“Splash and Burn”: arte na ferida

Em entrevista ao Ctrl+Alt+RUA, o artista lituano Ernest Zacharevic detalha a campanha artivista criada para debater a exploração do óleo de palma na Sumatra.
Imagem de Zach com o print “Splash and Burn” (Crédito: Divulgação)

Uma linha escura sobe no horizonte a pintar o céu de preto. O tempo fecha, o dia vira noite e a cortina fumaça avança a romper limites, cruzar territórios e, sobretudo, a interferir na vida de milhares de habitantes da Ilha da Sumatra, na Indonésia, um dos principais produtores mundiais do tão questionado óleo de palma (azeite de dênde) – um extrato super valorizado na industria alimentícia e que, por ser explorado de maneira desiquilibrada, tem agravado consideravelmente o quadro de degradação ambiental na região. O fato é que, ao mesmo tempo em que se torna gritante aos olhos do mundo, a chamada poluição transfronteiriça no sudeste asiático também parece encobrir todas as práticas agrícolas não regulamentadas e o seu consequente impacto, tendo em conta que a situação descrita repete-se todos os anos. Ou seja, por mais que este problema seja conhecido, repercuta na mídia internacional e comprometa a existência de incontáveis espécies animais, nada de concreto é feito para contornar este quadro alarmante. “Durante o verão, a neblina é parte da vida cotidiana no sudeste da Ásia. Os incêndios são uma consequência de um método agrícola de remoção da floresta, o chamado ‘Slash and Burn’, que raramente é investigado, relatado ou discutido. Uma vez que o tópico alcançou a mídia internacional começou a ficar evidente o quão complexa e sombria era toda esta situação. Governos e grandes empresas apontam dedos uns para os outros, confundindo ainda mais de quem seria a culpa por aquilo que alguns chegam a rotular como um ‘crime contra a humanidade’”, declarou o artista lituano Ernest Zacharevic, que, inconformado com o descaso da situação, recorreu à sua arte para lançar nova luz ao problema com uma ousada campanha artivista: a “Splash and Burn”, realizada na prática entre os meses de maio e julho deste ano. Em entrevista ao Ctrl+Alt+RUA, articulada pela assessora artística e coordenadora Charlotte Pyatt, “Zach” falou sobre suas motivações e também nos revelou os detalhes deste incrível projeto, desde o envolvimento da comunidade local ao seleto time de artistas convidados, caso de Anders Gjennestad (aka Strøk), Axel Void, Bibichun, Gabriel Pitcher, Isaac Cordal, KombKombet, L.E.O, Mark Jenkins, Myor (SmaneTwo) e Pixel Pancho.

Obra de Ernest Zacharevic em Medan, no nordeste da Ilha da Sumatra (Crédito: Hype Media)

“Eu comecei por investigar a situação ambiental na região de forma independente, por curiosidade, mas foi a névoa transfonteiriça de 2015 que me chamou atenção para a gravidade do problema. Quanto mais eu estudava, mais fascinado ficava com o pouco que conhecia, embora tivesse vivido alguns anos na Malásia. Isso, naturalmente, começou a interferir nas minhas obras … Estava tão cansado que o assunto começou a vir para o meu trabalho e, posteriormente, acabou por resultar no projeto Splash e Burn”, apontou o artista lituano, reconhecido pelas eximias composições lúdicas e dinâmicas que rompem os limites artísticos entre a pintura a óleo, o stencil em spray, a instalação e a escultura – como a sequência de trabalhos ainda vista na Rua da Manutenção, uma lembrança da exposição individual “Floor is Lava”, realizada na galeria Underdogs em junho de 2015. De acordo com Zach, como a informação veiculada na mídia mostrava-se muito controversa e os trabalhos científicos apresentavam termos de difícil entendimento, a solução era mesmo se deslocar até o local. Na verdade, ele sabia que, se quisesse saber o que realmente se passava por trás da cortina de fumaça, teria que estar no próprio terreno para apurar a situação e assim foi: “Eu liguei a Sociedade de Orangotango da Sumatra no Reino Unido e eles me colocaram em contato com a sua organização coirmã, a Orangutan Info Centre (OIC), que opera na Sumatra. Saber os principais problemas ambientais e os esforços das ONGs na preservação da floresta e na proteção das espécies ameaçadas de extinção foi um ponto de ruptura para mim. Ver as pessoas que dedicam suas vidas para lutar pelo que resta da Floresta Tropical foi, no mínimo, inspirador”, revelou o artista, que, após ter traçado o plano de atuação, anunciou a realização da campanha com o lançamento da impressão “Splash and Burn”, uma edição limitada de 130 litografias (68×90) de 11 camadas que trazia uma criança montada num rinoceronte de origami de nota de dólar com uma tocha acesa na mão. Desta forma, através da rápida venda do print citado – todos finalizados a mão e com detalhes exclusivos -, Zach pôde financiar o projeto de maneira independente e, enfim, dar início à missão no local.

“Elephant in the Rumah”. Mural de Ernest Zacharevic em Medan (Credito: Ernest Zacharevic)

Com os bons contatos realizados e um modelo autossuficiente de campanha – com liberdade o bastante para não ter que agradar nenhum patrocinador -, o artista lituano passou a dividir o projeto em etapas e a convocar os artistas de acordo com os locais, com o foco de cada ação. Segundo Zach, os artistas chegavam aos pontos escolhidos junto dos parceiros e das organizações locais e, após uma breve exploração, especificavam as intervenções que seriam executadas. No entanto, mesmo com tal planejamento e com todo cuidado que a situação exigia, o artista lituano faz questão de ressaltar que nada disso teria acontecido sem o apoio da comunidade local: “A Sumatra é um lugar onde você dificilmente move um dedo sem chamar a atenção dos gangues. A pirâmide de poder começa no topo com os políticos e se ramifica até chegar a um cidadão comum. Nós trabalhamos durante meses em segredo, sem publicar nada sobre nossa atividade e sem manter conversas com quem não conhecíamos. Ainda assim, as discussões gerais e o assédio não eram incomuns. Felizmente, conhecemos muitas pessoas de mentalidade aberta que foram fundamentais na produção, oferecendo todo o tempo e habilidade necessária. Nos ajudaram com os artistas, nos familiarizaram com locais e também nos mantiveram seguros. Não teríamos feito nenhum trabalho sem esse envolvimento”, confessou. Questionado sobre a escolha dos artistas, se havia algum critério ou recomendação especifica, Zach comparou a tarefa com a curadoria de uma exposição, principalmente pela análise de qual artista seria apropriado para tratar determinado assunto, mas com o adicional de combinar tal fator com um local específico. “O único critério que tive foi o de convidar artistas que fazem trabalhos específicos para cada tipo de local, que trabalhavam com uma resposta direta à localização, ao contexto e ao ambiente em que estavam inseridos”, completou o idealizador, que, a considerar o nível e a variedade das obras apresentadas, mostrou-se muito feliz em suas escolhas.

Apesar do objetivo de lançar nova luz sobre o grave panorama de degradação ambiental, a campanha lançada por Zach não possuía a pretensão de levantar bandeiras e, longe de qualquer discurso panfletário ou alarmista, mostrou-se inteiramente focada em seu viés artístico, como se cada obra realizada valesse o mesmo que uma nova tese, um discurso de força, uma manifestação ou pedradas na vidraça. Era simplesmente a arte como uma poderosa ferramenta na construção de uma nova mentalidade. “Todo o objetivo do projeto gira em torno de tornar o assunto público. Os desastres que ocorrem na região a cada década é apenas a cereja de um bolo muito maior que todos nós estamos cozinhando. É um momento crucial na história humana, no qual temos a obrigação de avaliar nosso impacto no planeta e estabelecer uma nova relação com o meio ambiente. Isso deve envolver todos nós e não deve ser limitado a um pequeno grupo de políticos e empresas que tomam decisões cruciais por trás de uma cortina fechada”, desabafou o artista, que teve a oportunidade de apresentar o “Splash and Burn” no TEDxVilnius, na Lituânia, e também ganhou espaço em diversos veículos de comunicação internacional. De acordo com o artista, mesmo após o sucesso de sua realização e a positiva repercussão alcançada, “não existe uma maneira certa de medir o impacto do projeto”: “Estamos constantemente a promover novos projetos e em busca de novas maneiras de manter esta palavra viva. Temos de continuar a unir esforços e a contar com a participação de artistas, de meios de comunicação e ONG´s em todo o mundo para manter esta questão em pauta e, principalmente, pública”, finalizou Ernest Zacharevic.

Mais informações sobre o projeto em: Splash and Burn

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