Atomik em LX: de espremer a laranja

Em entrevista ao Ctrl+Alt+RUA, a lenda do graffiti de Miami fala sobre sua trajetória nas ruas, os planos futuros e, é claro, a passagem pela capital portuguesa.
Atomik em ação nas ruas de Lisboa (Crédito: Task57)

As tags seguem nas lixeiras, nas caixas de luz e nas estações; os stickers resistem nos postes, nas placas e nas montras; e as laranjas – o famoso personagem de sorriso largo e dentes quebrados – continuam espalhadas por toda a cidade, de caminhão baú no centro aos tapumes da autoestrada. O fato é que a passagem de Atomik pela capital portuguesa pode ter sido rápida, entre seis e sete noites, mas não foi a passeio e, mesmo um ano depois, os trabalhos da lenda do graffiti de Miami ainda chamam atenção pelas nas ruas de Lisboa. Tido como um dos mais reconhecidos grafiteiros da cena de Miami, o artista falou com o Ctrl+Alt+RUA sobre sua trajetória de mais de 20 anos nas ruas, seu ilustre personagem e, é claro, os detalhes desta memorável viagem de aventura, realizada na companhia de ninguém menos que Fever 3000 e Sauteezy, o “Killer´s Killer”, perito nas intervenções em outdoors publicitários. “Fiz uma viagem pela Europa em 2015, entre quatro ou cinco cidades, e estava esperando conseguir um vôo gratuito de volta aos EUA com um amigo que trabalha como comissário de bordo. No entanto, o vôo gratuito não deu certo e eu tive que comprar uma passagem de última hora. O bilhete que comprei parava em Lisboa por uma noite e saia apenas na manhã seguinte. Então, acabei por ficar num hotel muito próximo ao Bairro Alto. Saí do hotel para jantar e avistei um grupo de pessoas andando; me juntei a eles e nós bebemos cerveja a noite toda. Nos divertimos muito. Lembro-me que, naquela noite, eu estava fazendo uma tag em uma lata de lixo e alguém me deu um chute muito forte no rabo…  Eu me virei pronto para gritar e, ao olhar, pude ver que era um policial. Ele pegou meu marcador, escreveu no meu rosto e disse para eu sumir do local. Eu quase perdi meu vôo para casa na manhã seguinte”, revelou Atomik. No entanto, a bófia não poderia prever que ele regressaria à cidade pouco tempo depois e, desta vez, na companhia de um time pesado: “Como a passagem que comprei era de ida e volta, eu tinha que regressar em até nove meses. Eu amo absolutamente a cidade de Lisboa; as pessoas são amigáveis, a comida é deliciosa e a cultura é rica. Saute e Fever juntaram-se a mim nesta minha viagem de regresso, a considerar que já tínhamos viajado juntos para Hong Kong e Tóquio. Eles também ficaram algumas semanas a mais do que eu, que tive que voltar para Miami por causa de uma exposição. Mas, soube que eles mataram a Europa depois que eu voltei”, brincou o artista ao falar da passagem dos amigos pelo velho continente – estouro!

 

Apesar de ter começado a pintar ativamente nas ruas ainda em 1996 e de fazer parte de diversas famílias de prestigio – 28K, TSC, B5E, SHC e K2S -, Atomik não faz questão de sustentar o rótulo de pioneiro e diz pertencer a segunda ou terceira geração da lendária crew Miami Style Graffiti (MSG), a reconhecer que a cena local já era muito desenvolvida na época em que começou. “Minhas principais referências eram as pessoas que pintavam no meu bairro, em torno da minha escola. Quando eu comecei a grafitar, a cena em Miami já era relativamente evoluída, com pessoas que pintavam há dez ou 15 anos”, apontou Atomik antes de explicar a origem de seu ilustre personagem – a original laranja da Flórida: “Em 1996, eu já estava usando a assinatura Atomik/Atomick e fazia muitas letras. Comecei como Atom em 1995, mas acabei por mudar logo a seguir, enquanto meu personagem só veio muito tempo depois, inspirado no famoso Obie, do Miami Orange Bowl. Ele era o mascote do estádio de futebol do bairro de Little Havana. Em 2008, após mais de 70 anos de história, a cidade de Miami demoliu o Orange Bowl e, como eu não concordei este fato, passei a demonstrar isso com minhas ações nas ruas”, declarou o artista, que, mesmo depois de tanto tempo na ativa, ainda parece guardar o mesmo entusiasmo de adolescente. Era difícil de acreditar que um grafiteiro, com mais de 20 anos de rua e com trabalhos espalhados por todos os cantos do mundo, se desse ao trabalho de ficar fazendo tags com marcadores por todos os lugares possíveis, mas foi exatamente isso o que pôde ser visto em Lisboa, onde espalhou trabalhos por toda cidade e, em apenas uma semana, justificou o rótulo de “lenda” – ele espremeu a laranja, literalmente. “Eu realmente gosto de fazer graffiti e mesmo hoje, depois de mais de 20 anos, isso ainda é divertido para mim. Aliás, estou até com um novo fascínio pelo meu personagem. Eu pintei meu nome por 15 anos antes de começar a fazer meu personagem 100% e, agora, planejo pintar meu personagem por mais 15 anos. Já foram sete anos de laranja… Estou em busca de me divertir e acredito que esse seja o fator mais importante da vida”, apontou Atomik, que, por outro lado, também diz ter sofrido com as ladeiras de Lisboa : “É muito difícil andar pelas colinas da cidade. Na Florida, de onde eu venho, tudo é plano. Mas, no geral, a cena de graffiti e street art é muito ativa na cidade e eu gosto muito disso, de ver que as pessoas estão pintando as paredes e praticando com uma grande regularidade”.

 

Questionado sobre as transformações vivenciadas no graffiti e nas principais dificuldades enfrentadas para quem vive de sua arte – o velho problema de sempre -, Atomik minimizou as diferenças e disse que, de certa forma, o cenário segue o mesmo: “Tudo o que foi feito nos anos 70, 80 e 90 é o que foi feito nos 2000 e o que está sendo feito atualmente. Muitas das técnicas e dos métodos do movimento do graffiti do metrô são aplicadas na arte de rua até os dias de hoje. Mas é claro que, hoje em dia, por conta da internet e das ferramentas de divulgação, é muito mais fácil você se tornar um artista de rua e divulgar seu trabalho. No entanto, acredito que a maioria das pessoas que fazem graffiti continua sendo subestimada no mundo da arte e na sociedade em geral”, declarou o artista, ao ressaltar que só viu a possibilidade de ganhar dinheiro com sua arte depois de muito tempo de estrada. “Eu percebi que poderia levar o graffiti como um trabalho e que poderia me aprofundar somente em 2012, quando eu fiz uma primeira série em telas – nove pinturas da laranja – e todas elas foram vendidas em pouco tempo”. Mas, segundo Atomik, essa relação também não é assim tão simples: “É extremamente difícil você colocar um preço naquilo que ama e vejo muitos artistas lutando com essa transição. No meu caso, o relacionamento entre a arte de rua e a de estúdio me parece ser bem coesa. Quanto mais eu pinto na rua, mais encomendas e trabalhos comissionados eu recebo. O que vejo de errado e ocorre muito é o fato das grandes marcas usarem as obras de arte das ruas sem nenhum tipo de permissão por parte de seus autores. É importante compensar um artista por seu tempo de trabalho e por sua criação”, apontou o artista, que diz já ter sido detido e preso inúmeras vezes por conta de seu trabalho nas ruas, inclusive por posse de spray sem nem estar em atividade. “Mas – com exceção do chute no rabo e dos riscos na cara nas ruas de Lisboa – nunca cheguei a ser espancado”, completou. Depois de um ano da passagem pelas terras portuguesas, Atomik segue firme sua caminhada e diz se sentir ansioso com a chegada do maior projeto já realizado. “Meu maior projeto será lançado no próximo dia 24 de julho. Minha esposa (Emmy) dará à luz ao nosso primeiro filho, um menino. Estou muito entusiasmado com este capítulo da minha vida”, declarou o artista, que também fez questão de adiantar algumas outras novidades: “Como estarei mais tempo em casa, haverá mais trabalho em tela nos próximos meses e também tenho um toy da laranja que será lançado em breve – vale ficar ligado. Agora, para o próximo ano, eu também gostaria de pintar mais murais em grande escala. É isso, vamos ver”, finalizou a lenda de Miami. Respect, papito!

 

Mais informações sobre o artista no site oficial

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