Tamara Alves: em fogo pelas ruas

Pioneira na cena de arte urbana, com direito a tese defendida e comercial na TV, a artista plástica evoca o fogo em sua nova individual: “It Was a Pleasure to Burn”.
Tamara Alves ao lado da pintura realizada num autocarro em Loures (crédito: OzeArv/Facebook)

Ponta de lança na cena portuguesa de arte urbana, com direito a tese de mestrado sobre o tema ainda em 2007, a artista plástica e ilustradora Tamara Alves acabou por adotar a rua como habitah natural para suas obras e, aliada ao estilo revolto, conseguiu firmar seu nome a partir os muros das cidades, a mostrar que as mulheres também tinham espaço nas paredes. Atualmente, como uma das principais referências da “streetart” – vide a recente campanha publicitária para o festival NOS Alive, que a apresentou em horário nobre ao lado de outras jovens estrelas -, Tamara aproveita a visibilidade alcançada para elevar seu trabalho e apresentar a sua tão esperada individual: “It Was a Pleasure to Burn”, aberta ao público até o próximo dia 10 de outubro, na ArtRoom (Pátio do Tejolo, 1 à D, Príncipe Real). Em entrevista ao Ctrl+Alt+RUA, realizada horas antes da abertura, a artista falou sobre sua trajetória, o conceito por trás de suas inconfundíveis pinturas e, é claro, a exposição intitulada com base na primeira citação do livro “Fahrenheit 451”, de Ray Bradbury. “Não sou muito boa com as palavras; então estou sempre a recorrer às citações para expressar aquilo que quero dizer, seja em letras de música, livros ou filmes”, ironizou Tamara, que justifica tal título ao apresentar uma diferenciada série de aquarela corrompida pelas chamas do contato direto com o fogo. Aliás, ao longo da primeira semana de exposição, a artista avisa que também marcará presença no local para atender o público e falar sobre os trabalhos. On fire!

Imagem de divulgação de “It Was a Pleasure to Burn”, de Tamara Alves (crédito: divulgação)

“Nesta exposição, eu tentei criar um ambiente, e as obras estão muito mais ligadas aos detalhes dos gestos do que a um elemento em si. O traço é o mesmo, mas também exploro a aquarela e as marcas deixadas pelas chamas, como se fosse uma brincadeira de pintar com água e fogo. É uma exposição muito visual, com uma instalação de corvos – uma de suas marcas registradas, que salta do papel a voar pelo espaço -, mas também muito forte e muito tocante”, adiantou a artista, ao tentar descrever os trabalhos expostos: “Olho para as obras e meio que perco as palavras; não sei o que dizer. Acho que elas falam por elas mesmas e era esse o objetivo (tocar as pessoas). Aliás, acho que seja esse o objetivo de todos os artistas”, pontuou. De acordo com o texto de apresentação, assim como o fogo que nos queima e transforma nosso íntimo, os trabalhos expostos mostram-se poéticos, rebeldes, exuberantes, intensos e sensuais; palavras que também poderiam descrever suas obras nas ruas. Neste caso, sobre a adaptação da rua para tela, a artista diz seguir seu próprio instinto e o mesmo estilo. “Já estive a tentar desenvolver pinturas a óleo, mais formais e mais elaboradas. No entanto, num experimento com tinta da china, acabei por encontrar uma estética que me agradou e passei a desenvolver isso. Não adianta eu querer tentar fazer uma coisa que não me identificava. A partir disto, eu consegui trazer essência da rua ao papel e ser fiel a mim mesma”, declarou Tamara, ao ressaltar que “até esta questão do uso do fogo sobre a fragilidade do papel, da durabilidade das marcas das chamas, possui uma relação com o efêmero característico da arte urbana; com o sujo e com o rasgado”.

Questionada sobre o retorno e a grande exposição obtida através da campanha publicitária para o NOS Alive – o mini-doc “A Música e a Cor”, uma co-produção Fim/Canal 180 com realização de André C. Santos -, Tamara mostrou-se contente com o resultado, exaltou o profissionalismo da equipe e destacou o grande impacto da campanha. “Ah… só de aparecer ao lado de jogador de futebol, de figuras como o Renato Sanches, as pessoas já pensam: ‘se calhar, deve ser importante’”, brincou a artista, ao ressaltar que, apesar de ser muito discreta e “andar muito na sua”, tem acontecido das pessoas a reconhecerem pelas ruas. “Foi bacana porque acabou por ser uma publicidade do meu próprio trabalho; pude ser eu mesma e não tive que decorar nenhum texto. Como eu cito no filme, meu trabalho sempre esteve ligado à música. Eu também adoro Hip-Hop, que faz parte da cultura urbana e é uma grande fonte de inspiração”, apontou Tamara, ao exaltar o lado positivo de tal reconhecimento. “Sempre tentei fazer aquilo que queria, ser fiel a mim mesma, e esse reconhecimento não deixa de ser importante. Também temos inseguranças enquanto artistas e, de certa forma, essa aceitação ajuda a romper as possíveis barreiras do medo”, apontou Tamara, que, entre uma citação e outra, também disse ter tido sorte com o “boom” da arte urbana. No entanto, segundo ela, a visibilidade também traz novas cobranças e o desafio de se fazer mais através da arte.

“Minha arte não chega a ser e a falar de política, mas também não fico a retratar apenas o mundo cor de rosa. Ao contrário, geralmente, opto por mostrar o que as pessoas tentam esconder, entre sentimentos intensos e, às vezes, mais obscuros. E essa é a minha mensagem e o que mexe comigo”, declarou a rapariga rebelde da freguesia de Algarvia, que, antes de fazer morada em meio ao caos lisboeta, também passou pelo Porto e por Caldas da Rainha, onde cursou a Escola Superior de Arte e Desing (ESAD) e também pintou suas primeiras paredes. “Na época da faculdade, muitos amigos saiam para grafitar em locais abandonados. Eles sempre me chamavam e, com passar do tempo, também passei a ir. Mas, desde o início, sabia que a minha cena não era aquele graffiti clássico, de letras e personagens. Gosto imenso dos tags e de toda esta estética suja das ruas, mas sentia a necessidade de trabalhar os meus próprios desenhos e foi assim que comecei a pintar e a desenvolver minha própria linguagem”, declarou Tamara, ao ressaltar que, mesmo depois de ter definido um estilo, já passou por diversas fases, como a “mais tribal”, a “urban jungle”, a dos personagens com cabeças de animais e, agora, a dos gestos. Neste aspecto, mesmo diante de uma inconfundível estética de trabalho, a artista não parece se acomodar na zona de conforto e, por isso, diz sempre estar aberta a novos desafios, colaborações e referências, o que, segundo ela, é fundamental tanto para a evolução de sua obra como para seu amadurecimento como artista. A prova disso é o trabalho como tatuadora, que, para quem sempre gostou de tatuagem, foi apenas “assumir a pele como identidade”.

Independência ou arte   

Mais próxima da atitude libertária das ruas do que dos formalismos vistos nas tradicionais galerias do mercado de arte contemporânea, Tamara segue firme sua caminhada no “underground” e, apesar das adversidades enfrentadas – o que não mata, fortalece -, mostra-se otimista em relação ao seu trabalho como artista independente. “O mercado de arte mudou muito com a consolidação das plataformas digitais e, de certa forma, os artistas já não dependem restritamente das galerias para divulgarem seus trabalhos. Muitos artistas da arte urbana também romperam essa barreira e continuam a pintar nas ruas – muitas vezes de maneira ilegal, inclusive. Também tenho amigos que trabalham com exclusividade para galerias e, por isso, não possuem um ritmo de produção tão constante. Eu vejo muitas coisas acontecerem nas ruas, muitos festivais e, com certeza, um maior reconhecimento de modo geral. Acho que somos mais independentes”, apontou a artista, que, por outro lado, também reconheceu a falta de espaços expositivos mais alternativos. “Aqui em Lisboa são poucos lugares e nem sempre é simples realizar uma mostra do jeito que pensas. Aqui (na Art Room), por exemplo, eu tive total liberdade para ocupar o espaço e para mostrar aquilo que queria. Tem uma boa localização, é modesto e fiquei bem contente com o resultado”, completou a artista, que há dois anos não realizava uma individual. Neste caso, a considerar todo o calor envolvido e as obras apresentadas, a espera parece ter sido justificada em grande. O prazer é todo nosso, Tamara!

Abaixo, confira o mini-doc “A Música e a Cor por Tamara Alves”

“It Was a Pleasure to Burn” – Tamara Alves
ArtRoom: Pátio do Tejolo, 1 à D, Príncipe Real.
Até 10/10. De ter. a sab., das 14h às 19h.
Entrada: Livre

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