Eduardo Fonseca: bicho solto no CCB

Em nova individual na galeria Arte Periférica, em Lisboa, o artista brasileiro recorre aos animais para falar dos homens e suas culpas. São “Os Sete Pecados Animais”.
Eduardo Fonseca na pintura de um mural (crédito: amgaleria)

Após a afiada exposição realizada no último ano – “Há um Golpe de Estado no Brasil”, muito criticada por parte dos apoiadores do mesmo e que chegou até a ser questionada por parte da galeria -, Eduardo Fonseca regressa à Arte Periférica, situada no prestigiado Centro Cultural de Belém, para firmar as pazes e apresentar mais uma individual: “Os Sete Pecados Animais”, aberta à visitação até o dia 22 de novembro. Apesar de não se mostrar tão áspera quanto à última, quando a polêmica gerada se sobrepôs à mensagem e a reprovação beirou a censura, a nova individual do artista brasileiro em Lisboa não deixa de ser crítica e de lançar um atento olhar sobre o modo de vida na sociedade contemporânea – algo que, para quem começou com uma charge contra o aumento da passagem do transporte público, mostra-se bem característico de sua obra, assim como a própria linguagem figurativa, os exímios retratos e o jogo de sombras e cores. “Costumo construir imagens que nunca são exatamente aquilo que se apresenta. Sempre há um pequeno detalhe, uma brincadeira no título ou algo por trás para corromper este suposto significado em evidência. É isso que dá força aos meus trabalhos e que os distinguem de meras reproduções. Nesta exposição, por exemplo, eu pinto animais, mas falo de pessoas e sentimentos”, revelou o “menino de ateliê” em entrevista exclusiva ao Ctrl+Alt+RUA, na qual também fala sobre sua trajetória e suas andanças pelo mundo da arte. Solta os bichos!

“Desta vez, eu apresento oito telas grandes, sendo um animal para cada um dos sete pecados capitais e um trabalho maior que será finalizado no próprio espaço ao longo da exposição, além de uma série de 15 telas menores que refletem sobre a relação humana e também dialogam com o tema sobre outra perspectiva. Falo do pecado como fruto das próprias culpas e vontades das pessoas e também deixo espaço para a livre interpretação de cada um. É uma maneira de lidar com aquela coisa da hipocrisia, de querer criticar o outro e fazer igual; do faça o que eu digo, mas não faça o que eu faço. Neste caso, ao apontar o dedo aos animais, as pessoas podem acabar por apontarem a si mesmas”, detalhou o artista, que, por conta da experiência anterior, desta vez diz ter mantido um “maior cuidado” com o teor da exposição e com o discurso utilizado – “no circuito em que estou inserido é preciso ter esse tipo de cautela”, disse. Segundo Eduardo, nascido na pequena cidade de Ponte Nova, em Minas Gerais, um dos principais diferenciais desta individual – a terceira na Arte Periférica e a quinta de sua carreira – é justamente o fato dela se apresentar mais centrada no tema proposto: “Essa teve um processo criativo diferente. Geralmente, eu trabalho uma temática e vou criando outras relações a partir desta referência. Essa, em específico, eu consegui costurar mais os elementos e me manter mais fixo. Está mais completa e com menos conversas”, emendou o artista, ao ressaltar o predominante uso de folhas de ouro: “Essa é a primeira vez que trago a folha de ouro em quase todas as peças da exposição. Por representar essa dualidade, do profano e do sagrado, achei que poderia usar o ouro sem destoar. É uma novidade”, apontou.

Apesar de estar centrada no virtuosismo do figurativo e nos retratos, a obra de Eduardo não se limita à reprodução e, neste caso, as “interferências” utilizadas acabam por assumir um importante papel em seu trabalho, a considerar que, segundo ele, tais experimentações sempre costumam contrapor as regras mais técnicas e dar mais peso à obra. “O fato de gostar de trabalhar a figuração acaba por deixar minhas histórias muito claras, e a experimentação me ajuda a fugir desta forma pela forma. Eu comecei por pintar retratos e, com o tempo, cheguei a uma fórmula que começou a me deixar um tanto quanto restrito. Apesar de ser bom do ponto de vista comercial, não era bem isso o que procurava. O uso de novos elementos e do próprio movimento tornam as obras mais espontâneas e me dão uma liberdade maior”, declarou Eduardo, que veio a se dedicar às artes somente depois de ter se abdicado da graduação em geografia e do bar que mantinha em Viscosa – “Foram os dois anos mais agitados da minha vida”, ironizou o artista, que, ao tomar “a difícil” decisão de seguir sua vocação, foi fazer Belas Artes na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e logo percebeu estar certo em sua escolha. Na sequência, já com certo retorno, veio o mestrado em pintura na Faculdade de Belas Artes de Lisboa e, por consequência, o início de sua saga entre Brasil, Portugal e o mundo, com direito a uma passagem por Nova Iorque.

Mesmo dentro de uma trajetória acadêmica e com um considerável currículo dentro do circuito de arte contemporânea – com destaque para a constante presença na Feira Internacional de Arte de São Paulo (SP Arte), a participação na última edição da SWAB Art Fair (em Barcelona), as individuais em Lisboa e as coletivas realizadas nos Estados Unidos, Uruguai e Macau (na China) -, a obra de Eduardo Fonseca também consegue transitar livremente pelas ruas, algo que, para ele, é “super complementar”. “A minha pintura no ateliê segue um tempo próprio. Demoro muito para concluir um trabalho e isso me permite pensar mais na obra, que, geralmente, baseia-se em um processo técnico e uma linha de estudo mais especifica. Na rua, por outro lado, as obras são mais soltas, rápidas e possuem um contato direto com o público, ou seja, um retorno ainda mais rápido. Eu gosto desta relação, embora seja uma realidade completamente diferente da encontrada no ateliê”, declarou o artista, atualmente representado por duas galerias: a Arte Periférica, em Portugal, e a AM Galeria de Arte, no Brasil. “Eu preciso de alguém que me represente para que eu possa me concentrar totalmente no trabalho artístico. Não lido muito bem e nem tenho muita vocação para esta parte mais burocrática”.

Trabalho de Eduardo Fonseca em Alfama, Lisboa / crédito: @ctrlaltrua

Se antes, na época do bar em Viçosa e das charges no pequeno jornal de Ponte Nova, Eduardo ainda não imaginava o que a arte poderia lhe proporcionar; hoje, após inúmeras conquistas e projetos concluídos, o mesmo também não se mostra acomodado e, aos 33 anos, diz sempre estar aberto a novos desafios, seja em futuros experimentos com a escultura – pela qual diz ter muito apreço – ou em sua caminhada mundo afora. Aliás, neste aspecto, o bicho está mesmo solto. “Estou sempre lá e cá, ainda mais pelo fato de agora ter uma namorada que vive em Paris. Não tem mais aquele mesmo impacto como antes, mas gosto muito de viajar, de presenciar diferentes realidades, de conhecer novos lugares e de desmitificar. Para quem possui uma inspiração direta no retrato, isso se mostra fundamental. Faz muito bem a mim e, por consequência, ao meu trabalho”, apontou o jovem artista, que, a respeito da crise no Brasil (e no mundo) – da evidente confirmação do que já havia citado no ano anterior -, não escondeu seu descontentamento, mas preferiu deixar um pensamento positivo com base numa declaração do ex-presidente uruguaio José Mujica: “A evolução nunca é linear, ela sempre passa por altos e baixos (…) Temos que ser povitivos”, encerrou Eduardo. Que a nossa esperança sobreviva!

Os Sete Pecados Capitais / Arte Periférica
Centro Cultural de Belém, Loja 3. Lisboa.
Até 22/11. Entrada: Livre.

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