David Petroni: na viagem das cores

Com uma abstrata mistura entre dimensões, volumes e cores, o artista argentino mantém o passo em sua “euro-tour”, iniciada na Quinta do Mocho. Diz aí, hermano!
Mural realizado na GAP da Quinta do Mocho

Após firmar seu conceito por las calles de Buenos Aires, uma abstrata mistura entre dimensões, volumes e cores, era natural que o artista David Petroni sentisse a necessidade de apresentar suas pinturas em outras praças, de mostrá-las a um público diferente e de receber novas críticas. A fim de concretizar este objetivo e realizar um antigo sonho, o artista argentino se lançou numa desbravadora viagem pela Europa, experiência que começaria de fato com um imponente mural na Galeria de Arte Pública (GAP) da Quinta do Mocho. A obra em questão, realizada em apenas dois dos cinco dias em que Petroni esteve na capital portuguesa, foi a primeira de uma viagem que ainda incluía França, onde pintou no Le MUR, em Paris, Itália e Polonia, entre outros países de passagem. Na companhia de “su compañera”, com quem também passou por Madrid e pelo Porto antes de chegar a Lisboa, “o terror das croissants” esteve com o Ctrl+Alt+RUA numa descontraída conversa, na qual, antes de seguir à Feira da Ladra, falou um pouco de sua trajetória, das últimas pinturas realizadas e da presença na mostra de abertura da Wozen Estúdio-Galeria – a coletiva “Flecha”, a ser inaugurada no dia 21 de Maio.

Pintura realizada por Petroni no Le MUR, em Paris

“Eu já tinha esta necessidade há alguns anos. Penso que esta é experiência muito enriquecedora por várias razões, desde questões técnicas até mesmo pessoais. Tem sido um grande desafio e um grande aprendizado. Antes mesmo de deixar o país, eu já consegui sentia isso”, argumentou Petroni, ao exaltar a boa receptividade obtida em terras portuguesas: “As pessoas aqui têm sido muito amáveis comigo e fui muito bem recebido. O pessoal da produção (Cristina Melo e Rui Monteiro, coordenadora do festival “O Bairro i o Mundo” e adjunto do presidente da câmara de Loures, respectivamente) esteve a me acompanhar de perto no local e os moradores sempre paravam para perguntar algo. Na verdade, no início, todos estavam a estranharem. Mas, depois que veio as cores, eu acredito que eles conseguiram entender melhor a proposta e acabaram por aprovar”, brincou o artista sem esconder o cansaço dos dois dias intensos de pintura no Mocho. A obra em questão, um vibrante trançado colorido e mais uma impressionante tela para a galeria de arte pública local, mostrou que o argentino não veio a passeio e também acabou por apresentar este seu sólido conceito, que, segundo Petroni, mostra-se em constante evolução desde quando começou a ser explorado, ainda em 2008.

“Eu comecei a pintar na rua em 2005, mas somente em 2011 que eu passei a pintar de maneira mais regular. Comecei a trabalhar esta proposta estética em 2008 e, desde então, ela segue sempre em movimento”, declarou Petroni, ao exaltar tal particularidade: “Cada obra para mim é uma evolução, um novo desafio, e não me vejo estagnar. Ao contrário, a cada hora surge uma nova frente de interesse para eu explorar. Mais para frente, por exemplo, penso em realizar algumas esculturas tridimensionais dentro desta estética, até por sua relação com o volume. Na verdade, eu acho que sempre estou em movimento. As vezes, tento parar um pouco para poder explorar uma mensagem, mas gosto de movimento mesmo. Sou viciado nisso e isso não depende de nós, já que o planeta está em movimento o tempo todo”, completou. Apesar de ter passado pela Faculdade de Arquitetura, Design e Urbanismo da Universidade de Buenos Aires (FADU UBA) e pela Universidade Nacional de las Artes (UNA), Petroni diz não ter levado muito de sua vida acadêmica e qua sua mistura começou a ser trabalhada após uma inspiradora viagem à Bolívia, na qual teve muito contato com a arte primitiva e com a natureza em geral. “A botânica e o reino vegetal sempre foram muito importante pra minha obra”, completou o Argentino, que, por já ter vivido no Brasil, não tinha muito problema em compreender o português.

Pintura realizada na casa de la cultura de Vicente Lopez

 

Nascido em 1984, época em que a Argentina dava início a chamada “democracia moderna”, Petroni afirma ter seguido o caminho da arte como uma questão existencial – com querer compreender e passar a sua mensagem -, enquanto a pintura surgiu a partir desta necessidade de se expressar. Segundo o artista, ele sempre se reconheceu como um pintor e, independente do que fizesse, essa sempre foi sua profissão. “Eu sempre pintei. É minha forma de vida e o que eu faço acima de tudo. Acho que essa sempre foi minha profissão, embora já tenha trabalhado com outras coisas antes. Eu fiz jardins por muito tempo, pintei casas e todos estes trabalhos ajudaram em minha obra. Fizeram-me amadurecer como artista e, principalmente, como pessoa”, revelou o artista, uma das atuais referências da arte urbana na Argentina. “Buenos Aires tem uma cena muito interessante. Muita criatividade o tempo todo. As pessoas estão acostumadas a viverem de forma criativa porque a crise é forte e a arte também reflete isso. Temos uma tradição de muralismo e realismo na imagem que não está propriamente relacionada à cultura hip hop. As referências europeias são mais presentes. Mas, isso é só uma parte. A outra tem relação com as limitações económicas, que dificulta o acesso ao spray e abre espaço para a pintura com rolos, pinceis e muitas possibilidades novas. As ‘pintadas’ políticas também são bem fortes. É uma singularidade do país”, emendou Petroni, que, neste aspecto, pode falar com propriedade.

Além de seu próprio conceito artístico, firmado principalmente nas ruas, Petroni aparece como organizador de um festival na periferia de Buenos Aires. “Na verdade, não se trata de um festival e sim do bairro onde moram meus pais e onde eu morei por muitos anos. É um bairro da periferia com muitas fabricas e tudo muito cinza. Escrevi um projeto há cinco anos e o município concordou em ceder os espaços. A partir dai tudo foi rolando, mas é difícil poder gerir tudo o que você imagina. É muito trabalho, muita convicção e amor. Mas, está ai… chama-se museu a céu aberto de Villa Maipu”, declarou o anfitrião, que, após a passagem pela capital portuguesa e a pintura no centro de Paris, segue sua viagem com a participação em uma exposição de 15 murais em Palermo, na Itália, e outro grande evento na Polonia. Isso tudo – e ainda tem mais – em sua primeira visita a Europa. “Estou muito feliz e satisfeito. É uma experiencia interessante isso de pensar numa serie em distintas cidades. Pelo momento, estou muito feliz com o reflexo das obras e a experiencia. Acho que somente quando eu voltar para casa eu vou conseguir visualizar e compreender tudo o que vem acontecendo”, completou o artista, que, por sinal, ainda participará de uma exposição coletiva em Lisboa.

David Petroni – “ADN” (acrílica sobre papel)

Nas ruas e galerias

Além dos murais previstos e da própria correria da viagem, Petroni ainda encontrou disposição para prolongar sua viagem e, mesmo em paralelo ao seu retorno à Argentina, aparece como um dos artistas presentes na exposição “Flecha”, a ser inaugurada no próximo dia 21 de Maio – data que também marca a abertura da Wozen Estúdio-Galeria (Rua das Janelas Verdes, 128). “Embora os trabalhos nas ruas tenham mais notoriedade, sempre tive essa questão de gostar da rua e da galeria. Acho que são dois espaços bem diferentes e, de certa forma, complementares. Porém, a proposta da exposição activa a minha outra cara, que, por sinal, é mais instrospectiva. As cores e os traços são diferentes. Você é quem cria o espaço”, explicou o muralista argentino, ao exaltar que a obra apresentada na exposição em Lisboa aparece como uma espécie “de lado b” das pinturas espalhadas pela Europa. “É uma geometria que tenta expressar a ironia das formas duras e a sensação de flutuar no ar. Poderia chamá-la de ‘Piedra’. As serigrafias que vou apresentar – produzidas por ele mesmo, como fez questão de ressaltar – também tentam abordar a mesma temática, das cores em contraste com as formas”, finalizou Petroni. Até breve, hermano!

Mais informações no site do artista: davidpetroni.com.ar

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