Conversas na Rua: é arte na Amadora

Em sua terceira edição, o festival de arte urbana da Amadora amplia o diálogo com o patrimônio cultural local com novas intervenções na cidade. Está no mapa!!!
A gestora cultural Catarina Valente (Crédito: Divulgação)

Situada no Distrito de Lisboa e composta por seis freguesias – Águas Livres, Alfragide, Encosta do Sol, Falagueira-Venda Nova, Mina de Água e Venteira -, a Amadora aparece como um dos menores e mais populosos municípios de Portugal, a considerar o denso aglomerado de sua paisagem urbana e sua grande pluralidade cultural, com muitos emigrantes das ex-colônias portuguesas em África. Foi a terra da agricultura, das indústrias e do crescimento desordenado, mas também a cidade da essência democrática (um dos primeiros municípios criados após a Revolução de 25 de Abril de 1974), da Escola Superior de Teatro e Cinema, do famoso festival internacional de banda desenhada e, agora, do “Conversas na Rua”, que tem traçado um novo diálogo entre arte urbana e patrimônio cultural local através de diversas intervenções artísticas em grande escala. Às vésperas da terceira edição do festival, que ocorre de final de agosto até o final de setembro e integra às celebrações do aniversário da cidade – como a feira do livro, a feira de arte contemporânea do Círculo Artur Bual, o ciclo de jazz e diversos outros concertos -, a organizadora Catarina Valente adiantou ao Ctrl+Alt+RUA os detalhes e as ações previstas dentro desta nova jornada, a começar pela presença dos artistas Nuno Alecrim e Ana Dias, desafiados a criarem uma peça em conjunto; Estúdio Altura, formado pelo designer Fred Aranha e pelo arquiteto Peixe Pedro; Kruella d’Enfer, que levará pela primeira vez uma de suas carismáticas pinturas à cidade; Frederico Draw & Contra (Colectivo Rua), artistas que chegam do Porto com a promessa de dar uma nova face à Amadora, e o “embaixador” Odeith, que voltará a homenagear um ícone português em seu “memorial” particular. Amália Rodrigues, Carlos Paredes e Zeca Afonso (nas imagens abaixo) já encontram-se por lá à espera do novo camarada e, se possível, de sua visita. O papo está dado… tem Conversas na Rua!

“Esta terceira edição dará continuidade ao legado artístico já existente na cidade e, como um dos principais diferenciais, contará com trabalhos em maiores escalas; teremos mais empenas, ou seja, vamos intervir em mais prédios. Também daria para dizer o que o grande tema deste ano será a memória, a própria memória da cidade. Vamos atuar com mais proximidade ao patrimônio cultural local e focar em alguns lugares que achamos importantes resgatar e promover uma maior identificação junto ao público”, antecipou Catarina Valente, que, por ser da cidade e conhecer bem seus potenciais e suas carências, sabia da importância de um projeto com a finalidade de aproximar as pessoas da arte desenvolvida na região, a considerar que sempre houve muitas conversas nas ruas de Amadora. Segundo a gestora cultural, a cidade mostra-se muito efervescente, muito por causa de sua citada pluralidade e da concentração de pessoas. Mesmo na periferia, na grande metrópole da capital, a cidade sempre manteve uma grande relevância do ponto de vista cultural, ao exemplo do festival internacional de banda desenhada Amadora BD, que realiza sua 28.ª edição de 27 de outubro a 12 de novembro com exposições, lançamentos editoriais e a presença de diversos autores portugueses e estrangeiros. Ou seja, a realização de um festival de arte urbana carrega parte desta herança, como uma versão atualizada dos famosos murais revolucionários que outrora caracterizavam a região, e também corresponde a uma natural necessidade de ocupação do espaço público, tanto que as autoridades já davam certa abertura ao grafite com áreas específicas de intervenção na cidade. Desta forma, ainda em 2013, Catarina lançou o “Mapa do Graffiti na Amadora”, um acervo digital que hoje reúne mais de 100 registros de arte urbana na cidade. De acordo com a organizadora, esta plataforma de georeferenciação, criada em colaboração com a Câmara Municipal da Amadora, acabou por motivar a criação do próprio “Conversas na Rua” – a contar com o respaldo de Odeith, o ilustre artista da Damaia que fez seu nome nos muros.

“Demoramos certo tempo para amadurecer a ideia e também mantivemos uma série de conversas de ajustes, mas o projeto avançou e muito por conta da figura do Odeith. Ele nasceu e vive cá, já tinha muitas obras espalhadas pela cidade e sempre demonstrou interesse em fazer algo do gênero, em realizar mais intervenções nas ruas e, de certa forma, legitimar a cena na Amadora”, apontou Catarina, ao falar do ilustre embaixador do festival, um dos grafiteiros mais expressivos do país, reconhecido por trabalhos que variam entre o “lettring”, a perpectiva realista e o jogo de ilusão (quando não tudo junto) – uma atração à parte e permanente. Apesar de contar com apenas duas edições na bagagem (2015 e 2016), o Conversas na Rua parece ter conseguido firmar seu modelo de atuação, de intervir na paisagem urbana e estimular o diálogo com os patrimónios histórico, social e cultural, e já soma um considerável número de intervenções, a ganhar os olhos do público e, principalmente, seu apoio – algo que pudemos presenciar numa mesa de debates realizada no último ano, na qual tivemos o prazer de figurar como um dos palestrantes convidados. Na ocasião, com o auditório da biblioteca municipal praticamente cheio para debater a ocupação do espaço público através da arte, era evidente o interesse dos moradores em apoiar a iniciativa. “O projeto, desde o início, mostra-se muito aberto e participativo. Sempre fazemos questão de nos reunir com os moradores, de ouvir o que eles têm para dizer e de tentar envolvê-los em nossas atividades. É claro que também existe um limite e, por isso, tomamos cuidado para esta participação não ser intrusiva. Mas, fazemos muito o papel de mediação e, no geral, costumamos alcançar bons retornos e respostas de ambos os lados”, apontou.

Questionada sobre o conceito usado na definição dos artistas convidados, Catarina disse não manter nenhuma fórmula exata, embora tenha deixado escapar alguns critérios que costuma levar em consideração na escolha das atrações: “Procuramos sempre trabalhar com reconhecidos nomes da cena nacional e também com artistas locais, seja da própria cidade ou não, mas sempre em busca de certo pluralismo entre os estilos. Outra preocupação do festival é a proposta de lançar alguns desafios e tirar os artistas da zona de conforto, seja na criação de uma intervenção para um local específico, na realização de um mural em conjunto ou na escolha de um artista que não está muito habituado a realizar trabalhos em grandes escalas”, apontou organizadora, que, além da curadoria, também assume a produção e a comunicação do festival. Enquanto a próxima edição não chega com novo frescor, vale destacar as obras realizadas nos anos anteriores, como os murais de Sara Morais, Hugo Lucas, Ana Dias, Elsa Poderosa, Nuno Alecrim, Regg Salgado e André Calado (Nada) e Danm One, e também rememorar o acervo artístico no site da cidade, que, por sinal, guarda verdadeiras preciosidades, como uma vasta série de Odeith e trabalhos de Kreyz, EKO (GVS Crew), Pariz One, Smile, Caos (MaisMenos), AkaCorleone, Gonçalo MAR, Nomen, Que? (Miguel Brum), Ble (Reis Crew), Risko, Roteweiller (GVS Crew), Miguel “RAM”, Catarina “Glam”, 2CarryOn, Vile, Nark e Slap, entre outros. Trata-se de um passeio pelas ruas da Amadora e, inclusive, pela própria história do graffiti em Portugal. Vida longa ao Conversas na Rua… Amadora no mapa!

Confira a página do evento no Facebook. Mais informações sobre Amadora BD, Mapa do Graffiti da Amadora e Conversas na Rua no site oficial da Câmara Municipal de Amadora.

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