Tiago Hesp: “a alegria da caverna”

Em individual na Apaixonarte (até 28/04), o artista recorre ao mito platônico para expor suas verdades e telas mais recentes. Das ruas de Miratejo adiante… na luz!

Numa clara referência ao mito da caverna, a filosófica alegoria em que Platão argumenta como a condição de escuridão pode nos aprisionar, o artista português Tiago “Hesp” Proença evoca a luz libertadora da parábola em questão para firmar a verdade de sua arte e dar vida à exposição “A Alegria da Caverna”. A contar com alguns trabalhos mais antigos de colagem e sobreposição em papel, com direito ao lançamento de uma impressão digital da peça “Pássaro e Meio”, e outras pinturas mais recentes em telas, a individual em questão segue aberta ao público até o dia 28 de abril, na Apaixonarte (Rua Poiais de São Bento, 57 – Lisboa).

O artista Tiago “Hesp” na abertura da exposição (Crédito: JP Carvalho)

“Olha, afinal, o rio não é apenas o som da água que ouvíamos de dentro da caverna. Ele existe, ultrapassa obstáculos e segue seu curso”, declarou Tiago em conversa com o Ctrl+Alt+Rua, realizada num café em frente à loja-galeria coordenada por Cláudia Cordeiro e Ricardo Milne. “Isso é a saída da caverna; uma coisa que nos faz bem, que é feita com alegria e total satisfação. São trabalhos que, mesmo com algumas inconsistências, eu já planeava mostrar pela sua lógica, pela sua sequência, e calhou de surgir este convite”, completou.

Segundo Hesp, que possui formação em cenografia e que começou a pintar através do graffiti nas ruas de Miratejo, na margem sul de Lisboa, esta é uma exposição de procuras e redescobertas; um reaprender, uma espécie de auto-avaliação do artista – “um conceito que, na verdade, sou eu próprio”, como disse. Desta forma, ainda que modesta, a ocupar apenas uma parede, a exposição mostra-se grandiosa ao evidenciar o artista em seu íntimo, em seu regresso. “É para isso que agora estou a trabalhar, ciente de que a minha melhor pintura será aquela que vou fazer amanhã”, emendou Tiago.

“Vejo muito desta minha procura, do trabalho de cor, de composição e do fato de sair da zona de conforto e ir para além do estético”, declarou Hesp, ao exaltar o modo “descuidado” das pinturas, os grafismos e o toque naif quase infantil contido nas obras. “Vejo esta uniformidade e sei de onde estas coisas vêm. A tela ‘Lobo bom’, por exemplo, está mau pintada para que as pessoas não se prendam ao bonito. Não quero que sejam perfeitos, quero que tenha os buracos que tenham de haver… Assim é a vida”, apontou o artista, que também legitima o cenário proposto com um afiado texto de sala autoral.

A levar em consideração as exposições realizadas no último ano, “Ir à Lenha, Ver os Bichos” e “Ir à Lenha, Ver os Bichos – Exodus”, a nova individual do artista reforça ainda mais o predomínio da figura animal, algo que, segundo o artista, estaria relacionado a um desgaste profissional e uma consequente aversão às pessoas – “Não fazia questão de estar e muito menos de retratar pessoas”. “Essas exposições anteriores representaram uma fuga ao mato, com mais colagens e sobreposições, enquanto esta marca o regresso, o retorno comigo mesmo, e mostra-se mais focada num trabalho de pintura, algo que tenho tido mais prazer em fazer”, explicou Hesp, ao ressaltar que também deseja voltar a pintar com mais regularidade nas ruas – “a fazer umas pinturas com o amigo ‘Ketam’ (@msaerografia)”.

“Eu comecei a pintar através do graffiti ainda em (19)98, com as letras em 3D e aquele jogo de luzes e cores, embora nunca tenha me considerado um grafiteiro propriamente dito. Sentia-me meio formal para a rua e também com muita referência de rua para a Belas Artes. Mas, era esta a minha primeira opção (na faculdade) e, no geral, acho que sempre estive mais interessado em desenvolver minhas próprias cenas, meus experimentos em locais abandonados”, declarou o artista, ao ressaltar que algumas dessas obras não eram nem assinadas, como o colorido retrato na Fábrica Braço de Prata (na imagem). “Hoje eu penso diferente: acho que deves assinar. Se foi à rua fazer tem que assumir”.

Questionado sobre a atual cena artística da rua, do surgimento e da consolidação do conceito de arte urbana, o artista mostrou-se mais receoso: “Gosto de ir à rua pintar, mas também não sigo qualquer coisa do que se diz ‘streetart’. A meu ver, arte de rua engloba toda a arte que é feita na rua. De certa forma, sinto que isso não está a par de mim, do discurso, da postura, do fato de ter ‘swing’, ‘swag’ e em ser ‘cool’”, brincou Hesp, nome que, entre idas e voltas, carrega desde o início. “Mas, como não havia nem internet quando comecei a pintar, até gosto de acompanhar o trabalho de alguns artistas. Gosto muito das pinturas do Sebas Velasco, do Aryz e dos brasileiros do Bicicleta Sem Freio. Tem também o Mazzolandia (Thiago Mazza) que acho muito bom”, completou.

Após a realização da exposição na Apaixonarte, a satisfação de poder apresentar novos trabalhos e seu relativo retorno – “como eu também tive banda, eu tive que aprender a relativizar esse retorno” -, a ideia de Tiago é seguir em atividade e abrir espaço para os próximos desafios: “Tenho pensado numa nova série, algo menos livre e espontâneo do que tenho feito nos últimos tempos. Penso em algo mais disciplinado, mais centrado na temática e que me obrigue a seguir uma linha. Devo criar algo a partir de fotografias, mais para seguir as perspectivas do que o realismo em si. Enfim, vamos ver o que aparece”, finalizou o artista.

 

“A Alegria da Caverna” – Tiago Hesp
Apaixonarte: Rua Poiais de São Bento, 57 – Lisboa. 
Até 28/04, de seg. a sex., das 12h às 19h30. Sáb., das 11h às 18h.
Mais informações: www.apaixonarte.com

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