Cadumen: no outro lado do oceano

De volta a São Paulo “Cidade Linda”, o artista brasileiro recorda a primeira turnê pela Europa e exalta o grande respeito à arte urbana visto em terras estrangeiras.
Cadumen durante mural em Portugal (Crédito: Vicente Coda)

Em um momento em que a prefeitura da cidade de São Paulo declara guerra aos pichadores e acirra ainda mais as relações com a cena da “arte urbana” através de uma midiática política de revitalização – o programa Cidade Linda, articulado pelo ex-apresentador e atual prefeito João Dória, que, em resumo, incentiva a repressão (violência), marginaliza os trabalhos não autorizados e estipula multas de até 5 mil reais a quem for pego pintando nas ruas -, o artista Cadu Mendonça deixava a paulicéia, onde chegará ainda aos cinco anos com toda a família vindo do interior do Paraná, para concretizar um antigo sonho : a primeira turnê pela Europa, que, entre Portugal e França, contou com a realização de murais em Lisboa (Calçada da Glória  – GAU), Loures (Loures Arte Pública) e Bordeaux (Le M.U.R), além de uma curiosa residência artística em Fafe (Café Cultural). “Foi uma experiência muito incrível, de verdade. Me senti super bem recebido em todos os lugares por onde passei e, realmente, esse reconhecimento para com o artista brasileiro me impressionou bastante. Eu aqui de São Paulo, onde a gente tem que correr para não tomar tapa na cara de polícia, não poderia imaginar isso lá fora, de ter todo o tipo de suporte e de ser apresentado e reconhecido como artista brasileiro. Fui jantar até com os prefeitos, todos eles, uma coisa inimaginável. Fiquei muito contente e até cheguei a mencionar isso em um texto; o meu agradecimento aos artistas que foram antes de mim e que, de certa forma, acabaram por abrir esta porta para nossa arte lá fora. Eu senti um grande respeito à arte e ao graffiti brasileiro de modo geral”, destacou Cadu, também conhecido como Cadumen. Em entrevista ao Ctrl+Alt+RUA, o artista urbano e ilustrador relatou os detalhes desta esperada travessia e também falou um pouco mais sobre sua trajetória, a contar o tardio começo nas ruas. Tá jovem!

Imagem final do trabalho de Cadumen em Loures (Crédito: Marina Aguiar)

Com um “trabalho de personalidade”, reconhecido facilmente mesmo sem assinatura, e um conceito estético marcado por contrastes, seja entre o figurativo dos retratos e o abstrato dos padrões, o das cores vivas com o preto e branco ou o da natureza animal com os prédios da cidade, Cadumen desembarcou em Lisboa a fim de fazer render sua estadia e, sem tempo a perder, foi dar início aos trabalhos em Loures, onde pôde presenciar e ver com os próprios olhos todo o impacto que um projeto artístico da câmara local tem gerado neste concelho, situado na região metropolitana da capital. A passagem de Cadu, por exemplo, antecederia o início da segunda edição do Loures Arte Pública, que, somente neste ano, recebeu mais de 90 artistas nacionais e internacionais para intervir nas ruas da cidade. Neste caso, a considerar a pluralidade do festival, aberto a artistas de todos os níveis, seja do graffiti ou da arte urbana, o modelo poderia servir de exemplo como alternativa ao predominante cinza de São Paulo. “Eu já tinha ouvido falar do evento e, quando dec idi realizar a viagem, entrei em contato para propor a realização de um mural. Desde então, sempre fui respondido com total atenção por parte deles. Estive lá um pouco antes do início do festival e pude acompanhar a chegada de muitos artistas vindos da França e da Alemanha. Posso dizer que foram impecáveis comigo, me receberam muito bem e, no geral, oferecem uma ótima estrutura aos artistas, com alojamento, refeições e materiais”, apontou Cadu, que, por sua vez, deixou uma bela iguana de recordação aos moradores. Para quem estava a ensaiar tal travessia há alguns anos, a espera começava a ser recompensada e, o melhor, este era apenas o início.

“Rainha das Sardinhas” (2017). Trabalho de Cadu na Calçada da Glória (Crédito: Marina Aguiar)

Na sequência, sem tempo a perder, Cadumen diz ter regressado a Lisboa para realizar uma pintura nos famosos painéis da Calçada da Glória, uma ação coordenada pela Galeria de Arte Urbana (GAU), outro modelo de gestão de arte pública ligado à câmara municipal que também poderia ser levado em conta na propaganda de Dória – seria como o ainda enigmático “Museu a Céu Aberto”, mas com quase dez anos de atividade. Não é à toa que Lisboa atualmente apareça como uma das principais capitais europeias de arte urbana e, ao tentar esboçar uma comparação neste sentido, fica difícil de imaginar como uma cidade como São Paulo, berço da famigerada pichação, ainda não tenha um programa fixo de arte pública e, o pior, não reconheça nem mesmo os artistas que circulam em suas ruas. Embora fosse relativamente modesta, de acordo com Cadumen, a pintura citada foi uma das que mais o impressiou, principalmente no quesito calor humano. “O painel ficava numa área central (entre o Bairro Alto e o Príncipe Real) e repleta de turistas de todos os lugares do mundo. As pessoas saiam de elétrico (bonde) e pareciam entrar dentro da minha pintura. Uma coisa de louco. Quando olhei, já havia dezenas de pessoas acompanhando o desenvolvimento da obra, todos interessados e dispostos a trocar uma palavra, uma aprovação. Aliás, essa foi a primeira vez que eu recebi dinheiro na rua. Sério, mesmo. Um homem chegou lá com a nota na mão e me deu 20 euros, disse que eu merecia porque o trabalho estava muito bom. Não foi nem pelo dinheiro, claro, mas esse retorno, essa troca direta, me deixou super contente e eu saí de lá totalmente realizado”, declarou o artista, que, desta vez, apresentou um retrato da “Rainha das Sardinhas”.  A obra pode não ter durado muito tempo no movimentado painel, mas, certamente, Cadumen não esquecerá tão cedo desta experiência, como ele mesmo fez questão de ressaltar ao longo da conversa.

Mural de Cadumen dentro do Le M.U.R. Bordeaux (Crédito: Isabelle Pascual)

Desta forma, animado com os dois murais realizados em Loures e Lisboa, Cadumen deu continuidade a sua viagem e, agora, o destino era a cidade francesa de Bordeaux, onde realizaria um mural dentro da filial do reconhecido projeto Le M.U.R., que ocorre originalmente em Paris, e também aproveitaria alguns dias para circular e conhecer o país. “Fui convidado há alguns anos, mas, por conta das passagens, sempre acabava por não acontecer. Fiquei lá por uma semana e, além da pintura, também tive um tempo para conhecer um pouco mais a cidade. Vale citar também a recepção de Pierre Lacaroz (Pôle Magnetic, organizador do projeto) e da prefeitura, que foram incríveis comigo e proporcionaram todo o suporte para o trabalho. Gostei bastante do resultado e deu para aproveitar legal a viagem”, declarou o artista, que, na sequência, regressaria a Portugal para uma residência artística no Café Cultural, em Fafe, no norte do país. Ao convite do produtor e artista plástico brasileiro Vicente Coda, curador e um dos principais responsáveis pelo projeto, o artista passou 15 dias na cidade do interior e teve oportunidade de vivenciar uma experiência diferenciada, a considerar que a residência era multidisciplinar e, ao lado dele, havia mais dois músicos brasileiros, Alisson Couto e Saulo Ferreira. Aliás, o projeto de residências artísticas do Café Cultural, iniciado em janeiro deste ano, com direito a um show do rapper nordestino RAPadura, tem se destacado ao abrir as portas para muitos artistas brasileiros, como Katia Suzue, que realizou um grande mural na cidade poucos dias antes da chegada de Cadu. “Eu achei esse envolvimento com os músicos muito interessante. Tive contato com algumas coisas da cultura nordestina que, particularmente, também me agrada bastante e foi muito enriquecedor. Estive duas semanas por lá e tive tempo de realizar três grandes painéis no Parque da Cidade. A prefeitura da cidade também abraçou legal o projeto e foi uma ótima experiência de convívio com os moradores e as crianças”, revelou Cadumem, que, neste caso, apresentou uma composição de três pinturas. Isso porque, apesar de estarem separadas, as obras elaboradas integram uma única imagem – a “Mãe Natureza”, que renderá até uma placa no parque. “A ideia era que os visitantes do parque pudessem observar e reparar nisso ao longo do tempo”, completou o artista, ao ressaltar que sua paixão pelo desenho começou ainda cedo, aos cinco anos.

“Eu desenho desde pequeno e, na periferia, sob a influência da cultura hip hop, também sempre mantive contato com o graffiti, de fazer letras e personagens. No entanto, eu nunca cheguei a pensar em ser artista. Sempre pensei em trabalhar para ajudar meus pais, ajudar em casa, que precisava mesmo. Eu dizia que queria ganhar dinheiro com desenho, mas eles (meus pais) nem sabiam como, não tinham essa referência para me passar. No fim, eu fiz colegial técnico em desenho e, depois, fui trabalhar com publicidade. Mas, comecei como office-boy no centro, aos 14 anos, e depois fui crescendo. Fazia muita publicidade e arte para camisetas”, declarou Cadu, que, mesmo depois de estar estabilizado como editor de arte, dizia não se sentir feliz profissionalmente: “Minha esposa via isso em casa e me perguntava por que eu não tentava fazer minha a própria arte. Eu pintava todos os dias e já fazia algumas telas, mas somente em 2006 eu resolvi tentar e, hoje, vejo que foi no momento certo, que tinha que ocorrer naquele momento mesmo”, explicou Cadumem, ao ressaltar que só foi às ruas apresentar sua obra “com quase 40 anos de idade”. Tendo antigos nomes do graffiti paulistano como referência e inspiração, caso de Vitché, Speto, Binho e Nunca, entre outros, Cadu diz que sua preocupação era “encontrar uma personalidade para o seu trabalho” e, após a ter alcançado, não parou mais. “Estou fazendo aquilo que eu gosto e, sinceramente, não me preocupo muito com as definições. Não tenho nem biografia. Acho que arte deve falar por si mesma”, relatou Cadu, que, por outro lado, também exaltou a essência autoral de seu trabalho: “Você consegue ver claramente minha essência e minhas memórias, desde os prédios da cidade até minha paixão pelo mato, pelos bichos, pela figura feminina e pela natureza em geral, como nos padrões que utilizo. Eles estão presentes em diversas culturas, inseridos há anos em nossas sociedades, e sempre busco essa referência aos elementos naturais, ao sol e a lua, que é a origem de tudo”, apontou.

A obra “Mãe Natureza” em uma imagem montada pelo artista (Crédito: Cadumen)

Trazendo boas recordações na bagagem, principalmente em relação às familiaridades entre as culturas, os hábitos e costumes em comum, e de volta à selva de pedras, ao clima de tensão vivido no Brasil pós-golpe, Cadumen chegou a São Paulo em tempo de participar da celebração dos 5 anos do Pimp My Carroça, o premiado projeto encabeçado pelo artivista Tiago Mundano que visa reconhecer e dignificar trabalho de milhares de catadores de materiais recicláveis no Brasil e no mundo. Além de uma grandiosa festa, marcada pela homenagem ao carroceiro Ricardo Oliveira Santos, o Negão, assassinado brutalmente pela Polícia Militar – a limpeza imposta na cidade não se resume aos muros -, o evento contou o lançamento de uma aplicação para facilitar a recolha dos materiais (Cataki) e uma exposição coletiva, a “Mini My Carroça”, que reunia miniaturas de carroças customizadas por centenas de artistas. Gratificado com tal participação, com a realização da viagem pela Europa e o positivo retorno que tem obtido com sua arte, seja com convites para trabalhos comissionados ou com a venda de telas – “tenho recebido muitas encomendas através do Instagram, de pessoas de todos os lugares do mundo” -, Cadu mostra-se motivado com o atual momento de sua carreira e, agora, diz trabalhar na realização de outro grande sonho: uma grande individual, ainda a ser definida. “Já fiz algumas exposições coletivas e outros projetos bem interessantes, mas ainda sinto falta de uma grande individual e acredito que este deva ser o meu próximo passo como artista. Na verdade, eu já venho trabalhando neste projeto há dois anos e tenho produzido bastante. Sinto-me apaixonadão e, em breve, já devo ter alguma novidade neste sentido”, finalizou o artista. Força nisso, Cadumen!

Mais informações sobre Cadu Mendonça

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