Wool Festival: de volta à Covilhã

Em sua quarta edição, o reconhecido festival de arte urbana retoma seu circuito na “Cidade Neve” com Halfstudio, Third, Doa Oa (ESP), Bosoletti (ARG) e muito mais.
Instalação em neon realizada pelo duo Halfstudio (Crédito: Pedro Seixo Rodrigues)

As obras de Vhils (Alexandre Farto), Arm Collective (de Miguel RAM e Gonçalo MAR), AddFuel (Diogo Machado), Mr. Dheo, do brasileiro Nilo Zack e dos espanhóis Kram, Animalito Land e Andrea “Btoy”; a passagem do francês JR, do belga Gijs Vanhee, da polonesa Nespoon e das argentinas Medianeras Murales (de Vanessa Galdeano e Anali Chanquia); as intervenções de Mário Belém, MaisMenos (Miguel Januário), Adres e o famoso (Olhos de) Mocho de Bordalo II, assim como os emblemáticos murais de Tamara Alves, Samina, Pantônio e Regg Salgado, entre outros. Não se sabe bem ao certo a razão, se é o clima peculiar da Serra da Estrela, a conotação histórica da indústria da lã, o cotidiano tranquilo da vila universitária, o estonteante cenário de belezas naturais ou a somatória de todos estes fatores, mas a pacata Covilhã – a “Cidade Neve”, como diz o fado da Amália – mostra-se efervescente no que diz respeito à arte urbana, enquanto os trabalhos lá realizados parecem ganhar um toque especial, como se fossem predestinados a serem notáveis tanto para os artistas como para o considerável circuito ali criado. Por trás de todas essas ações e também de um amplo projecto de valorização turístico-patrimonial aparece a assinatura do reconhecido Festival Wool, que, após ter ficado de fora do orçamento municipal no último ano, regressou ao centro histórico de sua cidade de origem para realizar mais uma grande jornada, literalmente. Isso porque, além da presença dos artistas Halfstudio, Third, Doa Oa (ESP) e de Bosoletti (ARG), a quarta edição do Wool – Covilhã Urban Art ainda contou com um inédito workshop do Lata 65, exposições (Wool Pieces e Wool Meets Roubaix), sessões de conversas com os artistas, exibição de filme (“Sky´s the Limit”, de Jerome Thomas), concerto do Noiserv (no New Hand Lab), visitas guiadas e o longo registro “Covilhã Manchester”, do realizador André C. Santos (no final da matéria). O fato é que, se já haviam motivos o bastante, visitar a Covilhã agora tornou-se mesmo obrigatório. Boa visita à Cidade Neve e arte urbana… Wool!

“Essa preocupação com as características do local e seu patrimônio sempre existiu e faz parte do conceito do festival. Não é só chegar, pintar as paredes e ir embora. Como organizadores e curadores, sempre procuramos escolher e orientar os artistas neste sentido, de criar algo próprio para a região e, em especial, ao local escolhido. Também fazemos questão de explicar a história, de fazer um tour com os convidados, em aproximá-los dos habitantes e, por isso, nota-se este envolvimento mais direto com a cidade e seus costumes”, explicou a “mistaker maker” Lara Seixo Rodrigues, que organiza o festival ao lado do irmão Pedro Seixo Rodrigues e de Elisabet Carceller. “Existe um outro fator que também acaba por diferenciar que é a própria cidade. É um lugar realmente especial e com um enorme potencial turístico, algo que, inclusive, poderia ser melhor explorado. Tudo ao redor do centro histórico é muito bonito e, por isso, os trabalhos costumam se destacar. Pode ser um cantinho qualquer que certamente resultará numa ótima imagem e, por consequência, rodará o mundo. Sou suspeita a falar, mas, definitivamente, trata-se de um local incrível”, emendou a produtora e ilustre cidadã covilhanense em entrevista ao Ctrl+Alt+RUA, realizada às vésperas deste aguardado retorno. Integrante da comunidade de festivais EFFE (Associação Europeia de Festivais – EFA), que agrupa eventos artísticos com impacto em nível local, nacional e internacional, o Wool Covilhã Urban Art realizou sua primeira edição ainda em 2011 e, desde então, não parou mais, espalhando-se pelo município, pelo país e até mesmo pela Europa com inúmeras variações e projectos específicos – Action Group, Tour Paris 13, Fusion Experiencie, Cale, Fusing, On Recidence, Extra e On Tour, que realizou nove edições somente na LX Factory, em Lisboa. No entanto, mesmo com toda esta bagagem acumulada, essa foi a quarta vez que o festival foi realizado em sua cidade de origem (2011, 2014, 2015 e 2017) e, por isso, a expectativa era grande.

“O Wool nasceu e é da Covilhã, um festival desenvolvido justamente para reforçar o potencial da região, destacar seu aspecto turístico e seu patrimônio histórico. É a nossa terra, e o festival se difere justamente por potencializar o que já existe por lá. Tivemos três edições até agora, mas sempre que possível criamos formas de complementar nosso circuito, como ocorreu agora recentemente com o Regg. (uma ação desenvolvida no âmbito do Encontro Nacional dos Estudantes de Design/ ENED 2017). Através desta parceria, tivemos a chance de concretizar mais uma incrível obra na região”, declarou Lara, ao exaltar que nem sempre é possível dar continuidade a um festival de arte urbana de grande porte sem apoio por parte do município, que, a considerar o impacto causado na cidade, supostamente seria o mais interessado em manter sua realização. “No último ano, como ficamos de fora do orçamento e não teríamos nenhum apoio por parte da câmara, optamos por não realizar. É difícil imaginar essas situações (a escolha de outro projecto), mas ficou a lição. É o jogo e, no geral, esta relação é bem complicada. Mas, agora, temos a oportunidade de não só retomar o nosso circuito com novas peças como também reapresentar tudo o que já foi feito”, apontou a organizadora. Se no que diz respeito à programação este regresso mostrou-se impecável, com destaque para as exposições e o workshop aberto com o Lata 65 (indicado aos jovens acima dos 65 anos), em relação aos artistas convidados não teria como ser diferente. Ao olhar as quatro atrações anunciadas, duas nacionais e duas de fora, nota-se certo equilíbrio e também o fato de cada artista representar um estilo e uma estética diferente: a homenagem na escrita afiada de Mariana Branco e Emanuel Barreira, dos Halfstudio; o graffiti da máquina Third, um dos nomes por trás do Colectivo Rua; os florais e vegetações da espanhola Doa Oa, que acabou por retratar uma espécie local, e Francisco Bosoletti, que, neste momento, mostra-se incatalogável, como um capítulo à parte.

Bosoletti (ARG)
“Arrebatamento” (2017). Mural do artista argentino Bosoletti (Crédito: Pedro Seixo Rodrigues)

Terceira vez, terceira fase

Um dos nomes em maior evidência dentro da chamada arte urbana na atualidade, com presença garantida em importantes festivais pelo mundo – Trama (ARG), The Crystal Ship (BEL), CVTA StreetFest (ITA) e Polinizados – Universidade Politécnica de Valência (ESP), entre outros somente neste ano -, o artista argentino regressou a Portugal para completar um grande feito: a realização de sua terceira obra em grande escala e, o mais curioso, cada uma delas a representar uma fase distinta – algo que, de acordo com a organizadora, mostra-se como um grande privilégio. “O Francisco é um artista especial, tem uma história de vida bastante interessante e é um privilégio poder acompanhar de perto a evolução de seu trabalho. É muito bom quando um artista tem esta capacidade de surpreender e de sempre trazer algo novo”, afirmou Lara, que já havia trabalhado com Bosoletti em outras duas ocasiões: em 2015, no Muraliza Cascais, onde ele retratou uma de suas famosas musas florais, e no ano seguinte, quando o artista marcou presença na primeira edição do ESTAU, em Estarreja, e apresentou um trabalho simplesmente desconcertante – “Abandono”, uma obra totalmente diferente, mais profunda e menos figurativa. “Agora, eu estou muito curiosa para ver o que ele está a pintar neste momento e descobrir como ele faz aquilo. Sério. É algo realmente impressionante e que eu não tenho a menor ideia de como se faz”, enfatizou Lara, ao falar sobre a nova e impactante série de pinturas de Bosoletti, na qual, como num passe de mágica, as obras mostram-se mais exatas ao serem visualizadas em imagens negativas – um trabalho realmente precioso e que, sem sombra de dúvida, reforçou ainda mais os atrativos do festival e da cidade – um “Arrebatamento”, como diz o título da obra.

Abaixo, confira o longo registro “Covilhã Manchester”, de André C. Santos, com todos os detalhes desta última edição do Wool – Urban Art Festival. https://vimeo.com/222974180

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