Na Trama de Daniel Eime

Reconhecido pela mistura entre retratos em stencil e o abstrato da estética gráfica, o artista fala sobre sua trajetória e, em especial, o festival em Buenos Aires. Tango!
O artista Daniel Eime por trás de seu stencil (Crédito: danieleime.com)

Depois de alguns anos de intenso trabalho, de muitas realizações e projectos de destaque internacional, e antes de finalizar mais um imponente mural – o “Ponto”, na longínqua Ilha do Corvo, nos Açores, em Portugal -, o cenógrafo e muralista Daniel Eime observara 2017 como um ano “diferente”, por vontade e motivos pessoais. De acordo com o artista e recente papá, a ideia era “planear um ano de menor atividade artística para dar espaço a outras situações e, eventualmente, algumas mudanças”. No entanto, mesmo com a relativa pausa prevista, Eime não poderia abrir mão de alguns convites e, desta forma, acabou por dar início ao ano e a nossa trama no Festival Internacional de Arte Urbana do município de Tres de Febrero, em Buenos Aires, na Argentina. “A participação no Trama surgiu por convite, num simples email. A curadoria foi de (Liliana Pineiro e) Martin Ron, um artista argentino bastante conhecido mundialmente, o que me deixou bastante satisfeito e honrado porque é alguém com um grande leque de escolhas. Fazer parte desse grupo tão restrito, no meio de artistas de tamanha qualidade, só me podia fazer sentir um felizardo”, declarou Eime em entrevista ao Ctrl+Alt+RUA, na qual também falou sobre sua trajetória, sua respectiva projeção e, é claro, a passagem pelo falado Festival Trama.

“Rosa” (2017). Mural para o Festival Trama, em Buenos Aires. (Crédito: danieleime.com )

Elaborado através de uma parceria entre a Universidade Nacional (UNTREF) e a câmara local, o Festival Trama iniciou suas atividades de maneira discreta no final do ano passado e, aos poucos, posicionou-se como um evento de grande destaque. Isso porque, talvez como o seu principal diferencial, o festival foi dividido em quatro etapas, sendo que a primeira delas contou “apenas” com os artistas David Petroni (ARG) e NasePOP (HOL). Na sequência, em fevereiro de 2017, vieram Francisco Bosoletti (ARG), 2 Alas (do americano Andrew Antonaccio e do cubano Filio Galvez), Diego ROA (ARG) e Elian Chali (ARG). Ao lado de ninguém menos que Rone (AUS), Zest (FRA) e Sam ElGreco (ARG), o português Daniel Eime marcou presença na terceira etapa, iniciada em meados de Março e em um momento em que todos já estavam de olhos atentos à capital argentina. Isso porque, em paralelo a passagem de Eime pelo Trama, que encerrou sua primeira edição com Diatomea (ARG), TEC (BRA), Colectivo Licuado (URU) e Zesar Bahamonte (ESP), um outro festival também agitava as ruas de Buenos Aires: o Color BA, realizado nos arredores de Caminito, no bairro de La Boca, e que contou com inúmeros artistas de peso, como Case MacLaim, Ben Eine, Lucas Parbo, Paola Delfín, Maser, Elliot Tupac, Franco Fasoli (Jaz), Nicolas “Ever” Romero (Eversiempre) e Mariela Ajras, entre outros. Ou seja, ao menos em relação à arte urbana, não havia melhor momento para uma visita à capital argentina.

“Nunca havia estado na Argentina, mas também pouco conheci de Buenos Aires. A intervenção foi realizada numa zona periférica e perdia-se muito tempo em deslocações diárias. No entanto, é uma cidade enorme, com muita atividade e com grandes artistas. O que mais me apercebi é que existe uma forte aposta no lado do colorido abstrato. Pode ser uma tendência, mas as cores vivas e vibrantes já sabia que ia apanhar. Isso parece algo característico da América do sul”, apontou Eime, ao detalhar que, ao elaborar seus reconhecidos murais, sempre procura “um rosto ou um elemento que ligue bem com o local, com o país ou, simplesmente, com a parede”. “Dou importância a estes pequenos detalhes porque gosto que os habitantes se identifiquem e que adotem a pintura como algo deles, o que acaba por acontecer no momento em que termino e vou embora. Mas, no caso da intervenção em Buenos Aires, o país sempre me levou à figura feminina, a algo sedutor e cheio de movimento. A pintura tentou, de forma estilizada, representar um pouco disso tudo com um rosto que encaixasse bem no formato da parede, num olhar forte e cativante, envolvido pelo movimento das linhas como se tratasse de uma dança. A cor e o título (‘ROSA’) também trazem vários significados, uns mais notórios e outros mais pessoais”, completou o artista, que, geralmente, opta por representar retratos anónimos – “a minha intenção é e sempre será pintar as e para as pessoas comuns”.

Apesar de explorar a geometria e a linguagem gráfica em suas composições – numa tentativa de fundir dois universos diferentes, como o figurativo dos retratos desconstruidos e o abstrato -, Eime nunca estudou design e, ao contrário do que muitos pensam, possui formação em cenografia, como faz questão de ressaltar: “Eu nunca trabalhei num escritório, muito menos de design porque não é essa a minha formação. Na realidade, eu tirei o curso superior de Design de Cenografia, mas de design é só o nome e porque assim a regra exige. Eu sou cenógrafo, trabalhei em teatro e cinema por alguns anos, durante e após concluir o curso, e foi por não me sentir completo nesta área, principalmente financeiramente, que optei por arriscar tudo na arte urbana, que era algo que já fazia desde os 15/16 anos”, explicou o artista, que, por sinal, também destaca-se com trabalhos especifico para galerias. No entanto, segundo Eime, é na rua onde ele se sente mais confortável: “Desde sempre que faço telas e trabalhos portáteis, mas não é algo que me cative muito. No meu trabalho na rua, procuro sempre tirar partido de referências do espaço ou da própria parede. Se, por exemplo, quero dividir uma composição, procuro uma varanda, uma janela ou uma forma da parede que sirva de referência. Sinto muito mais liberdade criativa a pintar na rua do que em telas, que não possui muitos pontos de partida. Numa tela branca há toda a liberdade, mas isso deixa-me mais bloqueado”, relatou o artista, que, pela (feliz) afluência de trabalho, nem sempre consegue parar para experimentar outros elementos ou materiais. “Neste ano talvez haja algum espaço para isso”, rebateu.

O fato é que a partir de 2011, quando passou a se dedicar exclusivamente à arte, Eime não parou mais e, atualmente, aparece como uma verdadeira referência dentro da chamada arte urbana – vide sua participação no Trama. Foram inúmeras viagens e países visitados, assim como exposições colectivas e individuais realizadas, e uma dimensão que até o próprio artista não estava à espera. “Honestamente, não contava com o impacto que tenho tido, mas também se deve ao facto de ter entrado numa fase de bastante crescimento da arte urbana em todo o mundo. A parte comercial tem impacto porque normalmente acaba por ser onde posso ser melhor remunerado, mas não é a que me motiva mais – pelo contrário. Os festivais e eventos onde podes dar tudo são sem dúvida onde mais me divirto e aprendo”, revelou o menino prodígio de Caldas da Rainha, ao ressaltar que não se diz muito preocupado com esta questão. “Não me preocupo muito com o facto de isto tudo ser uma moda, que acabará por passar, e simplesmente vou trabalhando e aproveitando as oportunidades que me aparecem. Sempre na perspectiva de evoluir e dar novos passos, que me poderão levar a outros caminhos”. Neste aspecto, no da evolução, Eime reconhece o amadurecimento de seu trabalho e diz olhar muitas vezes para trás para ter noção dos passos dados. Segundo ele, isso é fundamental para resgatar algum elemento que tenha passado despercebido e que, numa nova abordagem, podem servir como chave para novas ideias no futuro. Embora tenha planeado um ano de menor atividade, a caminhada não para e, com certeza, novos passos virão. “Há alguns projectos já fechados e outros a serem afinados”, garantiu o artista, que, por outro lado, preferiu não adiantar mais detalhes sobre os mesmos. Agora, só nos resta aguardar as novidades…  De olho nele!

Mais informações: danieleime.com

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