época, sem qualquer pretensão, o objetivo era interagir com a cidade e espalhar seu personagem – o robô R2 D2 de Star Wars, que, por sinal, já era assinado como SKRAN. Mas, ao passar do tempo e ao tomar “pica pela coisa”, o “hobby” passou a ficar sério e, a partir dai, o bancário passou a amadurecer sua estética artística e a espalhar seu nome nas ruas. De acordo com SKRAN, atualmente uma referência no encontro entre linhas geométricas e retratos em stêncil, a busca por novos elementos começou a ser mais explorada em 2007, mais precisamente durante a pintura de um armazém para a RedBull. Ao lado de renomados artistas da cena local e sem o fiel stencil na mão, SKRAN se viu forçado a testar uma nova linha e acabou por gostar do resultado. Ou seja, daquele momento em diante, seu trabalho nunca mais seria o mesmo, literalmente.

“Sempre trabalhei o stencil e também estava sempre a pintar, fui até um dos pioneiros a explorar a técnica em comboios. O retorno que obtinha me motivava a continuar, mas também a buscar novos desafios e não ficar só naquilo. Meu irmão, que costumava a pintar comigo, também me apresentou um lado do design e essa evolução acabou por ocorrer de maneira natural. Em 2010, para me dedicar mais à arte, eu deixei o banco e abri uma marca de roupa (TISSUE)”, revelou o artista, que, embora seja uma referência no stêncil, não se mostra limitado à técnica: “Agora, por exemplo, estou a tentar fugir um pouco até do uso do spray, a buscar novas formas, como o graffiti com mapping e as próprias obras que apresento em ‘Muralma’. Os trabalhos têm mais cara de galeria e são feitos a base de cortiça, um material que uso na minha marca e que sempre tive vontade de explorar”, declarou SKRAN, ao revelar que a cortiça usada na elaboração das obras foi encontrada numa fábrica abandonada durante um passeio fotográfico, outras de suas dedicações e que, inclusive, vem sendo trabalhada como colagem nesta ousada fuga da lata. Além das novas obras de SKRAN, a exposição na Oficina da Cultura de Almada também conta com trabalhos do irmão G. Delaunay, uma linha mais voltada às camadas do desing; Ketam, um antigo writer da margem sul que apresenta um trabalho em aerografia, e Klit, integrante da lendária Leg Crew e ex-dono da Montana, que traz uma releitura de seu clássico ‘lettring’ abstrato.

Novos tempos ou “vai não vai”?

Questionado sobre a nova realidade da cena do graffiti, de meio de protesto a produto de mercado, e da afirmação do conceito de arte urbana, principalmente por parte das câmaras – até mesmo como uso de ferramenta política -, SKRAN traz uma visão de quem acompanhou (e acompanha) de perto esta transformação e, em vez de se contentar com o espaço obtido, aborda os dois lados da questão – o “vai não vai”, como disse. “Atualmente vejo muitos artistas novos interessados apenas em vender, em serem famosos e não em defenderem um trabalho autoral. Usam muita cópia e acabam num lugar com mais do mesmo”, apontou o artista, ao enfatizar o grande apelo criado em torno da arte urbana. “Os trabalhos realizados nas ruas muitas vezes possuem interesses além da arte. Não é complicado realizar um projeto de arte urbana e seu retorno, em questão de imagem, é muito impactante. Em vez de se comprometer a fazer algo mais contínuo, você pega os mesmos artistas, pinta umas paredes e tá tudo resolvido. É sempre um vai não vai. Estive um tempo afastado de algumas ações justamente por isso: para não fazer papel de boneco”, completou SKRAN, que, por outro lado, já confirmou a pintura de um mural em Carnide dentro do festival que será promovido entre a junta local e a Galeria de Arte Urbana (GAU). “Vou ter uma reunião com a comunidade e escolher um ajudante, um jovem que me auxiliará na escolha do tema e na realização da obra, como uma espécie de workshop. Esses projetos que envolvem a comunidade sempre são interessantes. Lembro-me do Há Festas no Campo, no qual tive a oportunidade de viver na casa de uma família de Juncal do Campo por uma semana e, no fim, acabei por pintar a fachada da morada deles. Foi uma experiência de vida e mantemos contato até hoje. Na verdade isto é o que vale”, concluiu o artista.

Mais informações sobre Muralma16  e Fractal
Página do artista SKRAN no Facebook

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