Broken Fingaz: na ginga da crew

Com uma obra sem rótulos e limites, o coletivo israelense fala sobre seus trabalhos nas ruas e, em especial, a presença na mostra “Samba de Roda”. Dedos quebrados!
“Samba de Roda” (2017). Obra de Tant destacada no pôster da exposição homônima. (bronkenfingaz.com)

Imaginem um grupo de capoeira completar dez anos de atividade em Haifa, no norte de Israel. Agora, imaginem que, para celebrar tal resistência e também manter vivas as tradições da cultura afrodescendente, esse mesmo grupo – o Semente do Jogo de Angola, do mestre baiano Jogo de Dentro – abrisse espaço para uma exposição de arte coletiva e a mesma, entre outros artistas da cena local, contasse com o envolvimento e a participação da reconhecida Broken Fingaz Crew. É assim que começa esta curiosa história; a partir da necessidade de exaltar as raízes, o multiculturalismo e, em especial, o expressivo trabalho deste curioso coletivo multidisciplinar israelense. Mas, antes de tudo, é preciso saber como é que um grupo de grafiteiros dos arredores da montanha de Carmel foram parar na “Samba de Roda”, título da mostra inaugurada em meados de abril. “Faço parte do grupo de capoeira de angola e estamos comemorando dez anos com nosso mestre. A capoeira, o samba de roda e o candomblé (título da exposição de 2016) foram desenvolvidos juntos no recôncavo por uma mistura de escravos africanos influenciados por pessoas e nativos do português. Eu tive a chance de visitar o Brasil algumas vezes e conhecer algumas dessas misteriosas tradições. Aqui, estamos tentando ajudar a manter vivas as tradições afro-brasileiras e, por isso, todos os anos organizamos uma exposição coletiva pesquisando parte dessas culturas”, explicou Tant, um dos integrantes da BFC e quem assinou a emblemática obra do pôster – uma rica imagem de um Brasil caboclo, a contar o festivo roçado repleto de Ialorixás (mães de terreiro) com coloridas saias rodadas, guias no pescoço e turbantes na cabeça. Aliás, em meio a todas as peculiaridades deste causo, talvez sejam estes os aspectos que mais tenham chamado atenção: a riqueza e a profundidade das obras apresentadas, que retratavam com total propriedade a essência do samba pé no chão. Em entrevista exclusiva ao Ctrl+Alt+Rua, talvez a primeira em português, Tant falou sobre a trajetória da crew, a atual formação e, de quebra (os dedos), ainda adiantou algumas novidades… Salve, Broken Fingaz… Axé!

“Eu (Tant) e Unga crescemos juntos em uma pequena comunidade ao pé da montanha Carmel, em Haifa, Israel. Nossos pais trabalharam juntos como arquitetos, artistas e designers sob o nome de ‘Grupo Tav’. Como desde crianças éramos cercados de pessoas criativas e interessantes, fazer arte era muito natural para nós. Assim, o Unga e Kip fundaram a crew durante o ensino médio e, naquela época, em 2001, realmente quase não havia gente fazendo graffiti em Israel. Buscamos inspiração em visitas curtas pela Europa, em algumas revistas e, desta forma, começamos a tentar desenvolver nosso estilo”, revelou Tant, ao exaltar que, atualmente, os Broken Fingaz se resumem aos trabalhos de Unga, Deso e Tant – a considerar que Kip anda meio desligado. No entanto, segundo o artista, naquele momento não havia qualquer pretensão dos amigos saírem de Israel para adentrarem no chamado “mundo da arte”: “Quando começamos a pintar nas ruas fazíamos por diversão e pelo convívio com nossos amigos. Somente mais tarde começamos a fazer alguns pôsteres, coisas para festas/shows, capas de álbuns e outras merdas. Também fizemos muito ‘temas’ por alguns anos, o que acabou por ser uma espécie de escola para nós”, apontou Tant. Com a experiência adquirida nas ruas e a maturidade alcançada como coletivo, a Brozen Fingaz firmou seu conceito, passou a explorar novas mídias e, em 2010, veio a primeira experiência artística fora do país – um convite para a Arte Pequim, seguida de uma viagem de dois meses pela república chinesa. “Essa foi a primeira vez que nós quatro saímos juntos de Israel e, acredito, que tenha sido o primeiro encontro com o ‘mundo da arte’. Desde então, costumamos a viajar sempre que podemos”, completou o artista, ao destacar as exposições realizadas no Museu de Arte de Haifa (2010) e no Museu de Tel Aviv (2011), as quais evidenciaram a importância do coletivo e suas contribuições para a formação da cultura contemporânea em Israel. A partir deste reconhecido local e nacional, o coletivo israelense não parou mais e marcou presença em diversas galerias internacionais, enquanto seus trabalhos espalhavam-se pelas ruas da França, Bélgica, Alemanha, Itália, Inglaterra, China (Hong Kong), Brasil, Holanda, Guatemala,  Camboja, Espanha, Áustria, Estados Unidos e Índia, entre outros países.

Com uma abordagem independente, a apreciação partilhada pela ilustração e mais de uma década de trabalho em conjunto, a Broken Fingaz tornou-se reconhecida por seu estilo único e também pela comunhão entre seus integrantes. Mas, mesmo sendo composta por amigos de infância, a crew não estaria livre dos dilemas e das dificuldades por trás de um trabalho construído em conjunto, a considerar que, como numa banda ou num casamento, nem sempre é fácil conciliar as individualidades e os objetivos em comum. No entanto, segundo Tant, o coletivo não costuma ter muitos problemas neste aspecto. “Posso dizer que é um relacionamento aberto e tudo está mudando o tempo todo. Cada um de nós temos espaços e projetos próprios, mas também compartilhamos um ateliê em Haifa. Algumas vezes trabalhamos juntos por alguns meses em uma exposição ou em algum trabalho de colaboração, mas outras vezes viajamos separadamente por alguns meses e depois nos encontramos de novo para um mural ou algo assim”, descreveu o artista, ao ressaltar que, em relação à estética e ao conceito da crew, “a variedade de influências é muito grande, do impressionismo e da art-nouveau à arte regional asiática e aos quadrinhos e gráficos de skate dos anos 80. Neste aspecto, a considerar a surpreendente participação na “Roda de Samba”, a BFC mostra-se mesmo incatalogável e sem limites; é o sexo, a morte, as coisas efêmeras diárias, a pornografia vintage e o neo-psicodelismo entre orixás, caveiras, florais, lutadores de sumo e animais tudo na mesma sequência. “Nós gostamos de mudar o estilo o tempo todo, sempre a fugir em busca de algo novo. Às vezes, ficamos cavando e se aprofundando em algo por um tempo, mas, depois, já passamos para outra coisa e passamos a coletar ferramentas que possamos usar mais tarde em um contexto diferente. Eu particularmente não gosto de me colocar em nenhuma categoria. Acredito que, se você fizer isso, você pode estar colocando um limite para o seu trabalho”, apontou Tant, ao reforçar que, além da pintura, o trabalho da crew também abrange esculturas, publicações, animação e instalação.

Questionado sobre o papel da arte diante de uma situação de conflito e de adversidade, da voz ativa e da influência que um artista pode assumir dentro de uma sociedade – principalmente com os trabalhos realizados nas ruas -, Tant mostrou-se mais cético, realista e não pronunciou nenhum discurso heróico: “Não sei se a arte pode realmente fazer uma revolução diante desta situação tão complicada em que vivemos, mas, com certeza, ela pode ter um papel determinante. Geralmente, optamos por não lidar muito com a política em nossos trabalhos e, ao adotar essa postura, acredito que nós também ajudamos a mostrar que aqui também podem existir pessoas normais, que não são apenas soldados e racistas loucos”, apontou o artista, ao tentar descrever o cenário artístico e as supostas mudanças visualizadas na cidade de Haifa, a maior cidade do norte do país e a terceira de Israel. “A situação segue do mesmo jeito. Considero Haifa uma pequena cidade de coexistência presa em algum lugar no final dos anos 80. Não há uma cena real aqui; o município ainda está abrindo as ruas, e nós seguimos fazendo as nossas merdas. No geral, há poucas pessoas fazendo coisas legais, mas eu citaria Gida (ONE) e BMJC – artistas que também marcaram presença na exposição citada. Em relação aos futuros planos da crew, Tant afirmou que a Bronken Fingaz realizará uma espécie de mini-turnê pelos Estados Unidos, com algumas paredes entre Seattle e Portland, e que também pretendem executar um “projeto legal” ainda neste ano na própria cidade de Haifa. De acordo com o artista, eles estão trabalhando numa peça chamada “Celebrando 50 anos de ocupação” (em livre tradução), que incluirá tanto os “melhores” momentos como os grandes “heróis” de nosso tempo. “Fiquem ligados”, finalizou o artista.

Abaixo, confira o vídeo “Poison Seeds”, uma animação “loop freestyle” realizada a partir de uma sessão de 18 horas de pintura na parede da Mima Museum, em Bruxelas (BEL):

Mais informações: brokenfingaz.com

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