SAMINA: ‘solo show’ em Amsterdam

Em entrevista ao Ctrl+Alt+RUA, o menino-prodígio da Quinta do Anjo fala sobre a primeira exposição e a mistura entre stêncil e geometrias. Tá a espremer a laranja!
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João Samina (Crédito: Miguel Oliveira)

Ao começar a criar seus personagens nas fábricas abandonadas do distrito de Setúbal, antigo polo da indústria pesqueira e eterno reduto da cultura hip-hop na margem sul de Lisboa, João Samina não tinha qualquer pretensão e nem sequer imaginava apresentar seus trabalhos numa galeria de arte. Na ocasião, ainda no colégio secundário e com seus 15 ou 16 anos de idade, o menino-prodígio da aldeia da Quinta do Anjo tinha dificuldade até para conseguir encontrar as latas de spray. No entanto, este esforço para pintar e estar na rua seria fundamental para seu amadurecimento artístico, assim como a sua posterior formação em arquitetura. A partir deste natural encontro, do stêncil do graffiti com a geometria acadêmica -, SAMINA encontrou sua própria linguagem, definiu sua assinatura (um nome herdado dos trabalhos do pai, também pintor) e, literalmente, não parou mais. Atualmente, após cruzar a ponte com a realização de inúmeros murais de destaque, ele apresenta a sua primeira exposição individual, aberta ao público até meados de abril na Wieden+Kennedy Amsterdam, uma espécie de escritório de publicidade na capital holandesa. Em entrevista ao Ctrl+Alt+RUA, uma amistosa conversa no novo espaço da Montana com a Underdogs, o artista falou sobre a exibição solo em Amsterdam, a passagem pelo Rio de Janeiro (onde conheceu sua namorada) e o atual momento de sua caminhada. “Tá a espremer a laranja”, como disse.

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Mural realizado por Samina no último ano em Covilhã (facebook.com/centrodeportugal)

“Eu comecei a fazer muros há muito tempo já, com uns 14 anos. Eu sou de Setúbal, que é uma cidade mais para Sul e que tem uma cultura muito fixe de graffiti (de hip-hop no geral). Na verdade, eu moro na aldeia da Quinta do Anjo e, ao fim do nono ano, fui estudar artes (no secundário) pra Setúbal, onde, na época, por causa do auge da crise, havia muitas fábricas abandonadas da indústria da pesca por lá. Então, nós pintávamos muito em espaços abandonados, mas as latas tinham de vir de Lisboa e isso era complicado”, relatou Samina, ao relembrar como tudo começou. Mais tarde, ao chegar à capital para cursar arquitetura, o então universitário acabou por ter fácil acesso às latas, mas já não tinha o tempo livre suficiente para se dedicar a um projeto mais complexo. No entanto, os stickers seguiam ativos e, até para aumentar a produção dos mesmos, também o stêncil – “mais rápido para produzir muitos”, como apontou. “Aprendi tudo sozinho em casa com mais um ou dois amigos, que seguiram no graffiti puro e duro e não chegaram a elaborar um conceito mais artístico. Mas, nunca fui bom em desenhar letras e também não era esse meu interesse. Cheguei a fazer parte de uma crew em Setúbal (“OH”) e, ao me aprofundar na cena, acabei por descobrir outras linguagens. Era a época do Banksy, do Obey e do início dos projetos em Lisboa, como a Visual Street Performance, e eu comecei a explorar isso e desenvolver mais o stêncil, trabalhar com mais ‘layers’”, relatou o artista, que, na ocasião, ainda poderia ser reconhecido com “Spiff”, ou seja, ainda não tinha adotado o nome SAMINA.

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Trabalho de Samina dentro do Muraliza Cascais 2015 (Crédito: Rui Gaiola)

Em meio ao boom do graffiti em Lisboa, um Shopping em Setúbal organizou um concurso aberto aos novos artistas, e João, que ainda cursava arquitetura na capital, viu uma boa oportunidade de poder voltar a pintar na margem sul e, desta vez, com uma proposta mais amadurecida, algo mais próximo de sua reconhecida estética atual. “Foi a primeira vez que eu senti que poderia apresentar meu trabalho, que já tinha um conceito. Até para marcar essa nova proposta, eu também precisava definir uma assinatura. E uma vez um professor da faculdade disse que meu sobrenome era de artista e, ao lembrar disso, pensei em adota-lo, já que o apelido também era usado nas pinturas do meu pai”, explicou SAMINA, que, além da assinatura, também definiu um estilo tão particular quanto. “Eu já trabalhava com stêncil e me sentia confortável com isso, mas me sentia meio limitado e não queria ficar apenas naquilo. Era um pouco vago e, às vezes, pedia um complemento. Por outro lado, quando comecei a explorar mais o abstrato e as geometrias, uma influência direta da arquitetura, também sentia falta de um elemento figurativo, de uma figura de força. Na verdade, essa identidade é parte de uma evolução natural, mas acima de tudo pela busca da harmonia na composição. Essa é uma característica minha. Se botar um papel em branco na minha frente eu não vou desenhar nada, mas, se tiver dois copos, por exemplo, já começo a brincar com a variação das posições. Eu gosto de compor. Meu trabalho é como se fosse um ‘puzzle’ mesmo”, brincou o artista.

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Samina em sua participação no St+Art Índia 2015 (behance.net/JSAMINA)

A partir do retorno deste primeiro trabalho e da pintura interna realizada em uma diferenciada joalharia  (JOYÁ) de Ipanema, na Zona Sul do Rio de Janeiro, onde estudou por um ano (2010/2011) em intercâmbio e também conheceu sua namorada, SAMINA obteve a confiança que faltava para ele mesmo acreditar em seu talento e no novo ofício que lhe aparecia. “Se acreditaram no meu trabalho porque eu não deveria acreditar?”, indagou o artista, ao completar: “Esse retorno foi importante e, ao voltar a Lisboa para terminar o curso, eu já comecei a procurar mais projetos e paredes para pintar. Cheguei a fazer alguns na Calçada da Glória. Quando encerrei meu curso, eu tinha dois projetos já agendados para fazer e, depois disso, iria parar para procurar emprego. Mas, a partir desses dois, surgiram outros e não parei mais”, apontou Samina, ao ressaltar que também costuma trabalhar com algumas metas pessoais. A do último ano, por exemplo, era participar de um festival internacional de arte urbana e foi concluída com sucesso no StreetArtÍndia (St+Art Índia), realizado no início de 2015 em Nova Deli. No entanto, cada trabalho realizado se mostrou importante e, de certa forma, simbolizou um degrau acima nesta considerável escalada. Com seu trabalho sendo cada vez mais reconhecido, caso das duas marcantes pinturas em Cascais e Covilhã, Samina mostra-se satisfeito com a estética alcançada, mas longe de querer estagnar. “Encontro-me num dilema. Meu trabalho chegou a um ponto em que começa a ser reconhecido, o que é importante, mas não penso em estagnar. Como passei por muitas mudanças num curto espaço de tempo, de interpretação para interpretação, acho que é a hora de espremer um pouco a laranja”, completou.

Arte de Samina na joalharia JOYÁ, no Rio de Janeiro (behance.net/JSAMINA)
Arte de Samina na joalharia JOYÁ, no Rio de Janeiro (behance.net/JSAMINA)

Apesar de ter encontrado uma solida linha de trabalho, o conceito a partir da mistura entre o figurativo e o geométrico não chega a ser algo próprio de SAMINA, já que inúmeros artistas exploram tal fórmula atualmente. Em Portugal, somente dentro da arte urbana, poderíamos citar os trabalhos de Frederico Draw e Daniel Eime. Questionado sobre essa proximidade de estética, o artista observou a comparação com naturalidade: “Primeiro nós somos amigos e nos conhecemos pela pintura. Na época em que fazia stêncil, o Eime era uma pessoa que eu seguia e não fazia stêncil ainda. Com o tempo, eu passei a buscar algo mais abstrato, e o Eime também começou a usar o stêncil. Ele já era mais conhecido e eu ainda estava a começar. Sempre sou o mais novo nessas cenas, mas ele sempre foi muito receptivo e um importante incentivador. Temos muitas influências e gostos em comuns. Agora, ele já avançou por outro lado mais distante. O Draw já vinha do graffiti e também começou a explorar o retrato, mas numa estética mais distante da minha. Depois, passou a desfragmentar as caras, assim como eu também já vinha fazendo. Mas, é isso. Há artistas que possuem elementos em comuns e até a mesma base, mas eu sei de onde vem minhas próprias referências”, declarou SAMINA, ao exaltar a influência de Picasso, o lado único de seu stêncil (sem a repetição de sua natureza) e o diálogo criado a partir de seus retratos. Em Covilhã, a figura retratada morava no espaço e era uma espécie de referência local. Já em sua exposição, onde se sentia mais livre para criar, SAMINA homenageou o rapper brasileiro Kleber Cavalcanti Gomes, mais conhecido como Criolo (Criolo Doido).

A primeira em Amsterdam

As telas não estavam em seus planos e muito menos as galerias. No início, até pelo carater abrangente e democrático da arte urbana – de levar o trabalho de encontro ao público -, SAMINA acreditava que sua proposta estaria apta para qualquer parede, seja externa ou interna, mas não para um ambiente fechado com escalas reduzidas. Mas, depois de dois meses olhando para o branco da tela como parte deste inevitável desafio, o artista conseguiu solucionar o quebra-cabeças e se adaptar ao formato, que, segundo ele, mostra-se muito diferente e, ao mesmo tempo, complementar. “A arte urbana sempre tem a questão da contextualização. Existe sempre uma localidade, uma relação com a cidade, com as pessoas e com a arquitetura em si. Mas, para uma galeria, o trabalho acaba sendo mais autoral, que eu faço somente para mim e isso também é importante. Tudo que há ali parte unicamente do meu trabalho”, relatou SAMINA, ao exaltar que também não se incomoda com a realização de projetos comerciais, a começar pelas contas a serem pagas: “O problema não é você fazer um trabalho comercial e sim você abrir mão de sua liberdade artística para realiza-lo. Se tiver liberdade para eu desenvolver minha estética, eu não vejo problema, até por uma questão de sustento. Os trabalhos pagos abrem muitas possibilidades de fazer coisas novas e também me possibilitam a continuar pintando. Caso contrário, teria que fazer aquele ‘portfólio’ e sair a procura de um emprego em escritórios de arquitetura”, brincou o artista.

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Imagem panorâmica de “Tessellate”, a primeira solo de Samina (facebook.com/SAMINA)

Tida como a principal meta estipulada para 2016, a realização da primeira individual veio logo no início do ano e, por surpresa, na psicotrópica capital holandesa, onde o artista ocupou com total liberdade as instalações do escritório de publicidade Wieden+Kennedy Amsterdam. À vontade no local, SAMINA realizou uma intervenção nas paredes de todo o espaço e, na sequência, veio com as telas por cima, como se os fragmentos dos rostos trabalhados extrapolassem os limites dos quadros e servissem para legitimar uma ideia de única obra. “Eu já havia trabalhado com eles em outro projeto (da Nike) e, numa conversa na net, eles me falaram que faziam exposição no espaço e que eu poderia apresentar uma proposta. Enviei um email ao curador e acabou por acontecer”, revelou o SAMINA, ao dizer que esteve seis meses a trabalhar na elaboração de “Tessellate”, título de sua mostra inicial. Apesar de não ser uma galeria propriamente dita – de não trabalhar a questão da comercialização, por exemplo -, a empresa deu todo suporte necessário ao artista, que, por sua vez (e de acordo com as imagens), soube aproveitar a oportunidade e representou. “Foi feito tudo por amor a arte e com meu próprio investimento. Eles me falaram que o interesse era apenas mostrar arte e que não queriam nenhuma comissão. Eu poderia vender o que eu quisesse e no preço eu que quisesse, mesmo que não tenha sido essa a minha preocupação. Deram-me o espaço e o suporte, e eu fiz o resto”, declarou o artista sem esconder a felicidade com tal realização. “Primeiro foi poder expor num país diferente, numa cultura diferente e em lugar onde as pessoas lidam de uma forma diferente com a arte”, finalizou o artista, que, em breve, em parceria com a MistakerMaker (de Lara Seixo Rodrigues), realizará um novo mural de destaque em Coimbra. Fiquem ligados nesse nome… SAMINA!

Mais informações:
www.behance.net/JSAMINA
www.facebook.com/saminartist
www.instagram.com/j_samina!

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