Muraliza: viva o Bairro da Torre

Após dois anos no centro da vila – com direito a Millo e Bosoletti -, o festival de arte mural de Cascais colore a Torre City em nova edição. Parla, Teo “Moneyless” Pirisi!!!    
Moneyless durante a pintura na Torre (Crédito: Miguel Oliveira)

Situado a poucos metros das luxuosas mansões da Quinta da Marinha, em Cascais, o Bairro da Torre é um conjunto habitacional que foi construído entre as décadas de 60 e 70 para acomodar as famílias dos pescadores locais e que, atualmente, abriga uma população de etnias e extratos sociais bastantes distintos em seus incontáveis prédios. Apesar de contarem com certa estrutura – pontos de comércio, um centro de formação profissional, uma escola infantil, uma associação, playgrounds e um skate park (em reforma) -, os moradores do bairro queixam-se da falta de serviços, como uma maior circulação do famoso autocarro 404, de possíveis programas de auxílio e, de modo geral, de atenção. Diante desta situação de evidente contraste – mais para abrir uma nova perspectiva do que para firmar soluções concretas -, o festival de arte mural Muraliza Cascais afastou-se do centro da vila, onde realizara mais de 25 obras em duas edições, incluindo dois imensos murais com Millo (ITA) e Bosoletti (ARG), e invadiu a chamada Torre City para engajar o projeto viabilizado entre a Mistaker Maker, da incansável Lara Seixo Rodrigues (WOOL), e a Câmara Municipal de Cascais. Com uma fórmula similar a dos anos anteriores, que misturava a realização de workshops abertos com a pintura de grandes murais, a terceira edição do festival contou com as oficinas do HalfStudio e os trabalhos de AddFuel, Gonçalo MAR, Kruella D’enfer e Daniel “Eime”, além das visitas de J de Montaigne e Adres e dos convidados internacionais Paula Bonet (ESP) e Teo Pirisi a.k.a “Moneyless (ITA), que, em entrevista ao Ctrl+Alt+RUA, falou um pouco mais sobre seu conceito artístico, sua trajetória e, é claro, a passagem pelo Bairro da Torre. Parla, Moneyless!    

Trabalho realizado por Moneyless no Bairro da Torre (Crédito: Miguel Oliveira/Muraliza)

Um dos nomes da cena 90´s do graffiti na região da Toscana, Teo Pirisi começou a pintar nas ruas ainda em 95 e, sob a alcunha de “Junior”, manteve-se ativo no “bombing” por um longo período. Mais tarde, já no ano de 2004 e mais próximo dos letras abstratas e da geometria, o artista assumiu uma nova identidade e não parou mais. “Moneyless está relacionado com a minha maneira de fazer arte com materiais pobres e, literalmente, com pouco dinheiro. Durante meus estudos acadêmicos eu tive contato com a arte de 900 (do movimento artístico Novecento) e de lá tentei puxar minha visão. Meus trabalhos são sempre inspirados em formas naturais e contextos. Eu cresci no campo e isso influenciou muito a minha pessoa e, consequentemente, a minha arte”, declarou o artista. Formado em Multimídia e Design de Comunicação na Accademia di belle arti di Carrara e na Isia Firenze, respectivamente, Pirisi reconhece o amadurecimento profissional alcançado nos últimos anos, mas ressalta que tanto seu conceito como a sua maneira de trabalhar permanecem iguais. Entre um fundo de intenso azul e linhas de cores vivas – em contrastes e sobreposições -, Moneyless estampou um dos prédios da Torre e, mesmo sem assinatura evidente, apresentou seu inconfundível trabalho aos moradores. “Eu sempre tento dar um input visual para o espectador. Minha intenção nunca é passar uma mensagem, prefiro que as formas e as cores tragam ao espectador uma sensação e uma razão para uma própria contemplação. Eu amo trabalhar com a essência e, por essa razão, costumo recorrer a uma mensagem livre e aberta para que qualquer pessoa possa encontrar seu próprio sentido ou significado”, completou.

Embora já tivesse passado por diversos países e continentes, Moneyless nunca havia estado em Portugal anteriormente e, segundo ele, a expectativa era grande. “Portugal era um dos poucos países europeus que eu ainda não conhecia. Espero que este tenha sido apenas um começo e que eu possa ter a oportunidade de realizar novas obras por aqui”, apontou o artista sem esconder a felicidade com o convite e com a possibilidade de rodar o mundo através de sua arte. “A melhor coisa são os hábitos de partilha e reconhecer sua própria cultura em diferentes contextos. Penso que este aspecto é a única coisa que me faz sentir vivo. Tenho a sorte e a oportunidade que a vida me deu de conhecer novos lugares e pessoas devido ao meu trabalho. Agora é aproveitar a temporada de verão e rodar o quanto for possível a pintar paredes”, finalizou o artista, que, após a participação no Muraliza, seguiu turnê com trabalhos de destaque em Lioni (BagOut Biennale), na Itália, e Crans Montana, na Suíça (Visionart Festival), além do falado projeto Triscele, realizado em conjunto com Martina Merlini e o duo Sten & Lex. Aos interessados em ver de perto o trabalho de Moneyless, assim como o dos demais artistas citados, vale a visita ao Bairro da Torre, que,  dentro do projeto conhecido “Somos Torre”, continuou a receber a visita de reconhecidos artistas, caso de Smile, Utopia 63, YouthOne e Moksha. Se as pinturas vieram para reforçar a auto-estima e dar mais visibilidade à comunidade, esperamos que as demais reivindicações também possam ser atendidas. Viva a Torre, sua gente e suas cores!!!

 

 Confira o endereço das demais obras do Muraliza

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