Mário Belém: papel, muro e madeira

Após passar pela L.A Art Show e pelo Pow Wow Worldwide, o ilustrador fala sobre as esculturas para a ThinkSpace Gallery e a próxima individual “de raíz”. Boom!
Mário Belém
O ilustrador Mário Belém

As experiências do artista Mário Belém com madeira, um trabalho iniciado junto à transição do ilustrador para a chamada arte urbana, não chegam a ser uma novidade, mas as recentes esculturas criadas sob a chancela da ThinkSpace Gallery não teriam como passar despercebidas. Primeiro, no final de Janeiro, veio a seleção Littletopia, na L.A Art Show (em Los Angeles), e, na sequência, a coletiva “Exploring the New Contemporary Art”, realizada dentro do famigerado Pow Wow Worldwide, uma espécie de mundial da streetart em Honolulu, no Havai. A considerar o positivo retorno das peças e a visibilidade alcançada, Mário Belém mostrou-se satisfeito e reconheceu o grande feito, embora estivesse mais preocupado com os trabalhos acumulados a serem entregues e as contas a serem pagas. “Foi do caralho. Mas, mudou alguma coisa? Não, zest. Estou super frustrado”, brincou o artista, ante a uma gargalhada e ao exaltar que, como qualquer ser humano, estava a espera de mais: “Minhas ambições são relativamente modestas. O que eu quero é entrar e marcar presença nestes circuitos internacionais, mas estar confortável aqui. Não quero vender minhas obras super caras, mas quero receber uma quantia razoável a cada vez que fazer uma obra e, por isso, busco minha fasquiazinha”, relatou o ilustrador, que, em entrevista ao Ctrl+Alt+RUA, falou sobre a parceria com a galeria californiana, o retorno ao desenho em sua próxima individual e a abdução por parte da “arte alucinogénica”, com diversos trabalhos dedicados a famosos festivais de música eletrônica… Boom!

A fim de fugir da estagnação e de abrir espaço a uma linha mais autoral, o ilustrador Mário Belém botou o computador de lado e foi às ruas para amadurecer um novo trabalho. Na ocasião, sob a influência dos amigos Diogo Machado (a.k.a AddFuel) e Paulo Arraiano, “que também vinham do background do desing e começavam a fazer coisas cada vez mais giras na rua”, o objetivo era adaptar seu trabalho à nova linguagem e integrar o atrativo movimento que se formava. “O mais bacana foi ver que também consegui transportar parte do público que tinha do design e da ilustração. Antigos clientes que tinha na altura são os mesmos gajos que, por exemplo, compram as minhas peças hoje em dia. Isso é muita louco. Mas, sinto como se estivesse começado da estaca zero, o que também é giro. Estava completamente estagnado, o mercado estava uma merda e digo que, se fosse trabalhar para os outros somente para aquecer, mas valia fazer a minha cena. A maior parte das coisas que estou a fazer agora é para clientes, mas não são trabalhos somente comerciais. São peças para espaços, sob encomenda e não mais flyers. Tais a ver?”, indagou Belém, que, por sinal, diz ter começado a explorar a madeira antes mesmo de pintar a primeira parede – “uma cena manhosa na escadinha de São Cristóvão realizada há três ou quatro anos”, como descreveu o próprio artista, também reconhecido pelas “partidas pregadas e pelos chamados pontapés na gramatica. Neste caso, as próprias esculturas na ThinkSpace poderiam ilustrar esta questão: a primeira, que trazia um olho dentro de uma face, foi intitulada “Ainda Não Vistes Nada”, enquanto a outra, que gozava com a cena da arte contemporânea e trazia um gajo a penetrar uma vagina, chamava-se “A Minha Estranha Relação Com a Arte”.

Questionado sobre a parceria com a galeria californiana, com seu nome ao lado de vários artistas de peso da cena internacional, o ilustrador português ressaltou que tal história começou a elaboração de um catálogo com imagens de sua segunda exposição individual, a bem-sucedida “Só há uma verdade: a saída é pelo espelho”, realizada no último ano no Bairro Alto. Na época, impressionado com a qualidade do material, Belém enviou o vídeo para mais de 40 galerias e, por acaso, acabou por ser respondido “apenas” pela ThinkSpace – “vocês ainda vão ouvir falar no meu nome, disse Belém aos demais contatos. “Na verdade, eles (ThinkSpace) tiveram a mesma visão que eu. Diante de um mercado extremamente saturado, as esculturas poderiam ter um melhor resultado, e as esculturas em madeira, dentro de um nicho ainda menor, poderiam representar um diferencial. Mas, não é fácil. A elaboração da peça exige muito tempo e não traz nenhuma garantia de retorno. É um grande investimento, seja de dinheiro, de tempo ou de esforço”, declarou o artista, ao adiantar que, para a sua próxima exposição, prevista para o mês de Novembro, retornará à essência de ilustrador, ou seja, apostará mais nos desenhos em papel. “Eu não sou ‘street artist’, nem nunca fui do graffiti e nem o caraças. A minha base é ilustração e eu sou ilustrador, gosto de desenho, de fazer bonecos e isso é algo que vou retomar agora em minha próxima individual. Buscar a minha raiz. Pode ser como um tiro no pé, mas, mesmo depois de começar a esculpir, tento não me fechar a um estilo. Olho por aí e vejo muitos artistas presos aos próprios conceitos e eu não quero isso para mim”, apontou Mário Belém, ao ressaltar que a adaptação à grande escala ainda representava uma dificuldade, inclusive do ponto de vista físico, totalmente satisfatória.

Na “Arte Alucinogênica”

Tendo um “discurso direto” como fio condutor, algo mais ligado às entrelinhas do que aos formalismos, e sem a pretensão de se firmar a um único estilo, Mário Belém segue sua caminhada aberto às novas experiências, a contar com a abdução por parte da “arte alucinogênica”, seja com trabalhos de imagens ou com obras elaboradas especificamente para grandes festivais de música eletrônica. Recentemente, em colaboração com o amigo e artista Filipe Pinto Soares, o ilustrador elaborou uma grande escultura em contraplacado (“All seeing Pixie”, 4,5 x 3m) no Envision Festival, realizado na Costa Rica, e disse ter gostado muito da experiência, principalmente pelo contato com um público totalmente diverso. Em terras portuguesas, da qual diz se orgulhar muito – “se soubessem o quanto isso aqui é bom” -, Mário Belém assina a imagem do famigerado Boom Festival, onde eventualmente também acaba por criar algo fora do papel. “Isso tem sido bué da louco, mesmo. Você pode trabalhar elementos que costuma usar, dentro de uma linguagem mais contemporânea ou urbana, e tentar adaptar isso em algo totalmente diferente. Por mais que haja muitos chavões dentro deste universo, também há muita liberdade do ponto de vista artístico e tem sido muito prazeroso realizar estes trabalhos. É uma experiência fantástica e que tenho gostado muito”, explicou o artista, que, no disputado Boom deste ano, também assinará a parte gráfica da exposição sobre os 20 anos do festival, na qual pretende apresentar uma peça “simples” e dentro deste conceito de adaptação. Ao menos, essa é a intenção…  Boa “vibe”!

All Seeing Pixie - Belem e Soares

Mais informações sobre Mário Belém

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