‘Attero’: Bordalo II em grande show

Em sua primeira grande individual, o artista abre o ateliê e vai às ruas para exaltar a forte mensagem de suas obras – exímios animais de sucatas. Confira a entrevista!
O artista Artur Bordalo a.k.a Bordalo II (Valerio Polici/Divulgação)

Com obras espalhadas por diversos lugares do país e do mundo, o artista português Artur Bordalo tornou-se uma verdadeira referência dentro da chamada “street art” com suas famosas peças criadas a partir de lixos e sucatas. Mas, em meio a toda visibilidade alcançada, ainda lhe faltava uma grande exposição em território nacional para apresentar seu trabalho do devido modo; ou seja, a dar voz a forte mensagem contida em suas intervenções, a ultrapassar possíveis delimitações e, principalmente, a envolver o público em geral. E são justamente estas as principais propostas da individual “Attero”, que, a justificar o longo o tempo de espera, surge como um verdadeiro marco na trajetória do artista, com direito a diversas ações nas ruas, conversas com ambientalistas convidados, workshops, livro, documentário e, é claro, uma consistente recompilação de sua obra. A ser realizada em seu próprio ateliê, um amplo armazém na região do Beato (Rua de Xabregas, 49), em Lisboa, o aguardado “solo show” de Bordalo II ocorre de 04 (abertura) de novembro a 03 de dezembro (prorrogada) e conta com entrada livre (presença obrigatória), a considerar que algumas das intervenções previstas já se encontram pelas ruas. Confira a programação completa das atividades anunciadas e a exclusiva entrevista com o artista, realizada no próprio local da exposição.

“Half Fox”. Obra de Bordalo II no âmbito da exposição “Attero” / crédito: @ctrlaltrua

À primeira vista, eram pedaços de canos, tubos, cones, pneus, contentores, luminárias e peças de carro por todos os lados. Em meio ao amontoado de lixo, poeira e obras a serem finalizadas, Artur interrompe o árduo trabalho para atender a imprensa e falar um pouco sobre a sua primeira grande exposição, que, por sinal, conta com curadoria de Lara Seixo Rodrigues. Marcado pelo contraste entre a arquitetura original e os sinais de abandono, o que acentuava ainda mais a beleza do espaço de tijolos à mostra, o imenso armazém de 650 m2 parecia pequeno diante da magnitude das obras e de todo aquele caos, que, segundo o artista, costuma ser pior. É neste local que Bordalo II transforma sucatas em arte e que grande parte de suas peças foram criadas, como os imensos “Flamingos” expostos no Festival Iminente do ano passado e, mais recentemente, o “Half Orangotango”, montado no interior de uma carrinha e exposto em Londres dentro deste mesmo festival. “Isso aqui estava muito pior. Tiramos imensas tralhas e ainda tem muita coisa por tirar. Mas, até o dia da abertura, estará tudo limpo”, garantiu o artista, ao caminhar por uma espécie de circuito, um percurso criado com direito a distintas portas de entrada e de saída,  divisões de espaços e imensas obras ao redor. Neste caso, a ideia passa por proporcionar uma experiência imersiva, na qual o público tem a chance de integrar o cenário composto e, por exemplo, transitar pelo fundo de um mar de sucatas e peixes de lixo.

“Flamingos”. Trabalho de Bordalo II no Jardim de Oeiras / crédito: divulgação

“Quero que as pessoas venham até aqui não somente para ver um monte de obras e animais bonitinhos, mas que também possam refletir e questionar suas próprias ações perante o planeta e sua sustentabilidade. O próprio título – ‘Attero’, que seria aterro em latim – já faz uma referência ao modo como as pessoas lidam com seus desperdícios e o lixo produzido nas grandes cidades”, declarou Bordalo II, ao ressaltar que a exposição apresentará “uma espécie de recompilação de coisas mais antigas com peças menores e muitas novidades”, como a série “Plastic Trash Animails”, que mostra-se como uma extensão da famosa “Big Trash Animals” e na qual as esculturas não são recebem o acabamento final em pintura. “Sempre quis fazer uma grande exposição, mas eu nunca conseguia encontrar tempo para me dedicar e, desta vez, vinha o ano todo a trabalhar com esta data já em mente. Acho que também calhou de vir no momento certo”, detalhou o artista, que, somente nos últimos dois meses, passou pelos festivais Arte Publica Leiria, UrbanNationBerlin (Alemanha), NoLimitBoras (Suécia), Boreal (Espanha) e FayetteVillear (Estados Unidos), entre outros. O fato é que, em apenas quatros anos de estrada, o artista já passou por 18 países, três continentes e já teria reciclado mais de 28 toneladas de lixo com suas obras – uma estimativa contida no material de divulgação da exposição.

“Bear”. Peça em Turim, na Itália, onde realizou a individual “Decomposed” / crédito: divulgação

Questionado sobre o caráter independente da exposição, que não traz a chancela de nenhuma galeria, Bordalo II mostrou-se seguro de sua escolha e disse que tal formato acabou por se ajustar melhor a proposta que tinha em mente: “A exposição não foi realizada em nenhuma galeria mais pela questão do espaço. Acho que nenhuma galeria me permitiria fazer o que vou apresentar aqui. Não tenho nada contra as galerias, acho importante essa parceria e essa relação mais comprometida com o mercado – o que dá certa tranquilidade para o artista se dedicar a outros projetos -, mas queria ter mais liberdade e autonomia para fazer as cenas do meu jeito e o que bem entendesse. Acho importante também sentir este ‘felling’ de independência. Aqui, se quiser partir uma janela, não haverá nenhum problema”, respondeu o artista, que, apesar de ter a arte presente na família e da influência direta do avô, o pintor Real Bordalo (1925-2017), diz ter começado a trilhar seu caminho mesmo no “graffiti puro e duro” – “aquele mesmo do mal”, como enfatizou. No entanto, segundo Bordalo II, era preciso “fazer algo de jeito” para conseguir chegar às pessoas em geral e, por consequência, dar continuidade ao nome herdado com um trabalho mais respeitado.

“Half Rabbit” Obra de Bordalo II em Vila Nova de Gaia, em Portugal / crédito: divulgação

“O graffiti, se você for analisar bem, é como uma espécie de propaganda voltada apenas aos outros grafiteiros e alguns mais que compreendem a mensagem. Acho que por ser muito restrito, sempre procurei novas formas e novos suportes para desenvolver minha arte. Mas não há duvidas de que trago essa essência em meu trabalho atual”, declarou o artista, expulso da Faculdade de Belas Artes de Lisboa no terceiro ano. “Apesar de não ter concluído o curso, eu achei muito válida a experiência e aprendi muita coisa por lá. Muitas pessoas vão somente para passear, e eu entrei para fazer pintura. Mas o que mais me marcou foi o contato com a escultura, com as peças em cerâmica e em barro. Isso acabou por ampliar muito o meu trabalho”, indicou Bordalo II, enquanto fazia uns bombs num pedaço de papel. As esculturas feitas com sucatas, no entanto, ele diz ter começado através de simples experimentos e com o lixo acumulado em seu próprio quarto, como caixas, latas, garrafas e etc. Na ocasião, segundo o artista, a ideia passava por montar alguns cenários com base nas pinturas do avô. A partir daí, após inúmeros testes, diferentes intervenções e várias temáticas abordadas – como a exploração sexual, a crise econômica e as brincadeiras nos trilhos dos comboios -, veio a primeira série de animais na rua (caso da Bordaleta em Alcântara) e a consequente consolidação de sua linguagem: a causa ambiental. “O fato de trabalhar com resíduos dá um grande impacto a minha obra e mantém meu discurso muito ligado à questão ambiental. Mas, a minha cena é mesmo essa; da reciclagem, do artivismo e da consciência ecológica”, completou.

Attero _ Mixed Trash Animals _ Raposa do Deserto
“Raposa do Deserto”, obra que estará presente na exposição “Attero” / crédito: divulgação

Além de todas as atividades paralelas previstas, como o lançamento de um livro e a projeção do documentário “Bordalo II – A Life of Waste”, com direito a presença dos realizadores Trevor Whelan e Rua Meegan, a exposição ainda traz como destaque uma cativante série de obras em menor escala – “que cabem dentro de casa e dão bem menos trabalho”, como ironizou o artista, ao exaltar a dificuldade em fixar suas peças na parede. “Essa é a parte mais complicada. Geralmente, em média, levo dois dias para realizar uma intervenção. Quando as peças não são fixas na parede, fazemos uma espécie de esqueleto em madeira e acaba por simplificar. Mas, as peças grandes, que precisam ser dividas em partes, tendo em conta o seu peso e volume, costumam dar imenso trabalho para serem fixadas. As peças menores acabam por serem mais fáceis, mas também requerem outro tipo de detalhamento e cuidado”, apontou o artista, ao ressaltar que a série “half”, que traz os animais divididos entre a parte pintada e a outra exposta, surgiu durante a elaboração de uma miniatura de coelho, uma peça que integra a exposição e que também foi retratada em grande escala neste ano no fórum internacional Gaia Todo um Mundo. “Aqui, neste caso, foi a própria divisão da base que me forçou a ver essa divisão e, apesar da semelhança, não vejo as peças menores como esboços. O processo é muito diferente, os cuidados e, às vezes, até mesmo a proposta”, explicou o artista antes de reforçar o convite para sua aguardada exposição: “Espero que todos vocês possam estar aqui no dia 04 (de Novembro)”, finalizou. Agora, dado o recado, é ver com os próprios olhos, adentrar ao universo proposto e tirar suas próprias conclusões. Todos ao “Attero”… Até breve e até lá!

Agenda de atividades:

11/11
15h — Atividade reservada para a SPECO — Sociedade Portuguesa de Ecologia, no âmbito do Encontro Nacional de Ecologia.
16h — Visita Temática com João Farinha, biólogo de Recursos Faunísticos e Ambiente, actual Chefe de Divisão de Valorização de Áreas Classificadas e Coordenador da marca Natural.PT do ICNF — Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas.
Inscrições gratuitas e limitadas a 20 pessoas

12/11
16h — Tertúlia do “Lixo Marinho” com a moderação de Paula Sobral, bióloga Doutorada em Ciências do Ambiente e Professora da FCT-UNL, fundadora e Presidente da APLM — Associação Portuguesa do Lixo Marinho, entidade sem fins lucrativos convidada pela SPECO — Sociedade Portuguesa de Ecologia. Entrada livre.

18/11
16h — Apresentação da AIRLITE, empresa parceira da exposição.
Entrada Livre; Sessão em Inglês.
17h30 — Visita guiada da Curadora, Lara Seixo Rodrigues.
Inscrições gratuitas e limitadas a 30 pessoas.

19/11
15h — Workshop do Artista com um grupo de crianças desfavorecidas.

25/11
15h — Workshop do Artista para um grupo de crianças.
Inscrições gratuitas e limitadas a 15 crianças (dos 8-12 anos).
17h30— Apresentação de projecto de entidade parceira.

26/11
16h — Visita guiada pelo Artista.
Inscrições gratuitas e limitadas a 30 pessoas.

“Attero” – Bordalo II
Local: Rua de Xabregas, 49. Beato. Lisboa, Portugal.
De 04/11 (abertura, das 16h às 21h) a 03/12
Entrada: Livre/ Horário: de Qua. a Dom., das 14h às 20h.

 

 

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