Miss Me: ativista, feminista e vandal

Em meio a uma rápida passagem por Lisboa, a artista “fora-da-lei” fala sobre sua ação nas ruas e a militância como personagem mascarada. The artful vandal em LX!
Miss Me por trás da série “Portrait of a Vandal” (crédito: divulgação/ www,miss-me-art.com)

Numa clássica travessia pelo peculiar universo de Alfama, o mais antigo e turístico bairro da capital portuguesa, uma colagem estampada na parede acabou por roubar a cena do movimentado entorno: era uma mulher de silhueta realista, de rosto encoberto por uma toca ninja com orelhas do mickey e de seios à mostra – dois tubarões de boca aberta e prontos para atacar. A obra em questão, uma espécie de protesto devido ao seu forte teor, também trazia uma assinatura – Miss Me, a “ativista, feminista e uma das mais reconhecidas artistas fora-da-lei da América do Norte”, como destaca a biografia desta artista mascarada. Na verdade, o paste-up aqui descrito pertence a reconhecida série “Portraits of a Vandal” e talvez seja aquele que melhor simboliza o trabalho de Miss Me, a considerar que o mesmo traz a imagem da própria artista e, deste certa forma, legitima o personagem criado por ela para gritar ao mundo através da arte. “Nascer com o corpo de uma mulher é suportar o fardo não solicitado das atitudes não resolvidas da humanidade em relação ao sexo. Ela aprende a se adaptar a um sistema patriarcal que culpa as mulheres pela má conduta dos homens. Ela ensinou a se envergonhar de sua sexualidade e a pedir desculpas pelo poder de seu corpo. Este é o retrato de um soldado sem apologia, o retrato de um vândalo”, diz o texto desta emblemática série. Entre as levas de bifes (gringos), os tuk-tuks, os dealers de fakedrugs e as senhoras na varanda, a caminhada segue becos abaixo e, por sorte, novas colagens são encontradas, a confirmar a passagem da reconhecida artista pela capital portuguesa (no final de Abril) e, inclusive, a pluralidade de seu discurso. No entanto, quem seria a pessoa por trás desta mascara e o que teria a nos dizer?


“Eu nasci na Suíça, estudei design gráfico no Canadá e, realmente, nada mais da minha vida pessoal importa… Eu sou um ser humano, venho de múltiplas culturas e, por isso, prefiro não me associar a apenas uma”, afirmou a artista em entrevista exclusiva ao Ctrl+Alt+RUA, ao deixar claro que, neste caso, o foco não seria a pessoa por trás da máscara e sim sua ação nas ruas – segundo ela, iniciada sem qualquer pretensão. “Eu comecei em Janeiro de 2012, como um grito de liberdade e ‘foda-se’ o resto. Eu costumava a trabalhar em publicidade e sentia uma grande necessidade de poder me expressar, mas sem qualquer pretensão ou plano”, explicou Miss Me, intitulada como a “Montreal´s Premier Art Vandal” pela Vice. “A principal função da arte para mim é a expressão de um sentimento cru e profundo; a intenção de mover algo em mim e, potencialmente, nos outros. Uma maneira de expressar algo que eu não consigo encontrar outra ou melhor maneira”, completou. Apesar do grande desafio em conciliar e manter esta dupla identidade – a de mãe e artista vandal, por exemplo -, Miss Me estava decidida a dar sequência a suas intervenções e, com o tempo, também passou a ampliar seu discurso com diferentes projectos e séries, como a “Hands of Genius” e a “Music Saints”, que também foram vistas pelas ruas de Alfama. A primeira, um “close” de mãos em comunhão e fixada em frente a uma casa de fado, traz uma mensagem de solidariedade, enquanto a segunda reverencia seus ídolos musicais, como “King of Love”, uma homenagem a Marvin Gaye, e “Eliezer”, um expressivo e desconcertante retrato de Leonard Cohen. Ou seja, a partir da criação deste personagem mascarado, a artista se libertou, encontrou-se consigo mesma e, desta forma, sentia-se mais confortável para abordar sobre o que bem entendesse. “Você sempre pode esperar que meu trabalho seja o reflexo de um pensamento, de uma crença, de uma posição ou até mesmo de uma opinião; e olha que eu tenho muitas”, ironizou.

Mesmo com toda a notoriedade alcançada através de seu personagem e a respectiva amplitude de seus discursos, algo que nunca fez parte de seus planos iniciais, Miss Me segue com os pés no chão e diz não ter nenhuma pretensão para se assumir como super-heroína ou rockstar  – “definitivamente, estou longe de qualquer uma destas palavras”. No entanto, questionada sobre a vertente comercial de sua obra, ao fato de ter algumas peças à venda e ao inevitável assédio das grandes marcas, a artista mostrou-se mais cautelosa: “Isso é sempre difícil, como uma armadilha. Eu tenho medo desse jogo e sempre costumo desconfiar de tudo, a considerar que todas essas coisas são o oposto do que eu me importo e realmente acredito. Mas, eu também penso que possam existir algumas exceções e, por isso, comecei a colocar apenas algumas peças à venda”, declarou a artista, ao exaltar que tal decisão também não foi alcançada de maneira tão fácil: “A ideia das pessoas quererem comprar o meu trabalho chegou a me incomodar muito anteriormente. Me recusava e até fiquei sem produzir nenhuma peça durante um tempo por conta disto. Mas, sob minhas próprias circunstâncias, consegui encontrar um equilíbrio e, hoje, sigo em paz com isso”, revelou Miss Me em meio à viagem entre Europa e Oriente Médio. Apesar da rápida passagem pelas ruas da capital, no que marcou sua primeira visita a Portugal, a artista parece ter levado uma boa recordação do país: “Amei o povo português e também fiquei encantada com Lisboa… É tudo muito lindo”, descreveu Miss Me, que, na sequência, marcou presença nas ruas de Londres, de Tel-Aviv e também na “crazy” Dubai. Agora, de volta ao Canadá, onde já realizou uma ação na Women Inspiring Passion and Purpose (Wipp), em Toronto, a artista prepara o lançamento de um vídeo elaborado em parceria a National Film Board e segue-se o jogo, a caminhada e, é claro, suas lutas. Avante, Miss Me! 


Mais informações: http://www.miss-me-art.com/        

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

w

Conectando a %s