Arte Pública: abre-se uma ‘GaLeiria’

Dividido entre conferências, exposições e murais, o festival Arte Pública Leiria arranca em grande e legitima a cidade como galeria. Têm paredes com história!
O artista Ricardo Romero, do Projecto Matilha, em ação no Quênia (crédito: facebook/ricardoromero)

Se a proposta era recorrer ao caráter inventivo e inclusivo que a arte e a cultura devem assumir na criação de um futuro mais consciente e sustentável, o festival Leiria – Paredes Com História mostrou a que veio e, através de uma fórmula que misturava conferências, exposições e imponentes murais, conseguiu mobilizar a cidade em torno de um verdadeiro marco: a criação de uma legítima galeria a céu aberto, que passa atribuir à arte pública um papel determinante na identidade do distrito e, principalmente, em seu reconhecimento país afora. É lá que se encontram as novas obras em grande escala de Bordalo II, Daniel Eime, Lonac (Croácia), Pichi & Avo (Espanha) e Smile e é lá que, até o final do mês de outubro, ocorrem as exposições individuais do Colectivo 565, Miguel Januário (MaisMenos), Master Fields, Nuno Viegas, Robô e Vasco Teixeira Rodrigues. A considerar o nível e a diversidade dos trabalhos apresentados, trata-se de um novo roteiro artístico a ser explorado e, no que depender da vontade do artista e curador Ricardo Romero (Projecto Matilha), que já possuía inúmeros trabalhos realizados na localidade e que teve seu mural cancelado por conta da instalação de uma publicidade em meio ao evento, muitas histórias ainda serão contadas nas paredes da cidade… A gaLeiria está aberta!

“Este projecto nasce de um somatório de vontades. Eu e a Catarina (Dias, coordenadora do Projecto Matilha e da associação Riscas Vadias) há uns bons anos achávamos que isto era possível, mas, por diversas razões, decidimos aguardar pelo momento certo. No ano passado, ao sentir que havia chegado a hora, partilhámos o projecto com o Sr. Vereador da Cultura e a coisa começou a compor-se. As parcerias que criámos foram, primeiramente, numa óptica de sustentação do evento, mas rapidamente percebemos que podia e deveria ser mais que isso, acabando por ser uma rede de sinergias e partilhas e por envolver um número bastante alargado de instituições e pessoas, o que aumentou significativamente a sua afirmação e identidade”, declarou o artista, que, embora seja de Évora,  já reside há dez anos na cidade. “Aqui, a maior diferencia e desafio foi o de deixar os artistas sentirem a região e a cidade de Leiria dando todas as condições logísticas para que tudo se processasse com o mínimo de falhas. Foi a proximidade e o enorme respeito pelo trabalho de cada um. Aqui não se pintou por pintar e nem se expôs por expor. Procurou-se a excelência, dignificou-se a arte – a street art, em particular – e democratizou-se o acesso”, ressaltou Ricardo Romero em entrevista ao Ctrl+Alt+RUA, na qual falou sobre o festival e suas ações com o Projecto Matilha.

Questionado sobre a curadoria do festival, sobre os critérios usados e a grande responsabilidade relacionada à tarefa, Ricardo mostrou-se seguro e disse ter tido “toda a autonomia” para realizar a escolha dos locais e dos artistas. “Em nenhum momento houve qualquer constrangimento ou condicionante por parte do município ou de outros parceiros. A gestão dos artistas foi muito simples de fazer porque com quase todos eu tinha e tenho alguns pontos em comum… Respeito muito o trabalho de todos eles e creio que todos dão uma boa perspectiva quando falamos em street art. Depois do convite feito e aceite, passamos a trabalhar no que poderia ser a intervenção de cada um de forma simples e calma”, declarou o curador, que, por sinal, mostrou-se muito feliz em suas escolhas – vide as obras, verdadeiros cartões postais, e as exposições apresentadas na cidade. Em relação às intervenções, além de Smile, Daniel Eime e Bordallo II, três reconhecidos nomes da cena nacional, as surpresas ficaram por conta da presença do croata Lonac e do duo espanhol Pichi & Avo, artistas que, com certeza, elevaram ainda mais a fasquia do festival.

Apesar de não ter concretizado o mural previsto dentro da programação, cancelado por conta da implementação de um anúncio publicitário na parede que havia reservado já durante a realização do festival – “a única coisa que falhou”, como disse -, Ricardo mostrou-se satisfeito com este “enorme privilégio” e, mesmo com as emoções ainda frescas, conseguiu fazer um balanço positivo (e modesto) do festival a partir de uma frase de Catarina (Dias, da associação Riscas Vadias, organizadora do festival): “’Se no final houver vontade de fazer mais, o objectivo foi conseguido’… e eu tenho vontade de fazer mais”, declarou o inquieto artista, que, por sinal, divide-se em três para dar conta de suas atividades: “O Projecto Matilha é o meu trabalho artístico; o UIVO representa toda a pedagogia e o poder que as artes podem ter na sociedade, e o Arte Pública é o poderes dar mais a quem sempre o apoiou. Mas, faz tudo parte de mim e, agora, também temos o ‘Future’ dentro do Projecto Matilha”, completou Ricardo, ao se referir ao projeto “Future is Now”, que integra a lógica do UIVO e conta com Natalia Jidovanu (Art Kids Foundation) e Steve Kyenze (NYOTA ART Gallery).

Ricardo Romero durante as ações do projeto Future is Now no Quênia (crédito: facebook/ricardoromero)
Future is Now, de Kibera ao mundo

Iniciado em abril deste ano, o projeto Future is Now começou a concepção e a criação de uma intervenção artística em Kibera, no Quênia, com dezenas de crianças dos programas culturais e sociais da Art Kids Foundation e da Nyota Art Gallery. Nesta primeira fase, em meio à criação do mural no maior bairro de lata da África e um dos maiores do mundo, explorou-se a dimensão socioeducativa da arte e uma reflexão conjunta em torno dos principais problemas da comunidade e das possibilidades de mudança, estimulando os jovens a utilizarem os seus próprios recursos e os da comunidade para se desenvolverem como cidadãos e para se descobrirem (reconhecerem) como sujeitos da sua própria história, uma passagem que, segundo o artista, seguirá agora de Kibera para o Mundo. “É ai que começa a segunda fase deste projeto. Foram muitas fotos tiradas dos rostos e das realidades daquelas crianças e jovens, e são essas histórias que queremos contar com intervenções artísticas em locais inesperados ou esquecidos pelas principais cidades europeias durante o primeiro semestre do próximo ano. Pretendemos provocar sentimentos como a reciprocidade e a empatia no sentido de contribuir para o desenvolvimento de uma consciência planetária de direitos (e deveres) verdadeiramente universais”, pontuou Ricardo, ao exaltar que tal viagem já foi iniciada em Portugal com uma simbólica intervenção no “Recordação”, uma embarcação de madeira que fazia o transporte de pessoas entre Setúbal e Tróia.  Confira a ação completa aqui: https://vimeo.com/228477527

Intervenção realizada na embarcação Recordação em Setúbal (crédito: facebook/ricardoromero)

Mais informações e localização das obras em: Arte Publica Leiria 

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