Desenlata: nas ruas e nas conservas

Em sua terceira edição, o festival de arte independente regressa às velhas fábricas de Matosinhos para resgatar raízes e agitar a cena local. Fala aí, mynameisnotSEM!

 A entrada de Portugal na União Europeia, as regulações de mercado, o contexto crise econômica e a especulação imobiliária foram apenas alguns dos fatores que praticamente decretaram o fim da indústria conserveira em Matosinhos, no Porto, onde haviam mais de 50 fábricas e, atualmente, restam apenas duas “gourmets”. Entre as memórias do passado, o remoto abandono dos edifícios e a vigente transformação, de região pesqueira industrial para zona residencial de luxo com vista para o mar, um projeto tem dado novo sentido as ruinas do concelho em nome da arte e também das tradições. Trata-se do festival independente Desenlenta, que realizou sua terceira edição no início do mês de setembro com direito a “street art tour” de intervenções não autorizadas pelas fábricas abandonadas, pintura de mural coletivo (de 150 metros), workshop de graffiti, visitas guiadas e a exposição “Arte na Conserva”, que reúne dez artistas de diferentes vertentes e segue aberta ao público até o início de outubro na Loja Interactiva de Turismo de Matosinhos. É só chegar… na lata!

“Essa foi a melhor edição de todas. Na verdade, mantivemos o mesmo formato dos dois anos anteriores, mas conseguimos ter mais artistas presentes, firmar mais parcerias e, pela primeira vez, também contamos com o apoio institucional por parte da autarquia local, que nos concedeu o espaço para a realização da exposição”, apontou o artista e curador do festival Filipe Granja, conhecido como mynameisnotSEM, ao exaltar que, por outro lado, as intervenções nas fábricas seguiram ilegais – a maior parte delas feita em spray sobre papel e aplicada como paste-up. Mesmo sem ter tido tempo para um balanço mais detalhado, o artista mostrou-se satisfeito com mais esta “aventura” e ressaltou a necessidade de exaltar a memória da indústria conserveira em Matosinhos, de mostrar como as fábricas em ruínas poderiam ganhar nova vida, e de movimentar a cena da streetart na localidade através de um festival de arte independente. Em conversa com o Ctrl+Alt+RUA, SEM também falou sobre as atividades do espaço expositivo Becuh, situado na baixa do Porto, e do conceito por trás dos trabalhos abstratos que desenvolve nas ruas e galerias.

Segundo o artista, nascido e criado em Matosinhos, o festival começou como parte da dissertação de seu mestrado em Design da Imagem, mas acabou por ter continuidade devido ao retorno obtido na primeira edição, que, por sinal, já começou com as visitas às fábricas abandonadas, as intervenções em colagem, a graffiti jam e uma exposição de cartazes. “Ocorreu tão bem que não havia razões para acabar, a considerar a carência de projetos com este tipo de proposta no concelho”, apontou o artista, que, desde então, tem tocado o festival na raça; ou seja, através de arrecadações coletivas em “ crowdfunding” e de seu próprio investimento. Mas, ao final da terceira edição, após todas as trocas e experiências acumuladas, não há dúvida de que os esforços têm sido recompensados, vide as novas intervenções de Godmess, Hazul, Heitor Correa (Brasil), João JAS, Lapiz (Nova Zelândia), Manuela Pimentel, Padure (Romenia), Samina, Third e The Caver, o mural coletivo na Escola Secundária Augusto Gomes e a exposição “Arte na Conserva”, que, como sugere o título, apresenta latas de conservas customizadas por um seleto grupo de artistas. “Tem artistas de diversas vertentes, da ilustração, da pintura, do graffiti, da tatuagem e da arte contemporânea”, apontou o curador, ao falar dos convidados desta edição.

“Soundscapes – After the Storm”. Mural de mynameisnotSem em Matosinhos, no Porto. (Crédito: Divulgação)

Cria da BECUH

Em paralelo às atividades do Desenlata, que torna-se maior a cada edição, o artista também tem desenvolvido diversas atividades dentro do estúdio-ateliê “Badass Experiences by Creatives from Urban Habitat”, ou simplesmente BECUH, situado na Rua da Madeira, na baixa do Porto. O espaço multifuncional, situado no mesmo espaço do ateliê dividido com o artista Godmess e que também conta com a presença de Bebiana Branco e Rute Ferraz na equipa, funciona no último fim-de-semana de cada mês e sempre traz uma atração diferente, a promover um diálogo criativo entre a comunidade, a arte e a cidade. No último mês de julho, por exemplo, mynameisnotSem ocupou o local com a chamada “Free Party”, uma experiência sensorial de luz, cores e sons cujo objetivo era promover um peculiar culto à “Deusa” música eletrônica. Aliás, segundo o artista e ex-DJ, seu trabalho artístico possui uma estreita relação com o ritmo das pistas, como se os gráficos, os padrões e as cores de suas abstratas composições seguissem as mesmas frequências das batidas das caixas. “Já toquei por uns anos, mas hoje vejo a música eletrônica mais como uma inspiração. Meu trabalho baseia-se muito nos movimentos e nas oscilações dos sons”, detalhou o artista, ao adiantar que a próxima exposição na BECUH será  com o artista espanhol Peri Helio, dono de ilustrações e meticulosas pinturas em preto e branco. Intitulada “Inquedanzas”, a mostra em questão ocorre de 22 a 24/09.

Apesar de ter começado a pintar no graffiti puro e duro ainda em 2004, época em que já assinava como SEM nas fábricas abandonadas de Matosinhos-Sul, o artista só foi começar a desenvolver um trabalho com mais propriedade quase dez anos depois, quando passou a experimentar novas técnicas ligadas à street art na faculdade e, por consequência, acabou por retomar seu percurso nas ruas.  Atualmente, num forte ritmo dentro do estúdio e com um conceito mais amadurecido, o artista segue sua jornada pelas bandas do Porto, onde suas e pinturas e colagens são encontradas (e reconhecidas) facilmente e onde, em comparação com outras cidades portuguesas, a repressão também costuma ser maior. De acordo com mynameisnotSem, além da possível autuação e da previsível multa, a maioria dos trabalhos ilegais é encoberto rapidamente na cidade, algo que já não ocorre em Matosinhos, onde os graffitis chegam a fazer 10 anos – as colagens realizadas no “street art tour” do ano anterior, por exemplo, seguem nas paredes. No entanto, entre stickers, colagens, pinturas rápidas e trabalhos autorizados, sempre se acha espaço para mais um de seus inquietantes abstratos…  Ao menos, essa é a busca. De olho nele; Porto afora!

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