Halfstudio: da sinalética aos murais

Com uma série de murais país a fora, o casal de artistas e designers Mariana Branco e Emanuel Barreira vão além do lettering e sign painting. É Half, mas por completo!
Mariana Branco e Emanuel Barreira do Halfstudio – crédito: halfstudio.net

Primeiro veio o namoro; ela, de Caldas da Rainha, e ele, de Setúbal. Na sequência, a fim de legitimar os trabalhos extras em design, veio a assinatura em conjunto – a aliança do casal. No entanto, naquela época, em 2010, Mariana Branco e Emanuel Barreira não tinham nenhuma pretensão artística e sequer sonhavam em pintar nas ruas. Neste aspecto, a realidade só começaria a mudar a partir da descoberta de uma nova paixão: as letras e sinalética pintada à mão, algo muito comum na Inglaterra e nos Estados Unidos e que, em Portugal, começava a ter certa procura dentro do segmento “vintage”. Ao adentrar de cabeça no universo do chamado “lettering e sign painting”, na resistência do trabalho manual em meio ao avanço das novas mídias e suportes, o Halfstudio conseguiu firmar sua proposta e conquistar seu espaço, passando a se aventurar entre os trabalhos comerciais e os mais artísticos, vide a participação na edição do Festival Iminente em Londres, onde criaram uma peça em conjunto com ninguém menos que Vhils, Caver, Contra e Frederico Draw, e a recente pintura na zona portuária de Boston (Seaport) – “Boston is the new Boston”, um trabalho similar ao realizado no Village Underground Lisboa e que, segundo eles, “não teria nenhum problema se virasse moda e seguisse para outras cidades do mundo”. Diante de tais feitos e da projeção alcançada nos últimos anos, a contar com uma série de grandes murais pelo país, o Ctrl+Alt+RUA foi ao estúdio dos artistas para saber um pouco mais sobre as propostas e o futuro do projeto. É Half, mas por completo!

“Babel”. Instalação realizada no Festival Iminente, em Londres – crédito: José Pando Lucas

“Tínhamos o estúdio, mas era mais voltado ao design. Em 2012, nós dois ficamos desempregados e começamos a estudar o sign painting por conta própria – até porque não havia dinheiro para irmos para a única escola que existe, que fica nos EUA. Passamos a pesquisar a técnica, a estudar os materiais e decidimos comprar as tintas e os pincéis. Gostávamos da cena das letras, até pelo background do design, e do facto de nos libertar da frente do computador. Estávamos saturados desta rotina e, as tantas, a pintura à mão acabou por dar um novo sentido. É uma atividade muito mais prazerosa e acho que isso foi fundamental”, afirmou Emanuel, que, apesar de ter acumulado algumas experiências com intervenções urbanas nos tempos de faculdade em Caldas da Rainha, diz nunca ter sido um “gajo do graffiti”. “Essa lata ainda nos falta, somos mais certinhos”, brincou Mariana, ao ressaltar que, a princípio, o propósito era mesmo a pintura de letreiros e sinalética, embora os convites para exposições e intervenções em grande escala não tenham demorado a surgir. “Por incrível que pareça, os trabalhos maiores acabam por serem mais fáceis. Levam mais tempo, claro; mas não são tão meticulosos e isso facilita muito a realização”, completou a artista, ao exaltar a facilidade da adaptação aos murais. Segundo o casal, em termos de pintura, o processo é basicamente o mesmo, a considerar que todos os trabalhos sempre começam pela elaboração da frase e pelo desenho à mão no papel, que, na sequência, é digitalizado e impresso ou projetado de acordo a medida desejada. “Em nossa primeira exposição, realizada em 2015, em Barcelona, levamos na mala um decalque com as mesmas dimensões da parede”, contou Emanuel, ao lembrar de algumas das dificuldades enfrentadas.

Se a adaptação das montras à grande escala não chegou a ser um problema, a relação entre os trabalhos comerciais e a linguagem artística também não parece carregar dilemas. Segundo eles, apesar do conceito ser basicamente o mesmo, as propostas acabam por terem propósitos diferentes: “Nos trabalhos comerciais temos que atender as exigências do cliente, e a intervenção muda de acordo os objetivos. Nos murais artísticos, mesmo dentro do nosso trabalho lettering, temos mais liberdade para explorar nossa própria linguagem. Usamos muitas cores vivas e as mensagens sempre são diretas ou escondem alguma piada, alguma relação com o entorno”, pontuou Mariana. “As intervenções realizadas nas ruas são destinadas às pessoas, principalmente àquelas que transitam e passam a conviver com o trabalho. É claro que as características da parede em si também interferem na elaboração do mural, mas sempre vamos em busca de alguma citação que faça sentido para elas e para o local. Aliás, acho que essa é uma grande vantagem da arte urbana; de você conseguir levar sua mensagem de modo direto, de se comunicar e ir de encontro ao público”,ressaltou Emanuel, ao exemplificar que, devido ao clima vivido em Londres no momento, as peças elaboradas dentro do Festival Iminente traziam uma reflexão sobre a questão do Brexit. “No Borders”, “Hate ain´t nothing”, “React”, “Union”, “Word”, “Together”, “Now” e “Fear Less” foram algumas das palavras usadas para compor a intervenção em conjunto com o seleto time de artistas portugueses. “Esse foi o nosso primeiro trabalho em conjunto e essa fusão foi bem interessante. Gostamos tanto do resultado final como de toda a experiência. O retorno foi bem positivo, e a instalação também acabou por fazer parte do festival em Oeiras, na segunda edição em Lisboa”, completou.

Mural pintado na última edição do WOOL, na Covilhã – crédito: Pedro Seixo Rodrigues

Questionados sobre a suposta limitação de um trabalho baseado nas letras e nas possíveis dificuldades de definir uma estética a partir de um elemento comum, os artistas dizem não seguir uma formula em especifico e, por isso, afirmam estarem sempre em busca de novos elementos para quebrar a “mesmice”. “Não pensamos em manter uma fórmula pronta. Ao contrario, o desafio é seguir a nossa identidade, mas sempre buscar algo diferente, como a variação de estilos de letras, a sobreposição, a composição de um fundo, o uso de perspectiva anamórfica ou outros suportes. No início, até nos preocupávamos com a identificação dos nossos trabalhos, em saber como as letras poderiam ser reconhecidas e associadas às demais ações… Mas, a partir do retorno das pessoas, notamos que os trabalhos já carregavam esse algo em comum e, com o tempo, passamos a ver isso com mais facilidade. Hoje já reconhecemos esse lado mais autoral em nossa estética”, declarou Emanuel, ao ressaltar que, neste caso, a tendência é que os trabalhos do Halfstudio tenham uma composição cada vez mais artística e menos sinalética. “Alguns artistas possuem uma estética facilmente reconhecida. Você vê aquilo e sabe quem fez. Dentro do universo figurativo isso torna-se mais fácil pelo facto de haver mais elementos a compor uma imagem. Mas, no caso das letras, você têm os estilos de letra, as cores, os fundos e as próprias mensagens. Começamos por ai”, afirmou. “No início, até tentávamos pensar e fazer as coisas mais juntos. Mas, atualmente, eu vou fazer, começo a trabalhar em algo e depois mostro para ele. Às vezes, temos algo parecido ou que se completa… Enfim, funciona melhor assim, cada um a contribuir com sua visão”, rebateu Mariana, ao falar sobre a definição das frases e das tarefas.

“Tão Bela e Preciosa” Mural no festival AgitÁgueda, em Águeda – crédito: Lara Seixo Rodrigues

Animados com a recente intervenção em Boston, um convite que culminou na realização do primeiro mural internacional – com direito a convite de produção a JustKids -, os artistas dizem vivenciar uma maior aceitação dos letreiros feitos à mão de modo geral e, mesmo na rua, afirmam nunca terem passado por qualquer tipo de constrangimento. “Hoje há um maior reconhecimento e também um maior mercado. Existem muitos estabelecimentos novos e uma nova mentalidade de valorização do trabalho artístico. Tem aquela questão do vizinho ter e você também querer e isso é normal. Também nunca sentimos qualquer rejeição nos trabalhos realizados nas ruas. Acho que se fosse há uns anos atrás, até poderia acontecer algo deste tipo. Mas hoje em dia existem inúmeros artistas que não são propriamente do graffiti a pintarem nas ruas e sempre tivemos muito apoio”, declarou Mariana sem esconder a empolgação com as últimas realizações da dupla, que, por sinal, segue a todo vapor com participações na Poster Mostra, na Web Summit  (com curadoria de Lara Seixo Rodrigues) e na Democr’art, exposição coletiva que reúne mais de 30 artistas até o dia 17 de dezembro na LX Factory. Neste aspecto, no que depender da vontade dos artistas, o ritmo tende a permanecer intenso. “Seguiremos a fazer nossos trabalhos comerciais, mas com mais critérios e mais fieis a nossa proposta. A ideia é também ter tempo para desenvolver as nossas cenas e, se possível, realizar mais murais. Queremos viajar mais e explorar novos destinos, novos idiomas e passáramos a enviar algumas propostas nesse sentido. Temos a vontade de fazer uma exposição para o ano e, por isso, é preciso se programar e saber priorizar o que se mostra mais importante”, finalizou Emanuel.

Mural em perspectiva anamórfica realizado no ESTAU, em Estarreja – crédito: halfstudio

Mais informações sobre Halfstudio em: halfstudio.net

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