SpiderTag: nas teias do ‘superhero’

Com intervenções criadas a partir do uso de fios e cabos luminosos, o artista anônimo fala sobre sua trajetória nas ruas e a evolução de seu trabalho. Tá ligado?!
SpiderTag pelo fotógrafo Casper Jarmo

A alcunha de “Peter Parker” veio logo cedo, nos tempos de escola, por conta do gosto pelas escaladas e do humor irônico. O interesse pela arte também, a considerar a pintura do primeiro mural ainda aos nove anos – um cavalo no campo na casa do avô, algo que descreve como uma “lembrança colorida”. No entanto, para quem se dedicou ao basquete até aos 17 e ainda sonhava em ser DJ de rádio, a arte urbana só começaria a fazer sentido mais tarde e, na ocasião, em 2008, a ideia era usar a liberdade criativa para tentar fazer algo diferente nas ruas. Foi nesta época que o artista descobriu os fios, passou a usá-los em suas intervenções e deu início a suas aventuras como “SpiderTag”, um suposto “street art super hero” que, de herói mesmo, traz apenas a vontade de viver de sua arte e o anonimato de sua identidade. “Eu comecei a trabalhar (com arte) nas ruas em 2008, quando estava a procura de materiais para sair da parede. Ao passar a usar os fios, notei certa semelhança à questão da aranha e adicionei o ‘tag’ ao nome para se tornar algo único e especial dentro do estilo ilegal e urbano”, explicou o artista em entrevista exclusiva ao Ctrl+Alt+RUA, na qual também fala sobre a evolução de seu trabalho, a transição para os cabos luminosos e a recente série na ArtWeek de Helsingborg, na Suécia. Solta a teia, super-hero!

Mural de SpiderTag na ArtWeek de Helsingborg, na Suécia

“Eu tive muitos períodos na minha vida artística e fiz muitas coisas. Estudei história da arte por conta própria, visitei muitos museus e também andei pelas ruas, pelo país e etc. Abstração e geometria sempre me impressionaram, dos russos à Op Art. Também lembro-me de estar em uma galeria em Londres, numa exposição de Dan Flavin, e adorar tudo que via. Passei por um período ruim entre 2014 e 2015 e deixei de funcionar. Foi um período difícil, mas, no final de 2015 e início de 2016, decidi me colocar de volta no jogo e, depois de  algum tempo e por sorte, encontrei os cabos (luminosos). Eu sorri muito e estava realmente feliz”, declarou SpiderTag, que, no início, usava apenas os fios para traçar suas obras – às vezes, com alguma pintura minimalista e abstrata ao fundo. Nessa época ainda não havia os cabos luminosos, algo que, como ele mesmo diz, o trouxe nova energia para seguir adiante: “Os cabos mudaram tudo. Foi a descoberta de algo único, algo que ninguém na arte de rua estava usando. Então, foi uma situação mágica e bastante rara. Desde aquele momento, no início de 2016, tenho aprendido muito sobre os materiais e descoberto novas maneiras de explorar o quê e como fazer. É um desafio incrível e constante, sempre em busca de superação”.

Apesar de todas as mudanças vistas e vivenciadas nas ruas, principalmente com a legitimação da arte urbana e seu respectivo mercado, SpiderTag diz perseguir os mesmos objetivos e, mesmo sem a pretensão de salvar o planeta ou figurar de rockstar, mantém-se firme em busca de novas experiências através de sua arte. “Comecei a fazer arte como expressão e percorria muitos estilos diferentes. Então, eu descobri a arte de rua e, na época, tudo parecia uma coisa nova para mim. Via a arte de rua cheia de criatividade e liberdade, e seu lado ilegal como uma forma de rebelião para a sociedade. Agora, provavelmente, é tudo muito comercial ou parte do mercado da arte, acredito eu. Mas eu ainda gosto”, apontou o artista, ao detalhar o ponto que marcou a sua transição de estilos, a individual “Secuencias Mínimas”, realizada em abril de 2016, na Swinton Gallery, em Madrid. “Fazer um show indoor foi um desafio muito difícil para mim. Eu não me sinto confortável dentro de uma galeria, me sinto chato. Então, eu tento o tempo todo fazer algo diferente. O problema é que a galeria quer algo para vender e eu gosto mais da ideia de uma intervenção completa, de criar uma experiência e não apenas um lugar para comprar obras de arte. De qualquer forma, tentei juntar as duas ideias e fiz uma intervenção no espaço (que não estava à venda) e outras coisas como paletes ou peças de madeira para vender. Tudo novo e feito para o show. Esse foi o fim do último período e também o início do novo”, disse.

Com quase dois anos dedicados exclusivamente às intervenções com cabos luminosos, o artista mostra-se convicto com o novo percurso assumido e, entre novas cores e formas, diz descobrir um pouco mais a cada obra realizada, a considerar que as peças iluminadas o levaram para outra dimensão e outro universo de atuação – como se fosse uma versão “dark knight” do SpiderTag. “Às vezes, eu acredito ter misturado os super-heróis. Como tenho usado muito o martelo também me lembro do Thor”, ironizou o artista, ao ressaltar a mudança de ambiente com suas novas peças: “Eu sempre trabalhei com o espaço, mas, agora, talvez seja mais sobre o espaço – um outro tipo de espaço, mas ligado ao natural e ao vazio. Para mim, a busca por locais sempre foi muito importante para a realização das minhas obras, a considerar que a composição é uma das principais chaves da arte de rua e um lugar nunca é igual a outro. Não é como um bombing …  Agora, se encontro um lugar agradável, eu também tenho que verificar como isso funciona durante a noite, ver a luminosidade ao redor e ver se os cabos funcionarão como eu preciso”, indicou o artista, ao citar uma falha técnica em sua primeira grande parede, uma fachada com 26 metros de altura. “Tive uma série de problemas e falhou, mas segui investigando até chegar à resolução. É assim”, completou.

Perguntado sobre o tipo de luz usada e na inevitável dependência de energia para acender suas obras, SpiderTag minimizou as teóricas adversidades e disse não precisar de grandes estruturas para ligar as luzes. “Eu não gosto de LED por causa da questão estética. Eu não gosto de ver os pontos de luzes e, felizmente, os meus cabos não são conduzidos. É como fibra óptica com tinta fluorescente líquida. E é bom que eu posso usá-los com baterias, com meios que são portáteis e, por isso, tenho mais mobilidade nas ruas. Os cabos também possuem uma boa flexibilidade e, neste caso, se parecem muito com o fio. Então, basicamente, é um material semelhante ao que eu tenho usado desde 2008, mas com características incríveis”, declarou o artista, ao recordar que tal técnica também passou por muitas experiências anteriores: “Uma história: Em 2012, fui com um fotógrafo suíço (Thomas Stöckl i) para os Alpes para fazer um trabalho de viagem durante a lua cheia. Uma das peças era colocar garras de 16 cm na neve para passar o fio branco sob a lua cheia. E nós levamos as luzes negras da montanha com um gerador de gasolina para transformar o fio e o mesmo ser visível à noite. Olha, hoje eu só precisaria das mesmas garras, cabos em vez de fios e uma pequena bateria. O que quero dizer é que é um grande novo passo, mas também algo que já estava na minha mente como experimentação”.

Após a recente experiência vivida na ArtWeek de Heksingborg, onde esteve com uma grua, três ajudantes e muita energia para criar uma intervenção diferente a cada dia de evento – com direito a murais, peças com mistura de cores e esculturas em locais inóspitos -, SpiderTag  disse estar muito feliz com tal realização, com a oportunidade de exibir e aprimorar sua obra, e exaltou a receptividade encontrada na Suécia: “Um amigo me disse uma vez que, em qualquer carreira artística de rua, você encontrará cidades que serão importantes em sua vida. A primeira foi Granada, na Espanha, onde estive muitas vezes e fiz projetos incríveis, como o documentário experimental ‘La Catedral Futumétrica’, com EC13 e El Niño de las Pinturas. Mas, as cidades de Malmö e Helsingborg representam um novo ponto de viragem. Eu passei a viver lá e encontrei muitas conexões para desenvolver meu trabalho neste momento, graças ao curador e amigo Peter Eriksson, que ama e acredita na minha nova direção e esforçou-se muito para tornar possível esse novo desafio com grandes muros. Ele organizou a Artweek”, apontou o artista, que, “por já viver no futuro”, diz não ser de traçar planos. No entanto, segundo ele, é seguir com a teia ligada em busca de novas ondas: “A agenda é seguir em movimento. Estou sempre à procura de desafios e novas formas de experimentar, como os surfistas a procura da melhor onda”, finalizou o artista.

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