Jhon Douglas: do mato ao mundo

Radicado em Lisboa feito salto no escuro, o menino da Amazônia apresenta músicas autorais e uma nova série de pinturas em exposição na Má Língua. Viva o Mato!
Cartaz da exposição “Mato”, de Jhon Douglas

Natural do município brasileiro de Vilhena, situado no estado de Rondônia, na entrada da Amazônia Ocidental – no chamado “portal” da floresta -, mas há dois anos no ritmo de Lisboa, o artista Jhon Douglas ocupa o espaço Má Língua para apresentar suas músicas e sua mais recente série de pintura de máscaras – uma espécie de “confusão” registrada. Intitulada “Mato”, a exposição do “Jungle Boy” abre ao público na próxima sexta-feira (dia 08/09), a partir das 19h30, e estende-se até o mês de outubro. É só chegar.

“A exposição vai se concentrar nessa nova série de máscaras, mais pintada e mais jogada, junto com as músicas que trazem letras íntimas sobre meu trabalho, minha vida e relações”, adiantou o músico e artista plástico, ao exaltar que, neste caso, o mais importante é manter-se ativo: “Fazer a exposição me coloca em atividade para continuar trabalhando. Afinal, é o que eu faço da vida e a gente tem que buscar se movimentar para descobrir mais possibilidades. Sempre para frente!”.

Deslizando pelas ladeiras de Lisboa, onde diz ter chegado como um “salto no escuro” e em meio a uma viagem de um ano pelo globo – “sem nada garantido, sem planos, sem dinheiro e sem fugir do que acredita” -, o menino do mato diz que, morando em Portugal e com todas as experiências acumuladas, conseguiu obter uma maior sensibilidade de saber sobre as coisas que carrega de sua terra e, talvez por isso, tal essência mostra-se evidente em seu trabalho, dos costumes mais simples ao contato diferente com a natureza, a contar a característica calma interiorana e a tranquilidade – sua maior lembrança.

“Mato” (2017). Uma das obras da nova série de “Jungle Boy”

“É a primeira vez na minha vida que sinto as coisas que estão enraizadas em mim pelo motivo de ter nascido lá. Tenho tentado me expressar mais com isso, para me entender e saber o que é realmente essencial para mim. É um caminho diário de aprendizado intimo. Por ter nascido em um lugar que eu acreditava ser tão distante de tudo, eu vivia sempre com anseio do moderno, do novo, de descobrir o que tinha além do lugar que eu nasci. Mas, hoje, sinto coisas novas, como um ‘regresso’ de mim”, relatou o artista, que, por outro lado, também reconhece a grande distância entre as distintas realidades.

“Aqui é outro mundo em todos os sentidos, em termos de cultura e relações. Não diria que é melhor e nem pior, mas diferente. Demorou um tempo para cair a ficha das diferenças, mas esse foi o melhor ponto. As diferenças das realidades são coisas que fazem a gente crescer”, afirmou Jhon Douglas, quem começou a sujar as mãos com tintas somente há cinco anos, após ter se libertado do ofício de Diretor de Arte e Design Gráfico em agências de publicidade. “Em algum momento aquilo tudo deixou de fazer sentido”, como ele mesmo disse.

Detalhe da nova série de Jungle Boy

Embora tenha começado a pintar relativamente tarde e, segundo ele, sem nenhuma pretensão, a pintura foi fundamental para Jhon dar certeza a suas escolhas e conseguir trilhar um caminho mais libertário, mais próximo das coisas que lhe faziam bem. “Pintar abriu portas para minha confiança, de tentar não me enganar com anseios já estabelecidos. Isso, naturalmente, me trouxe caminhos que nunca esperava; nunca escolhi ser artista” apontou o chamado Jungle Boy, que, de carrinho ou magrela, segue firme sua caminhada entre a arte e a música.

Questionado sobre esta dupla função na correria, as prioridades como músico e artista plástico, Jhon pareceu ter dificuldade na resposta e, mesmo que contra parede, exaltou a naturalidade desta junção em seu trabalho e em sua vida: “Essa pergunta é complicada, mas as pinturas são isso: minha vida e meu tempo. Todo dia ela me diz coisas diferentes. Já na música ando encontrando uma liberdade maior de falar o que penso. A música toca no ouvido de quem escuta e acho mais fácil dizer minhas opniões cantando do que numa conversa num bar. Parece mais funcional”, brincou o artista, que diz ter começado a tocar violão em Portugal e, literalmente, “descoberto um novo mundo”.

“É música, música e música… Eu estou o tempo todo nisso e sempre cantando. Minha cabeça decora tudo e, hoje, claramente é minha influência maior em tudo, seja para pintar, cantar, tocar e dançar. Não tenho formação em nada, nem completei o ensino médio, mas tenho uma crença grande em que podemos fazer tudo e desacredito na forma certa de fazer essas coisas. Vai pintar só se for uma tela linda? Vai fazer uma musica só se for para ser sucesso? Acho válido toda forma de expressar, sem se preocupar em certo, errado, bonito, feio ou adequado”, apontou o menino das máscaras.

De acordo com Jhon Douglas, que começou a pintar com um trabalho mais visual do que com uma própria expressão, as máscaras surgiram de maneira inesperada, como um soluço. No entanto, mesmo sendo um símbolo mais regional do que amazônico, foi a primeira coisa que fez e o fez gostar, sem se preocupar se era adequado ou não. “Com o tempo, claro, isso foi amadurecendo, ganhando suas formas e próprios símbolos. Acho que nunca observei as máscaras como uma marca minha. Acho que é a maior confusão, isso sim”, ironizou Jhon Douglas, que, por sinal, apresenta uma nova versão das mesmas nesta exposição.

Mural de Jhon Douglas dentro do Festival Muro LX, em Marvila

“Essas coisas surgem sempre com a vontade de mudar, de tentar algo novo e sair do comodismo. Acho que fico buscando me divertir mais fazendo elas e, às vezes, a gente tem que dormir do outro lado da cama”, revelou o artista ao falar da nova série, visivelmente com mais texturas, mais camadas, e menos ilustrativas – com cara de mato e de verdade. Agora resta saber se o repertório autoral estará à altura? “Tenho poucas musicas autorais e vou tocar todas. Mas, fora isso, sou um grande artista cover e sempre toco aquelas que fazem parte da minha vida, que escuto muito e que fazem sentido para mim”, completou.

Sobre o futuro, em vez de metas e planos bem definidos, o menino da Amazônia traça apenas a linha de sua caminhada e sua consequente evolução: Atualmente, estou tocando mais violão do que qualquer outra coisa; tô no alto da paixão. Mas, não tenho pretensão maior do que continuar me sentindo bem fazendo musica ou pintando, seja lá o que for. Claro que algum momento registrar isso seria lindo, mas sinto que tudo é a mesma coisa. Amanha, posso estar me dedicando apenas a poemas ou filmes, e a prioridade mesmo é continuar me expressando”, finalizou o libertário Jungle Boy. Fera!

“Mato”/ Má Língua
Rua da Senhora do Monte, 1C. Lisboa, Portugal
De 08/09 até 08/10. Entrada: Livre
Confirme sua presença no evento do Facebook

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s