Sadhu-X: arte urbana do Nepal

Em sua terceira viagem à Europa, a contar com mural e exposição em Lisboa, o artista nepalês Aditya Aryal fala sobre sua obra e a cena artística em Katmandu.
O artista Aditya Aryal a.k.a Sadhu-X nas ruas da capital nepalesa

As ruas de terras, de tráfego intenso, de trânsito caótico e de intenso cheiro de gasolina; as montras repletas de eletrodomésticos, os múltiplos painéis publicitários, o emaranhado de fios nos postes, a notável concentração de pessoas, a infinidade de construções inacabadas, a poluição do ar, o acumulo de lixo e a vaca deitada sobre o passeio. O fato é que, do outro lado dos luxuosos resorts e do fluxo turístico, a pobreza salta aos olhos e traz à tona a realidade do subdesenvolvimento que marca a capital do Nepal, seja na falta de serviços básicos, nos índices de violência ou de criminalidade, entre outras mazelas sociais. A imagem da “modernidade” em Katmandu e a “ocidentalização” da sociedade nepalesa acirram ainda os contrastes do local, a contar seu esplendor de belezas naturais, seus monumentos históricos, suas tradições ancestrais e toda a riqueza característica da cultura asiática. É difícil de imaginar que, diante deste quadro, ainda houvesse espaço para se falar de arte urbana – fato que só veio a ocorrer após a famosa visita de Invader em 2010, quando o artista francês espalhou várias peças pela cidade e, mesmo sem tal pretensão, tornou-se o emabixador da arte urbana no local. “Eu decidi começar a fazer arte nas ruas sob a influência do Space Invader, assim como muitos outros jovens da cidade. A passagem do Invader por Katmandu acabou por abrir espaço para a existência e o desenvolvimento de uma cena que começava a surgir. Outros artistas internacionais também passaram por lá, como Herakut e StinkFish, e acabaram por solidificar esse movimento. Atualmente, já existem alguns artistas locais e também espaços que fomentam a cena com exposições e outros projetos”, declarou Aditya Aryal, mais conhecido Sadhu-X, ao ressaltar que o graffiti não é legalizado no país, mas também não chega a dar prisão. “O problema mesmo é a falta de latas. Não temos nenhum fabricante e as tintas existentes são bastante ruins. Às vezes, quando não há opção, faço minhas pinturas com pigmentos e os outlines com tinta automotiva”, completou o artista nepalês, que, em entrevista ao Ctrl+Alt+RUA, também falou sobre o conceito de seu trabalho, o mural realizado dentro do Loures Arte Pública e a exposição individual “Bardo Vol.II”, que abre ao público nesta quinta-feira (03/08), na galeria GivLOWE, em Lisboa. Vale a visita!

Em sua terceira passagem pela Europa e com um trabalho dito “mais amadurecido”, Aditya desembarcou em Lisboa com a missão de realizar algumas obras nas ruas e dar vida a exposição individual “Bardo – Vol.II”, que aponta para uma nova etapa de seu trabalho e que, ao girar o caleidoscópio da realidade, traça uma pictórica linha de contacto entre opostos teóricos e aparentemente dispares – uma visionária conexão entre a existência e a vida após a morte, a globalização e os costumes regionais, o contemporâneo e a força das tradições. Neste caso, segundo o artista, a proposta é apresentar uma reinterpretação deste conceito budista do estado de transição entre duas vidas com uma ideia relacionada ao tempo de se libertar em corpo e mente, enquanto suas obras, dentro desta dualidade essencial, também refletem a própria a realidade da sociedade nepalesa contemporânea. “Eu trouxe alguns trabalhos prontos, mas também fiz alguns aqui e, até ir embora, continuarei produzindo. Acho que a minha obra tem uma energia semelhante à cidade e ao espaço (GivLOWE), de terem muitas coisas acontecendo ao mesmo tempo, e me senti à vontade para ocupar o local de forma libertária e dar forma a uma exposição mais ampla”, apontou o artista, que, no momento desta conversa, acertava os últimos retoques de uma obra produzida no local – numa poltrona em meio aos clientes da casa. Para esta citada exposição em Lisboa, além de uma intervenção na parede do local, Aditya apresenta pinturas em telas e em papel (de arroz), ilustrações, serigrafias e alguns objetos apropriados – de shape de skate a uma carrinha, uma característica do trabalho de Sadhu-X. Outra fator que chama atenção é sua marca registrada: a imagem de uma mão a segurar um pênis, ambos cortados e com ossos expostos. Segundo Aditya, esta espécie de logomarca possui dois significados; um amparado num ritual local, no qual as mulheres são tocadas com a imagem de um pênis na cabeça, e o outro numa interpretação da narrativa hinduísta, com a mão a simbolizar a autoridade, o controle, a lei, e o pênis as individualidades mais vulnerais. Neste aspecto, em termos de técnica e composição, a obra do artista nepalês parece seguir a influência e os mesmos moldes ocidentais; por outro lado, do ponto de vista estético, mostra-se como uma verdadeira teia de composições, uma lúdica releitura da cultura asiática entre ilustrações, retratos, símbolos, colagens, grafismos e geometrias. “É uma nova abordagem das referencias hinduístas, tibetanas e hindus. Não digo a religião, mas o lado espiritual e as narrativas. Também gosto de brincar com símbolos e dar retratos aos diferentes estados emocionais. Aliás, eu comecei com retratos, mas depois passei a explorar composições mais elaboradas, com mais elementos e mais cores”, completou.

Formado em Fine Arts pelo Centro de Artes e Design da Universidade de Katmandu e integrante fundador do coletivo ArtLab, um projeto dedicado ao fomento da cena local, Aditya  divide seu trabalho entre as obras de estúdio e as ações nas ruas, embora tenha ressaltado que não se sente tão confortável para pintar constantemente em sua cidade. “Vivemos em um contexto de bastante pobreza e isso não te deixa tão à vontade para estar sempre a pintar nas ruas. É complicado ver pessoas em dificuldade e você desperdiçando dinheiro em tinta, por exemplo. Desenvolvo alguns projetos específicos, realizo alguns ataques massivos em áreas turísticas e, no geral, faço mais tags, pequenas peças em stencil, pasteup e stickers. Eu tento aproveitar ao máximo para pintar quando estou fora do país”, declarou o artista, que, além de ter tido sua obra exposta em Nova York, já espalhou seu trabalho por diversas cidades europeias, como Copenhagem, Hamburgo, Londres, Nantes e Lisboa. “Viajar é sempre bom, ainda mais quando possui o objetivo de expandir seu trabalho, de apresentá-lo em outros contextos e de alcançar novos públicos e criticas. As experiências vividas também acabam por influenciar o trabalho e, com certeza, nunca voltamos os mesmos. Acho que essa troca é muito válida e importante para o amadurecimento da obra”, apontou Aditya, ao tentar justificar sua passagem pela capital: “Lisboa é relativamente pequena, dá para andar a pé por todos os lados, a maioria das pessoas fala inglês e, em comparação com outras cidades europeias, as coisas não são tão caras. A cidade é bem bonita, com muita arte nas ruas, e as pessoas são simpáticas. Tem muitos turistas e muitas coisas a acontecerem ao mesmo tempo. É ir tomar uma simples cerveja, por exemplo, e ver um mural do Obey. Isso é um presente”, detalhou o artista, que, além da individual anunciada e dos pequenos tags espalhados pelo centro, também teve tempo de realizar uma rápida pintura em Loures, no que marcou a última intervenção antes das merecidas férias do projeto Loures Arte Pública. “Foi uma honra poder ter participado de um projeto como essas dimensões, com centenas de obras e artistas de todos os lugares do mundo. Acho esta uma experiência muito rica; de poder abrir espaço para outros artistas do meu país e também de tentar levar para lá um pouco do que vi por aqui. Fiquei mesmo contente com esta oportunidade”, finalizou o artista, antes de reforçar o convite para a exposição: “Apareçam para tomar uns copos, para ouvir um som e para me conhecerem, conhecerem meu trabalho. Estão todos convidados”.

Mural de Saduh-X dentro do projeto Loures Arte Publica (crédito: adityaayral)

“Bardo Vol.II” / GivLOWE
Rua Praça de São Paulo, 13. Lisboa.
De 3 a 24 de Agosto. Entrada: Livre.
Página do evento no Facebook
Confira o site oficial de Aditya Ayral

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